Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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Académica (de Coimbra)

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Disponiveis as teses de Coimbra.

Destaque (pessoal) para os Açores de Borges.
Curiosidade (científica) pela Periferia de Figueira.
Interesse (profissional) pela Paisagem de Cardielos.

Adenda (aos comentários d)a entrada anterior

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Com certeza que sim: que o projecto é um projecto feito em velocidade de cruzeiro, sendo mais fruto do hábito (toda a gente sabe que tendemos pouco a reflectir sobre tudo aquilo que nos é habitual), do que de um qualquer desejo. Não se lhe denota qualquer tipo de investimento nem envolvimento, recorrendo a truques (coisa que nada tem de mal) de forma atabalhoada (coisa que tudo tem de mal), abstendo-se de algo mais do que cumprir os mínimos.

De certa forma é um projecto construído apenas à base de estereotipos (propositadamente alguém referiu Byrne na caixa de comentários), desligados, desproporcionados, desadequados; com um desenho pobre - é ver o Átrio ou o Auditório, como AM bem refere, mas também as padieiras e as soleiras, e aquela confrangedora pedra (uma má escolha, que anula a intenção expressa nos alçados desenhados) -, aparentando haver um problema de (in)capacidade de quem, deselegantemente, levou o projecto para a frente (será um curioso exercício tentar descobrir quem, por detrás da extensa lista de nomes espanhóis que fazem parte da equipa de projecto, é a aparejador de serviço).

Não há aqui, evidentemente, nada de grave. Ou nada de errado, sequer, a não ser essa banalidade que pouca justiça faz ao autor. Na verdade a única conclusão que poderemos tirar acerca do Paraninfo é a sua inutilidade. Para nós, para Bilbao, e para o próprio Siza.

A propósito deste tipo de coisas (sobretudo vindas de quem vem) recordo uma conferência do mesmo, que tive oportunidade de ver há um bom par de anos. A conferência, maravilhosa, foi toda ela ocupada apenas com um projecto: a Fundação Iberê Camargo. Nela foram mostradas todas aquelas coisas que ficam esquecidas pela gavetas dos ateliers, ou que normalmente acabam nos cestos do lixo: as dúvidas, os recuos e as hesitações (Iberô Camargo em forma de cubo, Iberô Camargo em forma de pirâmide, Iberô Camargo em forma de tolice), os desenhos feios e menos feios, os equívocos e, sobretudo, todo o tempo que se gastou a inventar aquela coisa.

A uma dada altura, já no fim da festa, alguém terá questionado Siza sobre a razão do evidente desequilíbrio entre o Museu - que, tal como afirma João Amaro Correia, é A Obra de Siza (quer dizer, depois daquilo nada mais há a fazer) - e outro projecto da sua autoria (não me recordo exactamente qual era a obra referida) terminda mais ou menos na mesma altura.
Depois de ter calmamente explicado o processo de encomenda do projecto do Brasil, e o (excepcional) envolvimento da fundação Iberê Camargo, Siza foi claro: aquilo que fez a Fundação ser aquilo que é - repito: o projecto que culmina e supera todo o percurso de Siza - deve-se, segundo o autor, a um facto da maior simplicidade: o envolvimento da parte de quem lhe pede o projecto, e o estímulo que esse envolvimento lhe provoca.

Quer dizer: não haverá boas obras sem bons clientes. Ou, dito estão de outra forma: todos têm o (Siza) que merecem.


ps. já agora, G. Byrne esteve nessa conferência. Embora não possa confirmar o seu grau de atenção para com tudo aquilo que por lá foi dito.

Nota sobre tropeções

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Nada mais natural do que um tropeção. Sobretudo vindo de alguém com a tendência de olhar para o ar à medida que caminha.

Orgulho e Preconceito

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Pride and Prejudice, Jane Austen, 1813.

Magda Antunes: abrindo-se aqui a excepção de trazer à ribalta discussões que convenientemente se vão arrumando nas caixas de comentários, não poderia no entanto deixar de procurar dar resposta à sua estimável intervenção n'As Catedrais, sobre o tema desta entrada.

Aceitando, claro, a orgulhosa preferência pessoal pelo Orgulho, devo no entanto contrapôr que é sobretudo de Ego que falamos quanto falamos de (autores) de arquitectura (e não só).
Bastaria, evidentemente, ir à fonte, para perceber que o Ego em si mesmo um mecanismo de defesa pessoal. Não sendo directo, e muito menos consciente, este mecanismo aplica-se sempre que um indivíduo entra em conflito com determindo aspecto da realidade: seja a moral social e vigor, sejam as normas e os tabus, ou mesmo as expectativas (não cumpridas, digo eu) do próprio. Segundo esse tal Freud, esses mecanismo de defesa incluem a negação, mas também a intelectualização, a fantasia, a racionalização e a respectiva compensação, a regressão, a repressão ou a sublimação.

