Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

| Subscrever via RSS

Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Guimarães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Guimarães. Mostrar todas as mensagens

A(i) 10

| 2 comentários |

















Já não sei a que propósito nos lembrámos de organizar uma conferência com o Hans Ibelings.
Quer dizer: gostavamos do Hans Ibelings, ou pelo menos da ideia que dele tinhamos, toda ela baseada nessa tese maravilhosamente anti-regionalista-crítica descrita no Supermodernism.

Não é que julgassemos Supermordernism um livro particularmente bem escrito, nem particularmente bem informado, mas ainda assim aspirávamos ler nessa espécie de mapear do regresso do International Style uma vontade da arquitectura deixar se (querer) explicar através de coisas que lhe são externas, para se (re)centrar nessa cultura própria d'onde afinal nunca devia ter saído - mesmo sendo óbvio que, na maior parte das vezes, esse interesse (atento, generoso) para com o que está para lá dela não mais é do que pura demagogia.
Mas enfim, lá fizémos o que têm de fazer as pessoas que querem organizar uma conferência com o Hans Ibelings (ou, julgo, com outro autor qualquer): pedimos de empréstimo o auditório à Ordem, contratámos um (violento q.b.) agent provocateur estrategicamente dissimulado entre o público anónimo, fizémos uma daquelas introduções simpáticas, e lá nos sentámos à espera de ver Ibelings a arrasar a fuga (para debaixo da cama) da arquitectura portuguesa. Esperámos. Esperámos. E nada: nada de arquitectura portuguesa debaixo da cama, nem sequer laivo algum do heróico regresso do International Style; mas apenas uma bem construida (mas ainda assim descarada) publicidade à A10 - que, culminou com a angariação de assinaturas pelo próprio Ibelings.

Não é que tenhamos qualquer tipo de desprezo pela A10. Pelo contrário: o pasquim é simpático quanto baste, e sempre se vão lendo umas coisas sobre a croácia ou a bulgária. Quer dizer: há um lado intrinsecamente generoso em fazer passar toda aquela arquitectura (europeia) que não enche as medidas às Av's ou às GA's, ou às 2G's, mas cuja regularidade (digamos assim) merece ainda assim (com certeza que sim) a atenção. Simpático o modelo editorial da A10, que espalha a responsabilidade de escrever e editar a revista por correspondentes nacionais de perfil heterodoxo (de Portugal seguem textos de Gadanho, de Jordão ou de Carlos Santana, entre outros), o que faria adivinhar não apenas uma base de informação credível, mas também (sobretudo) a ausência de uma definição ideológica nas mostrar de cada um dos países que lá vão contruindo a herança da A10.

E no entanto, é exactamente nessa generosidade que assenta o grande problema da A10; que a leva, em limite, a não ter qualquer tipo de critério em relação à qualidade dos objectos que publica. Não tendo um corpo editorial residente, a A10 está à mercê dos pontos de vista de quem com ela vai esporadicamente colaborando, sendo evidente a impossibilidade do editor (neste caso o próprio Ibelings) validar o trabalho dos seus correspondentes, sob o risco de pôr em causa esse princípio de abrangência que está na origem da revista.

Vem tudo isto a propósito de um artigo (publicado na A10 n.º 35, de Setembro) chamado de Seven Zones, Seven-Day Journey (A seven-day architectural tour of Portugal), onde Carlos Guimarães (à semelhança de todos ou outros correspondentes nacionais da A10, também autor d'um blog que gosto de ler) propõe aos Croatas e aos Bulgaros ocupar 7 dias a ver obras menores como as Casas Brancas de Adalberto Dias, a recuperação do Grande Hotel do Porto (Cremascoli, Okumura, Rodrigues), um estádio (?) em Matosinhos (Machado Vaz), ou a Adega do Carlos Castanheira (que, d'entre as obras do autor, é a menos interessante).
Guimarães sustenta a sua escolha na tese (de Gadanho, que escreve o pequeno texto introdutório do Tour) de que a arquitectura (portuguesa) já não é mais caracterizada por uma abstracta e distante relação formal, mas antes um modelo de abertura, troca, e multiplicidade (tradução evidentemente livre), o que o leva a deitar fora tudo aquilo que de facto importa conhecer, propondo aos Croatas a aos Bulgaros irem passear por cima da relva (artificial) das Piscinas da Povoação (realmente um óptimo exemplo de abertura, troca e multiplicidade) ou andar não sei quantas horas de carro entre pedras e pedragulhos para ver um deselegante museu - tema a explorar num Post perto de si - vagamente parecido com as coisas que nem o Herzog procura repetir.
Desconfia-se até que Guimarães ele próprio desconhecerá metade das obras que mapeia (porventura por ter estado lá por fora nos últimos tempos), escolhendo-as por d'entre os ficheiros do Habitar Portugal ou das Ultimas Reportagens; facto esse que nos dá - pelo menos - o benefício da dúvida em relação à sensibilidade e bom gosto que o cronista ainda possa manter.

