Bem sei que ainda não falámos de casas - que é uma outra forma de dizer que temos vindo a adiar, não sem alguma injustiça, escrever sobre aquilo que foi a Trienal.
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Falar de arquitectura
E no entanto, para além de próximas considerações sobre a mesma (brevemente, assim se espera), parece-nos (assim de repente) que esse objectivo de difundir a cultura arquitectónica junto ao grande público parece bem mais conseguido nesta coisa aparentemente tão simples chamada de A Casa e a Cidade. O primeiro e segundo episódios já estão on-line.
Crítica ao Futuro
Ou, por outras palavras, o regresso da (eterna) polémica d'O Sabor da Crítica, agora, em directo, na Domus. A descoberta, essa , coube a Tiago Borges.
Acerca da proporcionalidade da beleza
Ia começar a escrever qualquer coisa acerca do texto da Anatxu sobre o Byrne, e sobretudo sobre aquela frase aparentemente mitológica de Nuno Grande: la belleza de Lisboa es proporciona a su vulnerabilidad. Mas depois arrependi-me. Até porque a beleza é sempre proporcional à vulnerabilidade; sobretudo se não percebermos qual o sentido exacto da proporcionalidade. Ou da beleza. Que no fundo é a mesma coisa.
Do sabor (entrincheirado) da Crítica (2)
Provavelmente esta discussão em torno do sabor da crítica não reside afinal sobre o seu sabor, mas antes sobre aquilo que implica a própria palavra Crítica.
No fundo tem razão Nuno Grande: o ponto de vista de quem escreve crítica nos blogues não é o mesmo ponto de vista de toda essa gente que, durante anos, viu os seus artigos julgados, recusados, que tiveram que se submeter a escrutínios rigorosos (?) para puderem publicar.
A pergunta que se impõe é, evidentemente, o valor, mas sobretudo a utilidade desse veículo rigorosamente escrutinado. Senão vejamos: cada vez mais parece haver um real distanciamento entre essa academia que Grande defende, e aquilo que de mais interessante a criação arquitectónica tem para nos dar.
Essa academia que Grande parece querer acreditar tende a agir retroactivamente. Analisando, sempre muito, aquilo que foi feito, e prevendo, sempre muito, aquilo que nunca será feito; a capacidade da academia parece estagnar em tudo aquilo que não seja o acto de transmitir um receituário mais ou menos coerente, mais ou menos eficaz.
Não faz parte da sua natureza colocar-se em causa. Recordo, a título de exemplo, uma frase que ouvi da boca de um dos principais responsável pela direcção da FAUP. Dizia este eminente académico que preferia sempre rodear-se (de professores) que pensassem como ele, do que (professores) que viessem pôr em causa essa estabilidade tão cara à academia. Este homem, que com certeza sempre agiu em prol da defesa do conhecimento da FAUP, não mais faz do que procurar manter a barbárie fora de portas; esquecendo-se porventura que é exactamente do lado de lá da porta que reside o grande interesse das coisas e, sobretudo, o finalidade das próprias academias
O problema principal da tese de Grande reside exactamente no facto de que legitimar a Crítica através do escrutínio é – para além de crer cegamente na capacidade de um sistema quase sempre fechado sobre si próprio, cheio de vícios de forma e de limitações próprias daqueles que sobrevivem à custa do número de artigos publicados com peer review (mas alguém já pensou quem é que faz peer review em arquitectura?) – legitimar primeiramente um circuito de conhecimento que, para lá daquilo que possa ter de positivo ou negativo, é ensimesmado, e muito pouco consequente.
Não duvido, claro, das necessárias conclusões de uma tese de doutoramento, nem mesmo de todo esse maravilhoso conhecimento a que se obriga todo aquele que exerce a sua actividade profissional de crítico no seio da academia. E no entanto duvido, claro, da possibilidade de toda essa sagacidade poder ser posta ao serviço da arquitectura.
O problema aqui passa em muito pela incapacidade – para não falar na falta de vontade - da academia ser de facto útil à produção arquitectónica. Aliás, parece que a academia desdenha em muito aquilo que está na base da própria disciplina, tratando a maior parte das questões que a envolvem com a ligeireza própria de quem aredita que estas nunca tenham sequer existido; preferindo antes distrair-se com factos, certamente deliciosos, mas muito pouco consequentes, quer em termos colectivos, quer em termos individuais.
Evidentemente que a dictomia entre a academia e a actividade profissional (T. Hauser) é perfeitamente descabida; pelo menos no plano teórico. Ambas servem um mesmo fim. Só que esse entrincheiramento – ainda por cima consciente – que Grande e seus pares da academia invariavelmente se colocam, implica um total esvaziamento daquilo que produzem; pelo simples facto do conteúdo que produzem só ser lido e discutido em circuito fechado.