Penso, pois, que tudo aquilo que se refere ao autor em questão - como a (quase) todos os autores cuja obra de algum modo nos vão comovendo, tal como a (quase) todas as obras dignas de atenção - actua exactamente sobre o Ego, e não tanto sobre o Orgulho; cujo teor é praticamente irrelevante na produção arquitectónica, até por ser normalmente um assunto de (irritante) carácter pessoal.
Se me permite a observação, o problema da Magda parece ser outro: não acreditar na possibilidade da especulação. Saberá com certeza que a especulação é, na história da arquitectura, elemento fundamental. É a partir dela que descobrimos coisas, que tentamos respostas, que recusamos realidades menos boas. E tenho por certo que a própria Magda valoriza obras que nunca passaram do papel, e autores que tudo fizeram menos construir.

Depois, há uma outra questão, central: se o autor em causa não constrói mais e melhor, talvez seja pelo facto de haver poucas oportunidade para que isso aconteça. Na verdade a própria Magda dificilmente encontrará "arquitectos dessa geração" que construam (se se lembrar de alguém, agradeço que me informe) alguma coisa com o mínimo de interesse. Pelo menos em Portugal. E isso sim, é que é de lamentar; pelo menos para aqueles que preferem as tentativas, os erros e as tragédias (o Ego) à banalidade (o Orgulho).
E é ai mesmo, nesse território de tentativas, de erros e de tragédias (e não nos Açores, como inocentemente sugere), que pudemos de facto encontrar e perceber as obras que a Magda afirma assemelharem-se a "jarras de cemitérios" ou a "cenários de filmes de Série B" (epítetos, aliás, que deixaria babado de orgulho qualquer um que tenha bom senso e sensibilidade).
Seria um evidente sinal de generosidade e de curiosidade colectivas se oportunidades houvessem para que mais gente como esta pudesse de facto construir. Viveríamos, então, num lugar de maior civilidade e de heterodoxia, e não num país que efectivamente concede pouco espaço de manobra a todos aqueles que achem que a arquitectura pode ser algo mais do que isto ou (ainda pior) aquilo.

Curioso é o facto de Magda agradecer o facto de lhe ser dada a oportunidade de conhecer a obra de Bandeira. Crendo sinceramente que os termos que usa para adjectivar a obra de tal autor não derivem directamente do cinismo (o contrário seria uma facada no meu orgulho), fico sem entender como pode criticar tão acerrimamente a pouca adição cívica de toda uma geração (um erro de leitura, evidentemente), e simultaneamente afirmar a sua adesão a um autor que, por definição, assenta toda a sua obra exactamente na mais pura das especulações (ou: na conversa, por suas palavras).

Por fim, em relação àquilo que refere como arquitectura de excepção, avanço com a hipótese da Magda não conheçer pessoalmente a obra em questão, e muito menos desconfiar que a história da atribuição do Prémio Secil à dita seja um outro maravilhoso caso de egocentrismo; até porque a possibilidade do contrário levar-me-ia a pensar, erroneamente - espero-, que sob o manto do orgulho se esconderia o submisso perfume da moralidade.

A catcher in the rye

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Ouvimos aquela frase que diz que a crise é um óptimo momento para separar o trigo do joio, e depois chegamos à conclusão que afinal estamo-nos é todos nas tintas para o trigo.

Acerca da proporcionalidade da beleza

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Faculdade de Informática e Electrónica, Combra, 1991, Gonçalo Byrne (imagem via Skyscrapercity)

Ia começar a escrever qualquer coisa acerca do texto da Anatxu sobre o Byrne, e sobretudo sobre aquela frase aparentemente mitológica de Nuno Grande: la belleza de Lisboa es proporciona a su vulnerabilidad. Mas depois arrependi-me. Até porque a beleza é sempre proporcional à vulnerabilidade; sobretudo se não percebermos qual o sentido exacto da proporcionalidade. Ou da beleza. Que no fundo é a mesma coisa.

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Pirâmide Invertida (da série Folies), Pedro Bandeira, 2007

Mas então, o que dizer de um autor que decide assumir definitivamente o peso da história, para ao mesmo tempo torna-lo imponderável, assim, de uma forma tão despudorada?
Dir-se-ia, pois, que se confirma em Bandeira essa tendência de atirador furtivo; como que se as coisas pudessem ser como sempre foram e, simultaneamente, funcionar ao contrário.

Da evidente relação entre as pirâmides e a excelência

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Museu de Arte de Caracas, O. Niemayer, 1954

















Capela da Luz Eterna, Ponta Garça, S. Miguel, Bernardo Rodrigues, 2003/...


Não seria preciso ter lido toda a história crítica do Tafuri, nem todo aquele monte de livros que o Benevolo nos deixou, para tirar a mais óbvia das conclusões que nos é dada pela história da arquitectura ocidental. Essa mesmo, que nos diz aquilo que toda a gente já sabia: não há autor maior que não tenha num ou noutro momento da sua vida desenhado (pelo menos) uma pirâmide.
Desde o Corbusier ao Rossi, do Herzog ao Kahn, passando pelo Boulée ou o Wright, todos desenharam uma pirâmide. Há uma (má) pirâmide do Foster, uma pequena pirâmide do Philip Johnson, a quase pirâmide do Aalto, os pilares em pirâmide do Nervi e os telhados em pirâmide do Candela, um edifício piramidal do Taut, e a base em pirâmide do Breuer . O Tatlin, evidentemente, tem a sua pirâmide. O Zumthor também. O Souto de Moura tem duas, sotadas, e outra inteira, o que dá três. E o Manuel Vicente tem muitas pirâmides, pequeninas; tal como o koolhaas aliás. Há ainda uma pirâmide num esquiço do Siza. E, claro, podemos sempre ver o Mies de um ponto de vista piramidal.
E depois, depois há aqueles outros autores que a superam, à própria história da arquitectura, demonstrando que as coisas são afinal para serem vistas de pernas para o ar.

