Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

| Subscrever via RSS

Mostrar mensagens com a etiqueta Marcos and Marjan. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marcos and Marjan. Mostrar todas as mensagens

Ser cliente - parte I

| 8 comentários |

Há uns tempos atrás cansámo-nos de fazer projectos. Quer dizer: não é que nos tenhamos de facto cansado de fazer projectos: aparentemente fazer projectos não cansa ninguém. Digamos antes: tentámos ser, por uma vez, clientes.

Arranjámos uns dinheiros aqui e ali, um ou outro financiamento. Depois angariámos alguns potenciais clientes, que tinham em mão uns quantos desejos, uns quantos programas, alguns terrenos disponíveis. E propusemos oferecer-lhes seis projectos.
Depois: depois, como qualquer cliente, contratámos seis ateliers para os fazer, aos projectos.

Desta malograda tentativa pouco ou nada resta: os seis projectos foram feitos, expostos, e oferecidos. Alguns deles falharam redondamente os objectivos. Alguns, melhores, não suscitaram interesse de ninguém. Um ou outro ainda andaram de cá para lá e de lá para cá, mas foram sendo adiados até terem ficado esquecidos numa gaveta qualquer.
Percebemos, depois, os nossos próprios erros. Erros típicos de cliente. Que são erros de casting, alguns. Ou de comunicação. De concentração. E de pura incompreensão.
Aparentemente o erro não está só do lado de quem faz as coisas, mas também de quem constroi expectativas baseadas nas suas próprias limitações. E esse é o maior erro que se pode fazer enquanto cliente.

Vem isto a propósito - se é que há algum propósito nisso - do pequeno arrufo causado pela nomeação de Marcos Cruz para director do curso da Bartlett: uns quantos alegres por verem um português em tão afamado cargo; outros por não encontrarem nada que explique a validade do acto.
Na verdade pouco importam tais arrufos. Porque se é um facto que para lá da sua produção académica pouco se conhece da obra de Marcos Cruz, também não deixa de ser verdade que não conheço nenhuma escola de arquitectura cuja sobrevivência dependa da qualidade das obras de quem a dirige. Antes pelo contrário; bastando-nos apenas recordar a Cooper Union do Hejduk.

Ia dizendo: um desses seis arquitectos que um dia contratámos foi exactamente Marcos Cruz. Pode, claro, ter sido um erro de casting. Ou um problema de comunicação. De concentração. Mas, para o caso, julgo que o problema, na altura, se deveu à pura incompreensão.
























Feira Internacional dos Açores, Ponta Delgada, 2005, Marcos&Marjan

Sendo quase sempre a incompreensão um facto desagradável; estaria no entanto inclinado para afirmar que ainda assim é sempre bom cruzarmo-nos com gentes que pouco ou nada têm em comum connosco, mas cujo sentido de desejo é fascinante.

À L'atalante voltaremos brevemente, nem que seja para desenterrar os outros cinco trabalhos.

ps. Para que não nos acusem de desfocagem histórica, teremos que ser mais precisos, e afirmar que Hejduk tem obra. Pouca, é certo. E excelente.

O Desejo já não mora aqui

| 5 comentários |



[nota prévia: O Desejo já não mora aqui foi escrito para JA de Março 2009, não tendo sido no entanto aí publicadas todas as imagens originalmente seleccionadas para o acompanhar]























Egas José Vieira, Manuel Graça Dias [Contemporânea], Ponta da Avenida, Lisboa, 1992.

Há, sempre houve, coisas assim. Projectos esquisitos, ideias um tanto ou quanto desavindas, ingénuas até. E há, sempre houve, quem delas desconfiasse.
Quem delas só visse aquilo que menos interessa: fragilidade, arrivismo, ingenuidade, apografia até; tornando risíveis as poucas que não foram desprezadas, e num instante esquecidas.

E no entanto é essa fragilidade, esse arrivismo e essa ingenuidade que estão por detrás daquilo que leva a querer fazer arquitectura. Esse querer que, aqui, mais cedo ou mais tarde, dará lugar á ambição de conquistar um lugar no pódio, ou à angustia de nunca lá ter chegado.
Alguns desistem, fogem do país, outros resignam-se, outros ainda se esquecem de como era ser arquitecto sem os constrangimentos de um país e de uma classe para os quais a arquitectura é a celebração da certeza e à imposição da normativa.

Triste é uma classe onde são as incertezas dos novos a premiar as certezas dos velhos.
Porque do desejo, esse desejo de inventar o próprio desejo; já não dele ouvimos falar.
A não ser nos sussurros moribundos daqueles que são ainda ingénuos.















Didier Fiúza Faustino [Bureau des Mesarchitectures], Fight Club, vários locais, 2007





















Bernardo Rodrigues, Capela da Luz Eterna, S. Miguel, 2003
















Bernardo Rodrigues, Casa do Voo dos Pássaros, S. Miguel, 2004















Nuno Mateus, José Mateus [ARX Portugal], Laboratórios do Pólo da Mitra, Évora, 1991















Nuno Mateus, José Mateus [ARX Portugal], Pavilhão de Portugal Expo'92, Sevilha, 1990










Carlos Sant'Ana, Silvestre Castillani, Torre Bicentenário, Buenos Aires, 2008















Carlos Sant'Ana, Fata Morgana




















Marcos Cruz, Marjan Colleti, Museu Tomihiro, Japão, 2002

Tags