Um projecto crítico é obviamente independente do seu suporte (Gadanho), sendo a sua credibilidade dependente única e exclusivamente do seu teor. E isto aplica-se tanto a uma recensão sujeita a peer review, a uma prova académica, ou a um daqueles textos fáceis que se lêem todos os dias na blogoesfera.
Evidentemente que o suporte deste último tem as suas próprias limitações; que passam em muito pela aparente ligeireza dos textos, pela necessária rapidez com que são lidos e, sim, também, pela fácil apropriação por quem quer que seja. E poderemos, claro, olha-la, à Crítica feita na blogoesfera, com toda a desconfiança.
Por outro lado, podendo sempre exercer-se essa capacidade – tão cara aos académicos – em ser criterioso, não nos parece assim tão difícil saber separar a maldicência amadora da reflexão séria e intencionada, independentemente destas aparecerem travestidas de blogue, ou de páginas de uma qualquer revista arrumada na biblioteca de uma qualquer escola de arquitectura. E dessa forma encontrar a credibilidade de um texto publicado num blogue não é assim tão diferente de encontrar credibilidade num texto publicado noutro qualquer suporte.
Não creio saber se aquilo que pode ser entendido como crítica de arquitectura o é de facto, nos blogues. Nem sei mesmo se importa assim tanto limitar a crítica a um suporte.
Aquilo que (me) leva a reflectir sobre um projecto ou uma obra é, em primeiro lugar, tentar percebe-lo, a esse projecto ou a essa obra.
Encontrar-lhe as fragilidades, os erros, as imperfeições é, sobretudo, tentar que essas fragilidades, esses erros e essas imperfeições não se repitam no (nosso) próprio trabalho.
O acto de tornar públicas essas reflexões passa, evidentemente, por querer testá-las. Perceber exactamente a sua validade. E isso não mais é do que repetir um modelo assente na ideia que o debate é útil.
O acto de tornar públicas essas reflexões passa, evidentemente, por querer testá-las. Perceber exactamente a sua validade. E isso não mais é do que repetir um modelo assente na ideia que o debate é útil.
Na verdade esse exercício não é assim tão diferente daquele que nos faz aceitar dar conferências, participar em seminários, ou publicar projectos e obras: a expectativa de discutir, de aprender algo mais; e de tornar esse conhecimento colectivo em algo útil para os projectos que ainda não foram feitos.
Na verdade creio que um acto crítico é, antes do mais, uma acto de generosidade. Uma espécie de feed-back sobre o trabalho dos outros. Tentar transformar essa possibilidade numa trincheira não é portanto um simples exercício de auto-defesa, mas um erro grosseiro, violento até.
Na verdade creio que um acto crítico é, antes do mais, uma acto de generosidade. Uma espécie de feed-back sobre o trabalho dos outros. Tentar transformar essa possibilidade numa trincheira não é portanto um simples exercício de auto-defesa, mas um erro grosseiro, violento até.
Não me passaria nunca pela cabeça pôr em causa um qualquer projecto de arquitectura apenas por este ser feito por alguém que não granjeou ainda qualquer tipo de legitimidade profissional (um académico, por exemplo); simplesmente porque aquilo que me interessa num projecto é o projecto em si: a forma como é pensado, o seu conteúdo, e sua formalização, e as suas consequências disciplinares. Tudo o que se passa para além (ou aquém) disso é portanto dispensável.
Do sabor da crítica (1.1)
Do lado de lá do Atlântico, a farpa de João Amaro Correia a propósito da pertinência da proposição de Nuno Grande.
Do sabor da crítica (1)
Há umas semanas atrás, numa conversa paralela a esse evento cujo teor não mais poderá ser referido, Nuno Grande poria em causa a legitimidade dos Blogues em esboçar qualquer tipo de crítica.
Afirmava Grande que a aparente facilidade com que se aborda uma qualquer obra de arquitectura num Blogue não mais é do que um simples e desagradável exercício de ligeireza e de libertinagem, pouco próprio da responsabilidade a que se obriga todo aquele que reflecte sobre a disciplina.
A Tese de Grande sustenta-se na ausência de qualquer tipo de critério, de crivo, ou de objectividade por parte de todos aqueles que publicam opiniões (maldizentes, na maioria das vezes) sobre o trabalho dos outros; devendo-se tal facto, segundo Grande, à ausência de um sistema de legitimização de tudo aquilo que aparece escrito nos Blogues. Em rigor, Nuno Grande crê que o acto de reflexão e de produção crítica ou teórica nunca poderá ter lugar num lugar (passe o pleonasmo) onde não existe ninguém (para lá do autor) que possa confirmar (ou, em limite, recusar) o teor das ideias ou opiniões que aí são expressas.