A lucidez

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O deslumbramento, a construção e o culto do arquitecto como figura do sucesso (...), eleva-se no coreto da nossa paróquia. E esquecemo-nos da arquitectura. De nós mesmos. E do outro.
de João Amaro Correia

Sobre o grau de irrelevância de uma conferência

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Sobre a Escala: a.s* no Ciclo Obra Falada, Instituto Superior Técnico, Lisboa, 23 Nov. 2010; Org. NucleAR

Esta ideia de querer ouvir alguém falar sobre escala colide com aquela outra, que nos diz que a Escala é uma coisa eminentemente pessoal. Íntima, mesmo. Quer dizer: em teoria será pura perda de tempo tentar ouvir alguém sobre um assunto cuja especificidade é intrinseca a cada um de nós.

Sobre o grau de eficácia de uma conferência

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Há algo de refinadamente irónico no facto de uma conferência sobre Arquitectura e Política ser adiada a pretexto de uma Cimeira Política. Quer dizer: conseguimos claramente concluir algo sobre política e arquitectura, sem ter sido sequer necessário assistir ao referido debate.

Da irrelevância das molduras

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Desnudos en la Playa, Jose Togores, 1922 (Colecção Reina Sofia)

E no entanto é relativamente fácil perceber que o problema do emolduramento é totalmente secundário. Sobretudo naqueles casos em que se levantam outras ordens de importância.

Da relevância das molduras

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Museo Reina Sofia, extensão, 2005, Madrid (2010)

É curioso o trabalho de Nouvel no Reina Sofia. Ao invés de apostar no edifício, Nouvel inverte o problema, concentrando toda a atenção na moldura, como se essa fosse a parte mais importante da obra.
Ainda assim, esta é provavelmente a melhor moldura que nos foi dada a oportunidade de experimentar.

A vantagem dos prémios

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La Compra de un Premio, Santiago Serra, 2007

A explicação de Serra para a sua La Compra de un Premio resume-se a isto: Con el fin de poder revenderlo a um precio mayor, adquiri el León de Oro, otorgado a Regina Galindo em La Bienal de Venecia de 2005.

Evidentemente que um tipo que anda por aí a comprar prémios de outros e a recusar prémios que lhe são dados será sempre merecedor da nossa simpatia.

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Gimnasio Maravillas, Alejandro de la Sota, Madrid, 1961 [fonte: Fundación Alejandro de la Sota]

The Importance of Being Earnest

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Provavelmente, nunca a história da nomenclatura foi tão certeira do que nesse preciso momento em que acedeu a que uma obra passasse a ser conhecida por Ginásio Maravillas.

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Fazer arquitectura não é muito diferente de jogar xadrez: sabendo-se à priori do objectivo - que sempre o mesmo -, basta-nos ter consciência das peças que temos há nossa disposição, da sua localização relativa no tabuleiro de jogo, e das eventuais dificuldades que nos vão deparar. A partir daí limitamo-nos a traçar a melhor estratégia que formos capazes. E depois: depois é pegar numa peça qualquer e colocá-la noutro lugar.

Não sendo as regras do xadrez propriamente complicadas (afinal também elas podem ser escritas na parte de trás de um bilhete de autocarro) sabemos, evidentemente, que a beleza do xadrez está em saber tirar o máximo partido dessa relação entre as peças, da sua subtil alteração, e daquilo que conseguimos ler para lá da aparência (quase sempre aborrecida) de um tabuleiro.

Saber jogar xadrez equivale, em certo sentido, a saber ler aquilo que se esconde para lá da aparência das peças, e transformar esse conhecimento numa ideia que possa ser posta em prática. Quanto mais abrangente for essa ideia, mais alternativas se nos abrem.
Quanto melhores jogadores formos capazes de ser, maior será a capacidade de pôr em prática essas alternativas, e maior será também a nossa capacidade em estabelecer uma estratégia que não seja esmagada após duas ou três jogadas.

Sabemos, claro, que a diferença entre um bom jogo de xadrez e um mau jogo de xadrez não está exactamente no estrito cumprimento do objectivo final: afinal a qualquer iniciado é dada a hipótese de ganhar o jogo, sendo evidentemente possivel a um trapalhão derrubar o rei advesário. E no entanto o interesse do xadrez não reside tanto nesse acto – que, a acontecer, é uma humilhação para quem perde, e uma inutilidade para quem ganha -, mas antes na capacidade do jogador compreender aquilo que se lhe depara.
E por isso é que é possivel distinguir um bom jogador de xadrez, mesmo na derrota: normalmente os melhores são aqueles que tomam a decisão de derrubar o seu próprio rei muito antes da evidência.