Quanto à jornada dos sete dias, a esperança é que entretanto os Croatas se percam nas ruas do Porto, restando, no fim, um Búlgaro, sozinho, à procura da entrada da Gruta das Torres, esquecendo-se de ver as obras maiores (não abstractas, muito menos distantes) de Paulo Gouveia, de Maia Macedo ou de Correia Rebelo.

Da Alegoria do Triunfo (de uma geração)

| 5 comentários |





















A Alegoria do Triunfo de Vênus, 1545, Agnolo Bronzino.

Em relação ao (profícuo) diálogo entre Guimarães e As Catedrais (aqui, depois ali, seguido de resposta aqui, e contra-resposta além) registe-se:

1. Sobre a Beleza e Consolação creio ser clara a propensão comum para a primeira; sendo, claro, a Consolação, o purgatório da maioria. Mas já que nos destinamos, todos, à consolação, mais vale dela tirar bom partido . Afinal o purgatório não deve ser um lugar assim tão mau.

2. Quanto aos trejeitos intelectuais superiores, bem sei que o seu uso é (moralmente) indevido. E no entanto esse é, vá lá, o maior paradoxo: querem, os arquitectos, ser percebidos. Anseiam pela clareza. Desejam a compreensão e a aceitação. E no entanto aquilo que, nos arquitectos, pode ser útil a essa sociedade reside exactamente no que dominam, e no modo como o fazem. Pode chamar-lhe, ao domínio disciplinar, de trejeito intelectual superior ou, se quiser, simplesmente, e sem preconceito, conhecimento e responsabilidade no seu uso.
Mas não queira, nunca, fazer coincidir a obra prima do mestre com a prima do mestre de obras. Podem ser ambas belas, é certo. Mas, creio, diversas.

3. Do Programa Inov-Art faço contas rápidas, e concluo, pelos números que Guimarães refere, que a generosidade política é, finalmente, um facto: a cada um dos formandos nacionais caberá o uso, directo ou indirecto de 24.000,00 €.
Discordando embora do aparente desvio operativo do fundo - que serviria mais para pagar o ganho de experiência e know-how de autores nacionais em instituições culturais e artísticas de referencia (leio: museus, fundações, teatros, instituições, residências artistas, etc.) e menos para sustentar estágios profissionais em empresas a operar no mercado, por parte de arquitectos que tentam, desesperadamente, escapar à falta de oportunidades oferecidas neste pequeno país - devo no entanto sublinhar os seus aspectos positivos: a crença na formação e na educação, e a confiança que isso trará, mais cedo ou mais tarde, retorno.
Caberá, aparentemente, a Guimarães, por vontade própria, a responsabilidade de demonstrar que a (minha) geração tira o melhor partido dessa aposta.
Já o dissemos, e voltamos a afirmar: cá estaremos para apoiar o projecto; embora pareça que a reduzida adesão venha a ser um farto demasiado pesado, ou não fosse a temida ausência de participação observável à priori, na caixa de comentários d'Os Lugar[es] da Mente.

4. De FreshLatino, bem sei que é um projecto pessoal de Ariadna. De longa data.
Individual? Talvez. Solitário? Nem tanto. Consequente? Veremos.
A questão é saber se alguma coisa, por cá, mesmo que individual ou solitária, possa ser tão consequente como o é o trabalho de Ariadna Cantis.

5. Por fim regressemos ao início: o desejo, natural, de nos confrontarmos com o trabalho de toda uma geração, até aqui, aparentemente, distraída. Veremos, Guimarães, veremos.

Da beleza e da consolação

| 2 comentários |

A propósito do que aqui foi escrito, Carlos Guimarães, reage assim:

[...] há que perceber que muitas destas coisas [as críticas, os pensamentos, as analogias, as ironias] são fogo de vista "gritante", são actividade intelectual abrupta, desmedida, esquizofrénica [...]
Depois, não se querendo dirigir a ninguém em especial, lá vai defendendo que tudo ficaria melhor se não nos esquecêssemos dessa coisa a que Guimarães apelida de Beleza das Coisas Simples.

Pode ser que sim. Que Guimarães tenha razão: o exercício da crítica, do pensamento, da analogia ou da ironia serão, em certa medida, exemplos de esquizofrenia. Não sendo, claro, a esquizofrenia um problema menor, sobretudo se pensarmos nela como um elemento que nos classifica; parece, ainda assim, ser essa esquizofrenia um fenómeno mais auspicioso do que aqueloutro por qual Guimarães tanto anseia: a Beleza das Coisas Simples.

Diria, em tom de quem quer passar ao lado desse outro exemplo de esquizofrenia aplicada a que vulgarmente apelidamos de estética, que, para a arquitectura (vamos cingir-nos a ela) se torna absolutamente necessário distinguir entre a possibilidade e a efectividade das coisas, pelo simples facto que essa separação corresponde, aparentemente, à única oportunidade que se nos oferece em construir uma determinada ideia a partir daquilo que se nos é apresentado, seja através de uma obra ou de um projecto, um desenho ou de uma ideia.
Entenda-se: não é a simples aparência das coisas que nos interessa tanto; porque isso corresponderia a assumirmos uma vocação eminentemente erótica à arquitectura.