Para Grande, expôr uma ideia numa revista, numa academia ou num seminário (onde naturalmente existe um editor, um júri ou um comité científico) será o único garante da qualidade e do rigor dessa exposição; pelo simples facto do seu teor passar a estar validado por um quórum alargado, que necessariamente partilha responsabilidades pelo que é dito ou pelo que é escrito.
Mais: Grande defende (veementemente) que um Blogue que tente reflectir sobre a produção arquitectónica constitui, em primeira mão, um perigo: não só para o objecto alvo de determinada reflexão (e, por arrasto, para autores desse objecto, que desse modo vêm o seu nome e o seu objecto de trabalho arrastados na lama da web), mas também - sobretudo - para o autor do próprio blogue, irremediavelmente associado à prática da libertinagem egocêntrica e da maledicência, doravante impossibilitado de poder exercer a credibilidade em todo o seu esplendor.
Partindo do pressuposto que Grande tem razão, poderiamos chegar todavia a uma conclusão relativamente simples: se reflectir (escrever, falar, críticar, opinar) sobre arquitectura tal como hoje é feito em revistas, academias ou seminários em Portugal equivale à ideia de consentimento, então os Blogues constituem porventura a possibilidade de fuga ao consenso.
Se a fuga ao consenso não será, só por si, facto especial a assinalar, a ideia de autonomia crítica ganha contornos bem mais interessantes se pensarmos no panorama extraordinariamente conservador da reflexão arquitetónica em Portugal. Porque se é verdade que nunca, como hoje, existiram tantas possibilidades de se apresentarem, discutirem e se concluirem ideias - seja através de exposições, conferências, seminários, revistas e outras publicações que cada vez mais enchem as prateleiras das livrarias - certo é que essa multiplicidade de pontos de vista não trouxe qualquer tipo de qualificação ao debate arquitectónico.
Se a divulgação arquitectónica nunca foi tão eficaz, tal facto não abriu no entanto portas a um debate que nos permitesse validar o seu conteúdo, nem mesmo a uma crítica que pusesse em causa o seu valor.
Vem tudo isto a propósito de um texto de Tiago Mota Saraiva (roubado, pel'As Catedrais, ao Facebook) e da (falta de) discussão que provocou, tanto aqui, como ali.
Se a intervenção de TMS procurava de algum modo iniciar o debate sobre a natureza epistemológica (e politica) da Trienal, o tipo de reacções que suscitou resumiu-se a apelida-la de tola (por parte do autor do Blogue de Arquitectura mais popular em Portugal) ou, pior ainda, a etiqueta-la de simples reacção de azedume pessoal.
Este exemplo virá, em limite, dar razão à tese de Nuno Grande: a opinião (pessoal) de Mota Saraiva revela-se frágil. Frágil não tanto pelas ideias de TMS - que não chegaram sequer a ser discutidas - , mas pela falta de sustentação do texto; reflectindo desde logo essa condição (algo limitativa, é certo) da escrita curta e corrida própria dos blogues e de suportes similares.
Por outro lado a publicação do texto não terá, aparentemente, acrescentado nada de positivo ao debate: as reacções que provocou resumem-se a sugestões de má fé do autor, ou então a arrivismos de tom pessoal (é ver o comentário de Ivo Sales Costa n'A Barriga, e posterior resposta de Carrapa).
Sobre a Trienal (que seria o ponto principal da discussão que TMS se propunha a iniciar): nada.
Na verdade venho reflectindo há algum tempo sobre esta suposta validade dos Blogues em suportar discussões verdadeira e colectivamente úteis em torno da arquitectura.
Por um lado tem(-me) sido difícil chegar a conclusões que ultrapassem a esfera meramente pessoal dos textos, opinões ou críticas que são veiculados pelos poucos blogues de arquitectura que de algum modo procuram ser interventivos em Portugal.
Mesmo no caso em que os textos publicados são claros - já que, muitas vezes, o texto original nos surge encriptado -, e devidamente argumentados - o que se demonstra difícil num suporte que não convida à leitura de textos longos - , o tipo de reacções que suscita só pontualmente permite acrescentar algo mais ao texto original.
Por outro lado é cada vez mais claro que um qualquer texto publicado num blogue sobre determinado projecto ou obra é na maior parte das vezes tido como um ataque directo ao seu autor, e não tanto como um contributo para a construção do significado desse objecto. Um simples exercício de maledicência, portanto: destrutivo, inibidor, libertino. E sem qualquer tipo de generosidade construtiva.
São poucas as reacções directas a textos publicados n'As Catedrais. Mesmo aqueles que visam directamente uma obra, concluem-se quase sempre pelo teor do que escrevo; sendo poucas vezes confrontados, e nunca contrariados pelos seus autores.