Como na arquitectura, o xadrez também tem um receituário próprio. A maior parte dos livros que se lhe dedicam explicam um sem número de aberturas e de pequenos truques, que qualquer iniciado aplica à minima oportunidade.
Na verdade o registo do xadrez resume-se quase sempre a ilustrar jogos ou jogadas mais ou menos famosos; podendo a cultura de um xadrezista ser medida pelo número de jogos ou jogadas famosos que conhece: há a abertura dos três cavalos, a Sokolsky, a Catalã e a Inglesa. E também outras com nomes mais directos: a aberta, a semi-aberta e, evidentemente, a fechada. E depois há milhares e milhares de jogos que conhecemos, e que recuperamos de cada vez que pensamos em mover um bispo. E é isso que se ensina nas escolas de xadrez.

Esta cultura não tem no entanto relação directa com a capacidade de jogar xadrez: podemos conhecer de trás para a frente todas as jogadas dos encontros do Spassky contra o Bobby Fisher (o melhor entre os melhores), ou os irritantes revivalismos de Anad, e não ser sequer capazes de fazer um roque no momento certo.

Assim, havendo quem domine a cultura e a história do xadrez moderno de trás para a frente – uma cultura, entenda-se, que não cabe em nenhuma parte de trás de nenhum bilhete de autocarro – isso não lhes confere capacidades de dominar um jogo (chamemos-lhe falta de jeito), nem mesmo capacidade de lhe retirar beleza e inteligência (chamemos-lhe falta de inteligência emocional). Para estes, o xadrez é sobretudo um objecto de leitura: Bd3, C5f3,C4 , Rb++, etc., com objectivos concretos; e não tanto um elogio à inteligência e à sensibilidade. Essa mesma inteligência e sensibilidade que as palavras do Duchamps ou os parágrafos do Nabokov sobre o xadrez tão bem o demonstram

Elegia da ingenuidade

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Tudo aquilo que é preciso saber para se fazer arquitectura pode ser escrito na parte de trás de um bilhete de autocarro. E ainda lhe sobra espaço em branco, à parte de trás desse bilhete de autocarro.


Aliás, não há nada escrito que ocupe mais do que o espaço em branco na parte de trás de um autocarro que possa salvar um mau projecto de arquitectura de ser um mau projecto de arquitectura. Nem há livro algum que substitua o bom senso, a sensibilidade (so Jane Austen), alguma inteligência (não é preciso assim tanta) e, já agora, a habilidade necessários para transformar um edifício numa obra de arquitectura.

Copyrights

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Ou o exemplo de como não se pode escrever uma notícia sobre cultura.

O problema dos prémios

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O problema dos prémios é que eles são são só injustos para com os vencidos, mas também para com os próprios vencedores.

Do sabor (entrincheirado) da Crítica (2)

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Provavelmente esta discussão em torno do sabor da crítica não reside afinal sobre o seu sabor, mas antes sobre aquilo que implica a própria palavra Crítica.


No fundo tem razão Nuno Grande: o ponto de vista de quem escreve crítica nos blogues não é o mesmo ponto de vista de toda essa gente que, durante anos, viu os seus artigos julgados, recusados, que tiveram que se submeter a escrutínios rigorosos (?) para puderem publicar.
A pergunta que se impõe é, evidentemente, o valor, mas sobretudo a utilidade desse veículo rigorosamente escrutinado. Senão vejamos: cada vez mais parece haver um real distanciamento entre essa academia que Grande defende, e aquilo que de mais interessante a criação arquitectónica tem para nos dar.

Essa academia que Grande parece querer acreditar tende a agir retroactivamente. Analisando, sempre muito, aquilo que foi feito, e prevendo, sempre muito, aquilo que nunca será feito; a capacidade da academia parece estagnar em tudo aquilo que não seja o acto de transmitir um receituário mais ou menos coerente, mais ou menos eficaz.
Não faz parte da sua natureza colocar-se em causa. Recordo, a título de exemplo, uma frase que ouvi da boca de um dos principais responsável pela direcção da FAUP. Dizia este eminente académico que preferia sempre rodear-se (de professores) que pensassem como ele, do que (professores) que viessem pôr em causa essa estabilidade tão cara à academia. Este homem, que com certeza sempre agiu em prol da defesa do conhecimento da FAUP, não mais faz do que procurar manter a barbárie fora de portas; esquecendo-se porventura que é exactamente do lado de lá da porta que reside o grande interesse das coisas e, sobretudo, o finalidade das próprias academias

O problema principal da tese de Grande reside exactamente no facto de que legitimar a Crítica através do escrutínio é – para além de crer cegamente na capacidade de um sistema quase sempre fechado sobre si próprio, cheio de vícios de forma e de limitações próprias daqueles que sobrevivem à custa do número de artigos publicados com peer review (mas alguém já pensou quem é que faz peer review em arquitectura?) – legitimar primeiramente um circuito de conhecimento que, para lá daquilo que possa ter de positivo ou negativo, é ensimesmado, e muito pouco consequente.

