Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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O-pús-cu-lo

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Para lá de marcar o fim dos Opúsculos, o texto de Pedro Baía (Autorismos) que a Dafne agora pública, apresenta algo de verdadeiramente singular - senão único - no panorama editorial (ia dizer português, mas não é verdade): a sua própria anulação.


O acto, não sem alguma ironia fina (cada símio no seu raminho), fica por conta de uma senhora chamada Ana Isabel Soares. Que, sendo linguísta, não tem papas-na-língua. E de um senhor chamado André Távares. Que, sendo editor, não tem nada a esconder.

A (minha) Geração

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A Minha Geração, J.P. Simões, 2007, Coliseu, Lisboa [até aos 3:20m].

Talvez Fresh Madrid não existisse sem a perseverança de Ariadna.
E no entanto parece haver uma vitalidade em Madrid, e também na América Latina, que por cá vai rareando.

Talvez tenha também razão Luís Afonso [observatório de arquitectura] quanto diz que "as exposições mais informais [...] serão as mais representativas da nova produção de arquitectónica e artística que por cá se vai fazendo".
E no entanto não me recordo assim de tantas exposições, informais, realmente significativas cá por estas bandas.

Mas então o que é que (não) se passa por cá, para que a nova geração de arquitectos não se limite a ficar registada como Pedro Baía o fez no (novo) JA?; quando refere SAMI como a mais prometedora (a citação não será exacta, mas não tenho o JA à mão) dupla de autores da nova geração; esquecendo-se, Baía, de sustentar a sua observação numa análise (minimamente) crítica do conteúdo do trabalho do jovem atelier e, sobretudo, de concluir que essa arquitectura é bastante mais conservadora do que as esperançosas palavras da Baía - apoiadas sobretudo numa fachada de facto extraordinária - fazem crer.

Dirá, esta nova geração aparentemente perdida, ausente da produção arquitectónica regular, que não há espaço. Ou que esse espaço está monopolizado por outros, mais velhos.
Que há poucos concursos. E nos poucos concursos que há, é-lhe exigida, à nova geração, a demonstração de curriculum que ainda não tem, e que nunca vai ter, exactamente porque não se lhe dá qualquer hipótese de construir.
Haverá, nesta geração, quem refira o eterno problema do regime dos recibos verdes, dos estágios obrigatórios, ou do valor das cotas da Ordem, dispendiosas de mais para aquilo que lhe oferece em troca.
Fala-se, também, das poucas oportunidades de divulgação. E da falta de aceitação, por parte da arquitectura instituída, das novas formas de pensar e dos novos modos de agir que lhe são próprios, a esta nova geração.
E da crise, claro; que a faz procurar trabalho em Londres, sabendo que não há trabalho em Londres; que a leva, depois, a ser mercenária em Luanda, doutoranda em Nova Iorque, ou turista em Barcelona.

A propósito da falta de oportunidades recordo uma entrevista a Paolo Sorrentino, um jovem realizador italiano. Dizia Sorrentino que o fenómeno de emergência de um novo cinema que entretanto se estava a observar no seu país, se devia, em muito, à ausência de mestres: estão todos mortos os grandes realizadores italianos; e sem eles não há ninguém que nos faça sombra.

Pode ser que sim. Que os mestres portugueses, quase todos eles vivos - dedicando-se, afincadamente, a produzir as suas melhores obras -, não demonstrem assim tanta curiosidade por novos mundos.
Não é no entanto expectável, muito menos desejável, perder esses mestres. Como, do mesmo modo, não parecem existir condições que permitam vislumbrar alterações significativas nos modelos vigentes: nos critérios de convite para os concursos ou para os projectos, ou no regime dos recibos verdes, nos estágios ou nas cotas de ordem.
Os poucos serviços que a Ordem dos Arquitectos presta aos seus associados serão, no futuro, ainda menos eficazes e mais inúteis, porque a Ordem limita-se, apenas, a representar a curta significância e a falta de empenhamento social que os arquitectos têm na sociedade portuguesa.

As possibilidades de divulgação irão aumentar, é certo; com o crescimento do número de revistas sem quaisquer critérios editoriais ou com o aparecimento de blogs que ninguém lê.
E no entanto somos levados a considerar que a rápida visibilidade pública (de alguns, poucos, representantes) desta nova geração - um fenómeno de facto observável, referido muito recentemente por Gadanho - não terá correspondência com a sua aceitação formal, quer no campo profissional - assegurando-lhes sustentabilidade disciplinar -, quer no campo social - assegurando-lhes sustentabilidade material.

Num futuro próximo vai suceder exactamente o contrário: a re-confirmação dos grandes autores como autores enormes (veja-se, a título de exemplo, o artigo do Público, de 27-06, onde se refere, a propósito do projecto para o Museu de Abrantes, que "Carrilho da Graça eleva muito a fasquia [...] dado tratar-se de uma equipa de projectistas de nível internacional"); a concentração das grandes (e menos grandes) obras nesse grupo restrito de arquitectos e, sobretudo, na especificidade disciplinar pela qual são (justos) responsáveis; e a continuada falta de oportunidades para um crescente número de arquitectos que não se revê, por uma ou outra razão, nessa realidade.

Os economistas usam-se de um termo para explicar o fenómeno: excesso de oferta instalada. Há demasiados arquitectos para um mercado conservador e restritivo como o é nosso.
E pouco haverá mais a fazer do que observar, de longe, uma geração inteira de braços cruzados, à espera que algo aconteça.

E no entanto há outra hipótese. Que é a desse excesso de oferta instalada arranjar maneira de se tornar útil.
Mas para isso essa geração terá de ser flexível. Deitar para trás das costas estigmas e dogmas,
deixar de se obrigar a cumprir aquilo que julga ser-lhe exigido, dispensar essa ingénua necessidade de reconhecimento por parte daqueles que julga admirar, e que pensa serem essenciais para a sua aceitação enquanto autores. Saber olhar para as coisas de outra forma, encontrar-lhes utilidades até aqui pouco exploradas, aceitar deixar de ver os seus pares como concorrentes, e acreditar que a existência de mais arquitectos é sinónimo de um enorme potencial criativo, cívico e cultural.

Aparentemente isto não vai ser fácil. Até por parecer faltar, nesta geração, como nas que lhe precederam, a consciência cívica e a sensibilidade social necessárias que a faça olhar para lá do seu umbigo.

Mas talvez, quem sabe, um destes dias, venhamos a assistir a um FreshLisboa (ou a um FreshPorto, ou Braga, Guimarães ou Faro; qu'eu hoje não estou muito virado para separatismos regionalistas). E, nesse dia, possa confirmar, não sem contentamento, o meu engano.

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