E no entanto, ao invés de se criarem pontos de discussão e de contrução de ideias, esses são os texto que nos levam a criar imimizades; ou, como diria Nuno Grande: actos que nos levam a cavar as nossas próprias sepulturas.
Percebe-se, então, porque não existe crítica de arquitectura em Portugal: ninguém quer, afinal, cavar a sua própria sepultura. Confirmando, aliás, a resposta que um dia me foi dada por um editor de uma das revistas nacionais com maior implantação no mercado, ao desafio em começar a publicar textos críticos nas páginas da sua revista.
Arquitectura & Não
à(s)
20.5.10
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Nuno Grande
Estando para aqui metido com os meus botões, tinha por certo nem sequer pensar sobre o assunto. Não é que à partida o fenómeno não tivesse qualquer interesse. Tinha-o; nem que fosse por ser o único prémio que se dedica à crítica de arquitectura.
Só que a inercia é de algum modo mais fácil de cumprir do que o confronto com tamanha singularidade dos resultados desta primeira edição deste Prémio AICA de Crítica de Arte; pelo que a opção em me distrair com esses meu botões parecia-me decisão bem mais profícua do que perder tempo a tentar perceber as opções do Júri do referido prémio.
Ora: assim estava para aqui decidido a não largar os meus botões - sobretudo o undo - quando, lá no gmail, recebo orgulhosa comunicação, como que a pedir, enfim, que fizesse aquilo que estava decidido a não fazer: tentar perceber as opções do Júri do referido prémio. E tentei. Com esforço e algum afinco, não dispensando uma revisitação ao Paredes Meias (S. Araujo, P. Mesquita, 2009), e até uma breve incursão sobre esse livrinho chamado de Arquitectura & Não (N. Grande, Caleidóscopio, 2005). Tentei. E no fim: fiquei na mesma. Que dizer?: não cheguei a qualquer conclusão sobre o que passou pela cabeça de José Manuel Fernandes e Manuel Graça Dias em darem um prémio que supostamente premeia crítica de arquitectura a um documentário e a uma tese de doutoramento.
Não é que Graça Dias / José Manuel Fernandes deixem de ter razão: afinal até podemos concordar que Paredes Meias é "detentor da abertura, a acuidade e a riqueza de leituras, no quadro da arquitectura e urbanismo contemporâneos (... e também) as continuidades e rupturas que o trabalho tão bem ilustra, no tempo longo da concepção e construção de uma obra edificada com significativo impacte na cidade"; admitindo-se até a hipótese da utilidade, na referida obra pela "presença de múltiplos pontos de vista (...) bem como a pluralidade de discursos conducentes à possibilidade de formação de uma perspectiva crítica por parte do espectador; foi destacada, também, entre as restantes diversas qualidades, a grande coerência formal do objecto".
Não é que Graça Dias / José Manuel Fernandes deixem de ter razão: afinal até podemos concordar que Paredes Meias é "detentor da abertura, a acuidade e a riqueza de leituras, no quadro da arquitectura e urbanismo contemporâneos (... e também) as continuidades e rupturas que o trabalho tão bem ilustra, no tempo longo da concepção e construção de uma obra edificada com significativo impacte na cidade"; admitindo-se até a hipótese da utilidade, na referida obra pela "presença de múltiplos pontos de vista (...) bem como a pluralidade de discursos conducentes à possibilidade de formação de uma perspectiva crítica por parte do espectador; foi destacada, também, entre as restantes diversas qualidades, a grande coerência formal do objecto".
E no entanto a questão aqui é, simplesmente, estarmos perante um documentário, não uma construção crítica.
Se o documentário "possibilita a formação de uma perspectiva crítica por parte do espectador" isso só vem provar as virtudes de Paredes Meias enquanto obra documental; mas não explica em nada como é que a referida obra possa ser entendida como um exemplo de reflexão crítica em torno da arquitectura, muito menos no supostamente ambicioso patamar disciplinar que um Prémio de Crítica de Arte exige; que não passa tanto pelo espectador, mas exactamente pelo crítico. E interessa não esquecer que este prémio é dado por uma associação que se auto-denomina de Associação Internacional de Críticos de Arte
Quanto à menção honrosa dada à "dimensão, quantitativa e qualitativa, da (...) produção, variada e de múltiplo alcance, tanto de carácter histórico como teórico e crítico, na área da Arquitectura" por Nuno Grande, e sobretudo à "Dissertação (...) Arquitecturas da cultura: Política, debate, espaço/génese dos grandes equipamentos culturais da contemporaneidade portuguesa, uma obra de grande alcance crítico e analítico, no âmbito de uma possível leitura de uma Arquitectura oficial e de regime" parece que o Júri terá confundido a necessária amplitude, utilidade e função da crítica d'arquitectura com a investigação académica que, por definição, é pouco dada à especulação - dirigida, certeira, directas - própria da crítica.