Não duvido, claro, das necessárias conclusões de uma tese de doutoramento, nem mesmo de todo esse maravilhoso conhecimento a que se obriga todo aquele que exerce a sua actividade profissional de crítico no seio da academia. E no entanto duvido, claro, da possibilidade de toda essa sagacidade poder ser posta ao serviço da arquitectura.

O problema aqui passa em muito pela incapacidade – para não falar na falta de vontade - da academia ser de facto útil à produção arquitectónica. Aliás, parece que a academia desdenha em muito aquilo que está na base da própria disciplina, tratando a maior parte das questões que a envolvem com a ligeireza própria de quem aredita que estas nunca tenham sequer existido; preferindo antes distrair-se com factos, certamente deliciosos, mas muito pouco consequentes, quer em termos colectivos, quer em termos individuais.

Evidentemente que a dictomia entre a academia e a actividade profissional (T. Hauser) é perfeitamente descabida; pelo menos no plano teórico. Ambas servem um mesmo fim. Só que esse entrincheiramento – ainda por cima consciente – que Grande e seus pares da academia invariavelmente se colocam, implica um total esvaziamento daquilo que produzem; pelo simples facto do conteúdo que produzem só ser lido e discutido em circuito fechado.

Um projecto crítico é obviamente independente do seu suporte (Gadanho), sendo a sua credibilidade dependente única e exclusivamente do seu teor. E isto aplica-se tanto a uma recensão sujeita a peer review, a uma prova académica, ou a um daqueles textos fáceis que se lêem todos os dias na blogoesfera.
Evidentemente que o suporte deste último tem as suas próprias limitações; que passam em muito pela aparente ligeireza dos textos, pela necessária rapidez com que são lidos e, sim, também, pela fácil apropriação por quem quer que seja. E poderemos, claro, olha-la, à Crítica feita na blogoesfera, com toda a desconfiança.

Por outro lado, podendo sempre exercer-se essa capacidade – tão cara aos académicos – em ser criterioso, não nos parece assim tão difícil saber separar a maldicência amadora da reflexão séria e intencionada, independentemente destas aparecerem travestidas de blogue, ou de páginas de uma qualquer revista arrumada na biblioteca de uma qualquer escola de arquitectura. E dessa forma encontrar a credibilidade de um texto publicado num blogue não é assim tão diferente de encontrar credibilidade num texto publicado noutro qualquer suporte.

Não creio saber se aquilo que pode ser entendido como crítica de arquitectura o é de facto, nos blogues. Nem sei mesmo se importa assim tanto limitar a crítica a um suporte.
Aquilo que (me) leva a reflectir sobre um projecto ou uma obra é, em primeiro lugar, tentar percebe-lo, a esse projecto ou a essa obra.
Encontrar-lhe as fragilidades, os erros, as imperfeições é, sobretudo, tentar que essas fragilidades, esses erros e essas imperfeições não se repitam no (nosso) próprio trabalho.
O acto de tornar públicas essas reflexões passa, evidentemente, por querer testá-las. Perceber exactamente a sua validade. E isso não mais é do que repetir um modelo assente na ideia que o debate é útil.

Na verdade esse exercício não é assim tão diferente daquele que nos faz aceitar dar conferências, participar em seminários, ou publicar projectos e obras: a expectativa de discutir, de aprender algo mais; e de tornar esse conhecimento colectivo em algo útil para os projectos que ainda não foram feitos.
Na verdade creio que um acto crítico é, antes do mais, uma acto de generosidade. Uma espécie de feed-back sobre o trabalho dos outros. Tentar transformar essa possibilidade numa trincheira não é portanto um simples exercício de auto-defesa, mas um erro grosseiro, violento até.

Não me passaria nunca pela cabeça pôr em causa um qualquer projecto de arquitectura apenas por este ser feito por alguém que não granjeou ainda qualquer tipo de legitimidade profissional (um académico, por exemplo); simplesmente porque aquilo que me interessa num projecto é o projecto em si: a forma como é pensado, o seu conteúdo, e sua formalização, e as suas consequências disciplinares. Tudo o que se passa para além (ou aquém) disso é portanto dispensável.

Do sabor da crítica (1.2)

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E, das entranhas d'A Barriga, a contra-resposta a Nuno Grande.

Do sabor da crítica (1.1)

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Do lado de lá do Atlântico, a farpa de João Amaro Correia a propósito da pertinência da proposição de Nuno Grande.

Interlúdio (musical)

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Mimesis Museum, Pajo Book City, Coreia do Sul, Álvaro Siza, Carlos Castanheira, 2009 (fonte: Últimas Reportagens / Fernando Guerra)

Fosse por um qualquer lapso, porventura devido a momentânea distracção, e achar-se-ia completamente estapafúrdio aquele bochecho de espaço que sobra da intersecção do pátio com o canto.
Mas não: passada a momentânea distracção, e afastado o correspondente lapso, percebemos que estamos afinal perante um canto. Um simples canto. Um canto de Sereia.