Não nego evidentemente esta possibilidade, até porque se há alguma coisa de fundamental no (aparente) fim das visões morais que torna os nossos tempos tão interessantes é exactamente isso mesmo: a recusa dos argumentos de autoridade, que nos possibilita pensar na compatibilidade da vontade com a liberdade de consciência e da autonomia.
De certa forma há hoje um lado erótico na arquitectura, e isso não se resume simplesmente à redução pelas imagens que extensamente se publicam um pouco por todo o lado.














Keira Knightley, Scarlett Johansson; manipulação fotográfica a partir de original de Annie Leibovitz [Via E Deus criou a mulher]


Quer dizer: aceito perfeitamente a possibilidade de validar o erotismo aparente (ou, por outra, o aparente erotismo) nas obras de Sofia, como em qualquer outra obra de arquitectura que consideremos relevante. Julgo, aliás, ter referido isso mesmo, quando distingo (comparo) a intransponível intimidade da Casa, confrontada com a disponibilidade, apenas aparente, de Sofia revelada pela presença do seu corpo nu; tendo em conta, sobretudo, que esse corpo pertence à autora da obra, e não a um qualquer modelo anónimo.

E no entanto parece-me que aquilo que permite estabelecer o valor da Casa de Sofia - que, vale aqui como simples exemplo, entenda-se - reside exactamente na nossa capacidade de distinguir entre a efectividade da obra e as possibilidades que ela nos proporciona; ou antes: a capacidade de distinção entre a nossa própria intuição, digamos, sensível para um determinado objecto e o entendimento que se lhe corresponde.

Assim, o aparente envolvimento de Guimarães com a Beleza Simples da (Casa de) Sofia não passa de uma propensão sua por determinados aspectos, digamos, eróticos, da obra. Podendo de facto essa dimensão contribuir para a construção identitária da obra parece, ainda assim, que isso não bastará para concluirmos do seu valor.

Das duas uma: ou a Beleza das Coisas Simples corresponde, para Guimarães, a uma construção entre as coisas e as suas possibilidades de representação relativamente a conceitos próprios – sendo isso, evidentemente, já em belo exemplar de esquizofrenia compulsiva; ainda que pessoal e íntima, por Guimarães nada ter registado (publicamente) sobre o facto –; ou, pelo contrário, a assunção dela equivale a uma intuição, facto esse que, em limite, anula quaisquer possibilidades de representação do próprio objecto, transferidas que estão para o efectivo.

Nesse último caso, simplesmente, aquilo que Guimarães propõe será, não um retrocesso, mas um regresso à origem das coisas: uma Casa de Adão no Paraíso que, como ambos sabemos, é uma impossibilidade. Ainda que denote uma tentativa de exorcizar o nosso legado moderno (Duchamp incluído), esse desejo não mais é do que pura demonstração de uma doçura maternal, mais própria de romantistas anacrónicos do que propriamente de alguém que cita, tão bem, Cedric Prize: Dialogue might be the only excuse for architecture…

O que quero dizer a Guimarães é que sim, que há, claro, sempre, o desejo implícito da beleza. O problema é que essa beleza depende somente de nós próprios, o que, em limite, não nos deixa grande espaço de manobra. E o pouco espaço que há torna-se, dessa forma, uma singularidade.
Explicá-la, a essa singularidade, implica obrigarmos determinado objecto ao nosso ponto de vista; até porque a beleza - da Casa de Sofia ou da Casa de Lavra - não subsiste por si só.

Não lamente por isso. Para o bem e para o mal, é em nome dessa exigência de autonomia que a todos nós tem caracterizado, que o nosso universo amoral, laico, liberto de constrangimentos normativos, tende a recusar todas as referência àquilo que nos é exterior. E, nesta condição, não será de admirar que a própria arquitectura se tenha rendido ao imperativo de responder àquilo que são, afinal, as nossas naturais limitações.














Ford's Foudation, Keira Knightley, Scarlett Johansson, Tom Ford; Capa da Vanity Fair, Março 2006; sobre foto de Annie Leibovitz.


E no entanto repare: ainda assim tudo isto se tem vindo a tornar mais e mais entusiasmante. Como se a consolação pudesse de algum modo ultrapassar, em grau de interesse, a beleza substantiva das coisas.

Espero por isso ter conseguido contradizer a afirmação, de Guimarães, acerca da arquitectura que mostro (bela, nas palavras de Guimarães): ela não difere assim tanto da arquitectura que falo (que escrevo).

[ps. Em tudo o mais que Guimarães refere - desde a tese da incompreensão dos arquitectos por parte de quem os rodeia ao lançamento de uma proposta aberta cujo teor receio não ter compreendido na sua total amplitude -, resta-me dizer que cá estaremos para o que der e vier.
Quanto a essa outra esquizofrenia que é escrever com maior periodicidade do que aquela que se adequa ao tipo de leituras, mais esporádica, de um blog; aceito a observação. Para depois do Verão espera-se poder diminuir o número de post semanais]

Tags