De resto, acompanhado de facto a "dimensão quantitativa, variada, tanto de carácter histórico como teórico" por parte de Nuno Grande, não é com facilidade que lhe descubro a construção de um discurso que permita a todos aqueles que estão envolvidos na produção arquitectónica nacional ultrapassar os seus próprios paradigmas; sobretudo por N. Grande fugir sempre que pode de um registo que ultrapasse os limites do discurso institucional, o que de certa forma contraria a própria actividade a que, para lá dos meus botões, gosto de chamar de crítica de arquitectura. Mas isso sou eu, que gosto de estar para aqui com os meus botões. Sobretudo com o undo.
Exercício do Direito de Resposta separado por breves trechos ensaisticos sobre a Escola do Porto
à(s)
25.1.10
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Eleonor Cunningham em topless no solário da casa de Raymond Loewy, 1947, Peter Stackpole - Life
Relativamente aos comentários ao Contrario do Trompe-L’oeil cabe-nos confrontá-los com o nosso ponto de vista, mesmo aqueles que rapidamente divergiram do seu pretexto. Sobretudo esses. E, desses, claro, os de JPM/JPF/JFM, cujo teor, incisivo embora, terá incorrido num conjunto de equívocos que importa rectificar; tentando fugir a esse sempre tentador exercício da jactância.
Do alegado estilo melindrado e recorrentemente reactivo com que aqui se fala da Escola do Porto julga-se que o incómodo de JPM resulta sobretudo de uma interpretação algo inadequada da sua parte, mais do que propriamente do teor dos argumentos que por aqui se vão defendendo.
Obviamente que a questão passa por saber de que Escola do Porto é que estamos a falar quando estamos a falar de Escola do Porto - como aliás se referem vários dos outros comentadores de serviço. Mas, mais importante que isso, é sabermos definir o campo de abrangência do nosso discurso, extrapolando-se, ou não, um posicionamento mais geral em torno das suas conclusões.
Não se adivinhando qualquer tipo de constrangimentos em abordar tal tema (a que já lá iremos) julga-se no entanto que As Catedrais não se lhe terão dedicado assim tanto à sua análise. Mas vamos lá então:
Argumentará aqui JPM que a irasbilidade demonstrada em a.s* Plan Toys ou a Classe de 1996 contraria esta nossa última afirmação: afinal refere-se por aí que a Escola precisa de quase tudo. Precisa de reflexão. De auto-análise. De reforma. De capacidade auto-crítica. De abertura e de flexibilidade. De inteligência. De capacidade de experimentação e de investigação. De habilidade e de idoneidade. De ambição e de conhecimento, e de ambição de conhecimento. De aptidão, dos seus alunos e dos seus professores. De saber aceitar aquilo que desconhece, e de ser curiosa. E precisa de apagar de uma vez por todas aquelas palavras pintadas num muro da escola, que dizem: Arquitectura Não se Ensina, com letras gordas e ponto de exclamação no fim e tudo.
Teria razão JPM: Ali falou-se da Escola do Porto. Ou daquilo que para ela desejaríamos, e que por razões várias – muita delas prosaicas, pouco heróicas - não acontece. E no entanto a.s* Plan Toys resume-se, prosaicam
ente, a uma espécie de private joke sobre gentes d’outros tempos, dos seus encontros e dos seus desencontros, mais do que a outra coisa qualquer.Não se esperava entendimento por parte de JPM desse diálogo com passados. Poucos foram aliás os versados que lhe demonstraram assentimento, muito por culpa desta nossa soberba. Ainda assim refira-se que o texto se atira (de cabeça) a um conjunto de autores que, tendo em comum esse facto de se terem formado nessa mesma Escola do Porto em 1996, são, em nossa opinião, todos eles (com excepção de Camilo Rebelo, que não se cansa de admirar os seus próprios monstros sagrados) exemplos de um claro abastardamento daquilo que lhe herdam, mais do que propriamente veículos dessa linearidade que JPM vai aparentemente atribuindo à referida academia.
Conclui-se portanto ser um paradoxo a afirmação que um texto que crítica críticos da Escola do Porto possa constituir ele próprio uma crítica à Escola do Porto; anulando-se, por isso, qualquer hipótese de a partir dele se concluir um qualquer Complexo freudiano.
E no entanto, sendo possível que nos discursos do (ilhéu?) Bernardo Rodrigues, dos (lisboetas?) a.s*, de Pedro Bandeira, ou mesmo, com outra subtileza, do Atelier do Corvo ,se pudessem depreendem eventuais divergências com a iconografia ortodoxa pela qual a Escola do Porto tem vindo a ser (superficialmente) reconhecida, ou então com um distanciamento à posição ideológica que iria pautar o modelo de ensino que por lá se exerceu; será sempre displicente afirmar-se que esse afastamento equivale à assunção de renuncia à herança; mesmo no caso dos deserdados.