Do sabor da crítica (1)

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Há umas semanas atrás, numa conversa paralela a esse evento cujo teor não mais poderá ser referido, Nuno Grande poria em causa a legitimidade dos Blogues em esboçar qualquer tipo de crítica.
Afirmava Grande que a aparente facilidade com que se aborda uma qualquer obra de arquitectura num Blogue não mais é do que um simples e desagradável exercício de ligeireza e de libertinagem, pouco próprio da responsabilidade a que se obriga todo aquele que reflecte sobre a disciplina.

A Tese de Grande sustenta-se na ausência de qualquer tipo de critério, de crivo, ou de objectividade por parte de todos aqueles que publicam opiniões (maldizentes, na maioria das vezes) sobre o trabalho dos outros; devendo-se tal facto, segundo Grande, à ausência de um sistema de legitimização de tudo aquilo que aparece escrito nos Blogues. Em rigor, Nuno Grande crê que o acto de reflexão e de produção crítica ou teórica nunca poderá ter lugar num lugar (passe o pleonasmo) onde não existe ninguém (para lá do autor) que possa confirmar (ou, em limite, recusar) o teor das ideias ou opiniões que aí são expressas.

Para Grande, expôr uma ideia numa revista, numa academia ou num seminário (onde naturalmente existe um editor, um júri ou um comité científico) será o único garante da qualidade e do rigor dessa exposição; pelo simples facto do seu teor passar a estar validado por um quórum alargado, que necessariamente partilha responsabilidades pelo que é dito ou pelo que é escrito.

Mais: Grande defende (veementemente) que um Blogue que tente reflectir sobre a produção arquitectónica constitui, em primeira mão, um perigo: não só para o objecto alvo de determinada reflexão (e, por arrasto, para autores desse objecto, que desse modo vêm o seu nome e o seu objecto de trabalho arrastados na lama da web), mas também - sobretudo - para o autor do próprio blogue, irremediavelmente associado à prática da libertinagem egocêntrica e da maledicência, doravante impossibilitado de poder exercer a credibilidade em todo o seu esplendor.

Partindo do pressuposto que Grande tem razão, poderiamos chegar todavia a uma conclusão relativamente simples: se reflectir (escrever, falar, críticar, opinar) sobre arquitectura tal como hoje é feito em revistas, academias ou seminários em Portugal equivale à ideia de consentimento, então os Blogues constituem porventura a possibilidade de fuga ao consenso.

Se a fuga ao consenso não será, só por si, facto especial a assinalar, a ideia de autonomia crítica ganha contornos bem mais interessantes se pensarmos no panorama extraordinariamente conservador da reflexão arquitetónica em Portugal. Porque se é verdade que nunca, como hoje, existiram tantas possibilidades de se apresentarem, discutirem e se concluirem ideias - seja através de exposições, conferências, seminários, revistas e outras publicações que cada vez mais enchem as prateleiras das livrarias - certo é que essa multiplicidade de pontos de vista não trouxe qualquer tipo de qualificação ao debate arquitectónico.
Se a divulgação arquitectónica nunca foi tão eficaz, tal facto não abriu no entanto portas a um debate que nos permitesse validar o seu conteúdo, nem mesmo a uma crítica que pusesse em causa o seu valor.

Vem tudo isto a propósito de um texto de Tiago Mota Saraiva (roubado, pel'As Catedrais, ao Facebook) e da (falta de) discussão que provocou, tanto aqui, como ali.
Se a intervenção de TMS procurava de algum modo iniciar o debate sobre a natureza epistemológica (e politica) da Trienal, o tipo de reacções que suscitou resumiu-se a apelida-la de tola (por parte do autor do Blogue de Arquitectura mais popular em Portugal) ou, pior ainda, a etiqueta-la de simples reacção de azedume pessoal.

Este exemplo virá, em limite, dar razão à tese de Nuno Grande: a opinião (pessoal) de Mota Saraiva revela-se frágil. Frágil não tanto pelas ideias de TMS - que não chegaram sequer a ser discutidas - , mas pela falta de sustentação do texto; reflectindo desde logo essa condição (algo limitativa, é certo) da escrita curta e corrida própria dos blogues e de suportes similares.
Por outro lado a publicação do texto não terá, aparentemente, acrescentado nada de positivo ao debate: as reacções que provocou resumem-se a sugestões de má fé do autor, ou então a arrivismos de tom pessoal (é ver o comentário de Ivo Sales Costa n'A Barriga, e posterior resposta de Carrapa).
Sobre a Trienal (que seria o ponto principal da discussão que TMS se propunha a iniciar): nada.

Na verdade venho reflectindo há algum tempo sobre esta suposta validade dos Blogues em suportar discussões verdadeira e colectivamente úteis em torno da arquitectura.
Por um lado tem(-me) sido difícil chegar a conclusões que ultrapassem a esfera meramente pessoal dos textos, opinões ou críticas que são veiculados pelos poucos blogues de arquitectura que de algum modo procuram ser interventivos em Portugal.
Mesmo no caso em que os textos publicados são claros - já que, muitas vezes, o texto original nos surge encriptado -, e devidamente argumentados - o que se demonstra difícil num suporte que não convida à leitura de textos longos - , o tipo de reacções que suscita só pontualmente permite acrescentar algo mais ao texto original.
Por outro lado é cada vez mais claro que um qualquer texto publicado num blogue sobre determinado projecto ou obra é na maior parte das vezes tido como um ataque directo ao seu autor, e não tanto como um contributo para a construção do significado desse objecto. Um simples exercício de maledicência, portanto: destrutivo, inibidor, libertino. E sem qualquer tipo de generosidade construtiva.