Conclui-se portanto ser um paradoxo a afirmação que um texto que crítica críticos da Escola do Porto possa constituir ele próprio uma crítica à Escola do Porto; anulando-se, por isso, qualquer hipótese de a partir dele se concluir um qualquer Complexo freudiano.
E no entanto, sendo possível que nos discursos do (ilhéu?) Bernardo Rodrigues, dos (lisboetas?) a.s*, de Pedro Bandeira, ou mesmo, com outra subtileza, do Atelier do Corvo ,se pudessem depreendem eventuais divergências com a iconografia ortodoxa pela qual a Escola do Porto tem vindo a ser (superficialmente) reconhecida, ou então com um distanciamento à posição ideológica que iria pautar o modelo de ensino que por lá se exerceu; será sempre displicente afirmar-se que esse afastamento equivale à assunção de renuncia à herança; mesmo no caso dos deserdados.
Tudo isso, repare-se, não equivale a redimir qualquer desses autores de desprendimento.
Não sabendo concluir sobre o partido desses autores, dir-se-ia que, no que diz respeito ao a.s*, ele existe. E pode ser explicado por vários ângulos.
O primeiro, mais fácil de demonstrar, resume-se à pouca equivalência entre o que (JMF) considera ser a Escola do Porto e toda essa produção que por ela se procura sustentar, pouco ou nada condizente com a condição ideológica que a nomeia
Quer dizer: fazer caixinhas, paralelepipédicas, mais ou menos elegantes, brancas ou com materiais da região, com pedras, madeiras, betão por envernizar, janelas rasgadas sobre a “paisagem”, austeras (ver essa brilhante selecção da melhor cultura arquitectónica nacional no Arquitectarte), pouco ou nada é explicado por essa teoria de entendimento do espaço que pela escola se veicula(va).
Se concordarmos que a Escola do Porto partilha em muito a sensibilidade que a teoria decidiu chamar de abordagem fenomenológica ou, pelo menos, validarmos a simplificação regionalista de Frampton, estamos muito longe (mas muito longe mesmo) de podermos explicar toda essa alegada partilha de valores entre essa forma da acreditar, e aqueloutra em que um extenso rol de autores lá vai caracterizando a sua obra.
Repare-se: não se trata aqui de colocar em causa a qualidade arquitectónica de uma qualquer obra considerada (por JMF) produto da Escola do Porto - se quiserem um exemplo, bastará relembrar a Casa do Gerês -, mas antes de duvidar da relação causal entre a Teoria da dita Escola e a produção que com ela se tem vindo a ser confundida.
Há, digamos assim, uma divergência entre a ordem do discurso que se opera sobre essas obras (a importância do contexto, a interpretação da estrutura sensível do lugar, o respeito para com ela, a sua continuidade) e a sua formulação, que mais se parece aproximar de um lugar comum do moderno, do que propriamente de uma formulação subjugada à matéria exterior (lá, no Norberg Schulz).
Caixas e mais caixas. Caixas em todo o lado. Brancas. Caixas iguais a tantas outras. Altas, menos altas. Acompanhadas por longos muros, tangencia de lajes, envidraçados encaixilhados a fino, guardas a tender para a invisibilidade, espaços neutros e modulares, volumes secos e aborrecidos, que nos são apresentadas como inteligentes e sensíveis exemplos de exímia compreensão do mundo, e de uma resposta única, singular, aos problemas que se lhe colocam; quando na verdade são simples exemplares (uns, poucos, melhores, outros, muitos, piores) do mais puro ensimesmamento. Desse mesmo ensimesmamento que despreza tudo aquilo que é externo ao autor Moderno; esse ser que Ferry chama de L’Homme-Dieu (ver também, por favor, o Homo Aestheticus, do mesmo Ferry), que muito de afasta daqueloutro posicionamento anti-moderno, supra-humano, algo metafísico até, onde a determinado momento se posicionou o discurso da Escola do Porto.
Seria levado a afirmar que, seguindo esta linha de raciocínio, JMP estaria porventura consciente que a sua afirmação – onde se diz que as “primeiras obras do a.s (já agora, a primeira obra do atelier é a Biblioteca dos Açores, que JMP decidiu, como que cuidadosamente, deixar de fora) não escondem uma certa herança da Escola do Porto” - se demonstra errada; não estivessem as Residências, com também a própria Casa do Tractor, muito mais próximas desse infeliz chorrilho de caixas e mais caixas (caixas em todo o lado, iguais a tantas outras, altas, mesmo altas, acompanhadas por longos muros, etc.) do que propriamente da aspiração fenomenológica tão cara à academia do Porto.