São poucas as reacções directas a textos publicados n'As Catedrais. Mesmo aqueles que visam directamente uma obra, concluem-se quase sempre pelo teor do que escrevo; sendo poucas vezes confrontados, e nunca contrariados pelos seus autores.
E no entanto, ao invés de se criarem pontos de discussão e de contrução de ideias, esses são os texto que nos levam a criar imimizades; ou, como diria Nuno Grande: actos que nos levam a cavar as nossas próprias sepulturas.

Percebe-se, então, porque não existe crítica de arquitectura em Portugal: ninguém quer, afinal, cavar a sua própria sepultura. Confirmando, aliás, a resposta que um dia me foi dada por um editor de uma das revistas nacionais com maior implantação no mercado, ao desafio em começar a publicar textos críticos nas páginas da sua revista.


ps. que este texto sirva também de resposta (atrasada, muito atrasada) a Tiago Borges.

Colescistectomia Laparoscopica

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Hospital de Veneza, Le Corbusier, 1967 (fonte: MoMA)

É de algum modo curioso sermos obrigados a concluir que os hospitais servem de facto para algo mais do que pretextos para se pensar arquitectura. Embora seja inegável que quase todos os hospitais a dispensem.

Cuando las Torres eran Blancas

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Torres Blancas, Francisco Sáenz de Oiza, Madrid, 1969

the car, de thief, his wife and her gallery

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Dymaxion, Buckminster Fuller, 1933

Afinal esta coisa ainda existe. Pode ser vista (ao vivo e a cores) numa exposição chamada Bucky Fuller & Spaceship Earth. Comissariada pelo Luis Fernández-Galiano e por Norman Foster. Em Madrid. Na Galeria IvoryPress. Até final de Outubro. Pertence tudo ao Foster: o carro, o projecto da galeria, a dona da galeria e a própria galeria. Até final de Outubro. Depois acaba.

Today Madrid

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A partir de agora as Catedrais também são espanholas.

Mature, she said

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This is a mature piece of architecture, diz o júri do Stirling Prize. Como se agora se pudesse olhar para a obra de Hadid como o exemplo de maturidade. Já o Chipperfield...

Roots of disobedience

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Em relação à 2ª edição da Trienal de Arquitectura, toma-se a liberdade de exportar (a partir do facebook) um texto de Tiago Mota Saraiva intitulado Roots of Disobedience, que permite de algum modo abrir a discussão em torno do paradigma deste tipo de eventos: para que servem afinal estas Trienais?

The second edition of Lisbon Architecture Triennale will be starting on the 14th October. The motto “Let’s talk about houses” (withdrawn from a poem by Portuguese great poet Herberto Helder) unveiled by the organization as the idea “to debate the question of housing both literally and in a broader sense of housing in the world”.

Despite such noble intentions the program is very conservative since focused on regular stand-up lecturers and traditional museum’s exhibitions. Even though we might see brilliant presentations or fantastic pictures from contemporary architecture, Lisbon Architecture Triennale program has no space for uncertainty, which makes me think that 2010 Venice Biennale’s Golden Lion “Reclaim” will never have place on it.

On the other hand the prices announced for the events are unaffordable for the majority of Portuguese people. Two days of “architecture [in] ]out[ politics” conferences costs 150,00 €, which represents one third of national minimum wage. On a country submerged by the crises, when then majority of people are suffering violent cuts on wages and social benefits and when demonstrations and strikes will be popping up in all corners of the city, Lisbon Architecture Triennale might be closed on a resort that only some can afford.

But this is only a forecast supported on available information.

Participants and guests will play a decisive role choosing to embody one more architects' belly showroom – that might be so useful for their own income profits as useless to society, or turning their back to resorts and spreading new roots within inner city.

tms

Mgd

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Ler isto recordou-me a razão que um dia, há já uns bons 14 anos, me levou a querer bater à porta desse mesmo senhor: a generosidade e a liberdade com que alguns conseguem olhar o mundo. E sim: bati-lhe à porta.

A República vista por uma Monarquia

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São do El Pais as primeiras imagens compreensíveis do Fundação Champalimaud. Não partilhando do entusiasmo crítico de Ana Vaz Milheiro ou de António Machado, a obra de Charles Correia será ainda assim um coisa a confirmar. Brevemente.

home suite home

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Julião Sarmento, Cromlesh, 2010; sobre a Casa Candeias, de Carrilho da Graça

É no mínimo divertido, tentar um cruzamento do último parágrafo do La Buena Vida - Solo a través de un esfurzo así podríamos pensar la casa que aún no tenemos, podremos levantar la casa que nos conmueva por completo - do Abalos com as imagens que Sarmento nos deixa da Casa Candeias: uma jovem nadando na piscina, outra saindo do duche, um queixo, um joelho, uma curva do pescoço.