Se uma e outra obras se confundem com coisas que não se deviam parecer, isso dever-se-á sobretudo àquilo que nos limita: como saberá, fazemos apenas aquilo que podemos, poucas vezes aquilo que queremos, e raramente aquilo que realmente admiramos. E no entanto não posso deixar de referir que a haver falhas de monta nas Residências, essas não passarão por uma deficiente leitura de determinada realidade. Confessa-se: essa leitura nunca existiu, sendo que a intencionalidade do projecto passa exactamente pelo desejo de uma outra realidade.
E no entanto julgo que JMP terá confundido, nesse ponto, forma com conteúdo; facto aliás demasiado comum, dificilmente evitado.
Essa confusão tem uma explicação simples, sobretudo acreditando (e acreditamos) que a formação de JMP é feita na FAUP, cuja origem é exactamente a estrutura conceptual que lhe dá origem, à Escola, tal como hoje (hoje talvez já não) a conhecemos.
Essa confusão tem uma explicação simples, sobretudo acreditando (e acreditamos) que a formação de JMP é feita na FAUP, cuja origem é exactamente a estrutura conceptual que lhe dá origem, à Escola, tal como hoje (hoje talvez já não) a conhecemos.
Aliás, essa explicação coincide também com o segundo argumento que poderá eventualmente sustentar esse tal desligamento do a.s* em relação à Escola do Porto e que tem a ver exactamente com um factor absolutamente decisivo para o seu percurso académico e pedagógico, com consequências nas várias gerações que aí se foram formando.
Para melhor o demonstrar peço emprestadas essas frases de Alexandre Alves Costa publicadas n’Os Textos Datados (mais precisamente no texto Considerações sobre o Ensino da Arquitectura), por sua vez citadas de Siza, onde, algures em 1980, se afirma:
“(…) propor a formação do arquitecto a partir de síntese plásticas, apoiadas na informação das ciências humanas e exactas lhe confere, é por demais distante da experiência pedagógica acumulada nos últimos anos de funcionamento do Curso (da FAUP), e por isso inaceitável”, para logo a seguir se poder ler “a ideia central das Bases Gerais (da metodologia de ensino da Escola do Porto) em funcionamento consiste na consciência da autonomia disciplinar da arquitectura”, concluindo-se, um pouco mais à frente ser “o núcleo de instrumentos metodológicos disciplinares (entenda-se: o desenho; o desenho e a cultura de atelier) que é necessário entender e aprender”.Dispensando-nos de qualquer consideração política que se possa (e pode) extrapolar destas palavras defendidas no inicio da década de 80 por toda essa geração que foi (ainda é) influente na Escola do Porto (e também em Coimbra, sua filha, e em Guimarães, sua afilhada) dir-se-ia que estas curtas frases estão na sua origem; sendo as consequências dessa acto (re)inaugural aquilo que tem vindo a caracterizar esse lado mais visível (a tal forma) pela qual achamos adivinhar esse produto arquitectónico da Escola do Porto.
Quer isto dizer que, pelo menos a partir da década de 80, a acção pedagógica do Porto investe toda a sua energia na autonomia do projecto de arquitectura, caminhando para uma crescente aproximação ao modelo de funcionamento do atelier (que, no Porto, é também ele influenciado por essa forma de pensar).
Não havendo espaço, nem tempo, muito menos vontade de exercer por ora qualquer tipo de reflexão crítica sobre tal modelo de ensino de arquitectura; não podemos no entanto deixar de referir que a nossa formação (comum) se baseia numa absoluta concentração no exercício dos instrumentos operativos, directos, do projecto; cuja validação não pode por isso deixar de dispensar a observância do desenho (entendendo aqui o desenho como forma decisiva e fundamental de projecto).
Nesse sentido, sair da Escola do Porto entre o final da década de 80 e os anos 90 (coisa que abarca muitas das gerações que lá vão construído a arquitectura admirada em Portugal) equivale a crer, infalivelmente, que (a qualidade d)o desenho implica em absoluto a qualidade da arquitectura que por ele se faz. E mais: que a teoria simplesmente não existe.
Quando alguém referiu, lá nos comentários ao trompe-l’oeil, que há uma geração de ruptura na Escola do Porto (citando, se não me engano, os nomes de Nuno Grande, Pedro Gadanho ou, a-temporalmente, Nuno Portas) não se equivocou assim tanto. Só que quem o referiu se esqueceu de explicar que se essa ruptura existe, ela não se explica por um desejo, por uma ambição, ou por qualquer tipo de atitude revolucionário dos seus agentes (até por ser algo tautológico querer fazer uma revolução numa Escola cuja origem do pensamento é, por definição politica, revolucionária), mas simplesmente por serem os seus protagonistas exemplos de autores cujo teor disciplinar e as matérias de interesse serem inequivocamente e sem qualquer tipo de excepção mais abrangentes (não necessariamente mais profundas, apenas mais abrangentes) do que as matérias a que a FAUP se decide dedicar.
Não vale então a pena falar de rupturas, mas de simples desencontros. E se quiser nomear um exemplo, poderia usar o nome de Jacinto Rodrigues, cuja teor da sua formação e sua especificidade cultural em muito o limitaram na produção de outros sentidos dentro da academia em que ensinou.
Assim, aquilo que JMP refere como crise existencialista de alguns arquitectos ilhéus e lisboetas que foram para a Escol(inh)a do Porto, mas cuja “doutrina” passaram a recusar e a odiar (sic) resume-se a um simples fenómeno, muito comum até, que resulta da natural abertura social, politica e cultural que tivemos o privilégio de acompanhar; que (nos) fez divergir de interesses; tornando-nos eventualmente menos capazes do exercício puro do desenho (que vamos desprezando por vezes, valorizando outras), mas certamente mais abertos – ou pelo menos mais curiosos – em relação ao resto das coisas.
Diria que isso equivale a uma mudança, mas esteja JMP à vontade para lhe chamar de abastardamento.
Se há de facto alguma coisa que me faz certamente impressão naquilo que JMP chama de Escola do Porto (que não pode ser assim chamada) é exactamente essa falta de curiosidade pelo outro, e por outras coisas. É essa ortodoxia que faz com que ser de Lisboa ou das ilhas seja confundido como uma ameaça à suposta integridade de uma ideia de arquitectura cuja fragilidade é, sempre foi, imensa; e cuja origem da crise passe pela divergência entre a sua ideia de disciplina (contida, certa, inequívoca) e a cada vez mais abrangente cultura disciplinar.
Nota-se que não há nada de especialmente negativo em decretar (a tese, entenda-se, não é minha) a falência da Escola do Porto enquanto modelo de ensino (porque enquanto morada irá com certeza continuar a ser uma das melhores escolas de arquitectura nacionais). Na verdade não temos conhecimento de escola alguma de arquitectura que tenha condições de afirmar a eficácia da sua excepcionalidade por muito mais do que um bom punhado de anos. Simplesmente porque essa relevância, pontual, coincide quase sempre com um determinado momento de excepcional felicidade, em que se conjugam pessoas, professores e alunos, ideias, em condições únicas e irrepetíveis.
O eventual erro do Porto – como o está a ser o erro da AA, e como o foram os erros de todas essas escolas italianas – é querer eternizar paradigmas, relegando para segundo plano esse conjunto de fenómenos que mais cedo ou mais tarde se irão demonstrar da maior relevância para o desempenho das funções de uma academia.
Isso é, aliás, uma condição para qualquer actividade, quer seja uma escola de arquitectura ou um atelier.
No caso a que nos referimos anteriormente, a situação é em certo sentido análoga: o suposto salto-em-frente da Vodafone não mais é do que uma pirueta que não nos tira do sítio, e que é dada muito depois do tempo útil.
Algumas considerações finais: o facto de falar do trabalho de um atelier com 17 anos é particularmente irrelevante. Poderia ter apenas 17 meses, como 5 décadas. Aquilo que nos interessa por aqui é o trabalho de arquitectura. Procurei, enfim, não ser leviano; apresentando argumentos que não tem qualquer tipo de objectivo que não procurar compreender aquilo que tinha perante mim (neste caso a Vodafone); e – facto de não de somenos importância - partilha-lo.
Nota final: o que é caricatural nas coberturas das piscinas da Povoação não é propriamente o desígnio de continuidade com a natureza verdejante que circunda o edifício. Pese embora a tentativa de contextualização “paisagística” me ser de algum modo estranha, e a afastar (julgo) do uso de relva (ou lá o que era) na cobertura do Hotel de Lagos (cuja intenção, tipologia e funcionamento é totalmente diverso – ou pelo menos assim espero que seja entendido); aquilo que de facto o torna caricatural é que a “relva” usada na cobertura das piscinas não mais é, afinal, do que um daqueles tapetes artificiais; que mais cedo ou mais tarde (no Verão) irão continuar verdejante, independentemente do tom daquilo que o rodeia tomar a seu cargo.
Quanto a todo esse resto de coisas que generosamente foram aparecendo nos comentários (CDM e Breuer, os kispos e as vanguardas, gostar de perder concursos, Jesus e as religiões, and so on), teremos, enfim, todo o tempo e gosto para a elas nos irmos referindo.
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