Por outro lado poderemos sempre aceitar essa ideia que nos diz que a arquitectura não necessita de nos comover por completo. E a arte muito menos. E então as coisas tornam-se, enfim, bastante mais aceitáveis.

Adenda à entrada anterior: de Figueira em Figueira até à vitória final

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De repente o problema já não é tanto saber o que a Escola do Porto poderá fazer com o Figueira, mas antes o que é que a Figueira poderá fazer pela Escola do Porto.

Surfin'Bird (Live 2010)

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A-well-a everybody's heard about the bird

A(i) 10

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Já não sei a que propósito nos lembrámos de organizar uma conferência com o Hans Ibelings.
Quer dizer: gostavamos do Hans Ibelings, ou pelo menos da ideia que dele tinhamos, toda ela baseada nessa tese maravilhosamente anti-regionalista-crítica descrita no Supermodernism.

Não é que julgassemos Supermordernism um livro particularmente bem escrito, nem particularmente bem informado, mas ainda assim aspirávamos ler nessa espécie de mapear do regresso do International Style uma vontade da arquitectura deixar se (querer) explicar através de coisas que lhe são externas, para se (re)centrar nessa cultura própria d'onde afinal nunca devia ter saído - mesmo sendo óbvio que, na maior parte das vezes, esse interesse (atento, generoso) para com o que está para lá dela não mais é do que pura demagogia.
Mas enfim, lá fizémos o que têm de fazer as pessoas que querem organizar uma conferência com o Hans Ibelings (ou, julgo, com outro autor qualquer): pedimos de empréstimo o auditório à Ordem, contratámos um (violento q.b.) agent provocateur estrategicamente dissimulado entre o público anónimo, fizémos uma daquelas introduções simpáticas, e lá nos sentámos à espera de ver Ibelings a arrasar a fuga (para debaixo da cama) da arquitectura portuguesa. Esperámos. Esperámos. E nada: nada de arquitectura portuguesa debaixo da cama, nem sequer laivo algum do heróico regresso do International Style; mas apenas uma bem construida (mas ainda assim descarada) publicidade à A10 - que, culminou com a angariação de assinaturas pelo próprio Ibelings.

Não é que tenhamos qualquer tipo de desprezo pela A10. Pelo contrário: o pasquim é simpático quanto baste, e sempre se vão lendo umas coisas sobre a croácia ou a bulgária. Quer dizer: há um lado intrinsecamente generoso em fazer passar toda aquela arquitectura (europeia) que não enche as medidas às Av's ou às GA's, ou às 2G's, mas cuja regularidade (digamos assim) merece ainda assim (com certeza que sim) a atenção. Simpático o modelo editorial da A10, que espalha a responsabilidade de escrever e editar a revista por correspondentes nacionais de perfil heterodoxo (de Portugal seguem textos de Gadanho, de Jordão ou de Carlos Santana, entre outros), o que faria adivinhar não apenas uma base de informação credível, mas também (sobretudo) a ausência de uma definição ideológica nas mostrar de cada um dos países que lá vão contruindo a herança da A10.

E no entanto, é exactamente nessa generosidade que assenta o grande problema da A10; que a leva, em limite, a não ter qualquer tipo de critério em relação à qualidade dos objectos que publica. Não tendo um corpo editorial residente, a A10 está à mercê dos pontos de vista de quem com ela vai esporadicamente colaborando, sendo evidente a impossibilidade do editor (neste caso o próprio Ibelings) validar o trabalho dos seus correspondentes, sob o risco de pôr em causa esse princípio de abrangência que está na origem da revista.

Vem tudo isto a propósito de um artigo (publicado na A10 n.º 35, de Setembro) chamado de Seven Zones, Seven-Day Journey (A seven-day architectural tour of Portugal), onde Carlos Guimarães (à semelhança de todos ou outros correspondentes nacionais da A10, também autor d'um blog que gosto de ler) propõe aos Croatas e aos Bulgaros ocupar 7 dias a ver obras menores como as Casas Brancas de Adalberto Dias, a recuperação do Grande Hotel do Porto (Cremascoli, Okumura, Rodrigues), um estádio (?) em Matosinhos (Machado Vaz), ou a Adega do Carlos Castanheira (que, d'entre as obras do autor, é a menos interessante).
Guimarães sustenta a sua escolha na tese (de Gadanho, que escreve o pequeno texto introdutório do Tour) de que a arquitectura (portuguesa) já não é mais caracterizada por uma abstracta e distante relação formal, mas antes um modelo de abertura, troca, e multiplicidade (tradução evidentemente livre), o que o leva a deitar fora tudo aquilo que de facto importa conhecer, propondo aos Croatas a aos Bulgaros irem passear por cima da relva (artificial) das Piscinas da Povoação (realmente um óptimo exemplo de abertura, troca e multiplicidade) ou andar não sei quantas horas de carro entre pedras e pedragulhos para ver um deselegante museu - tema a explorar num Post perto de si - vagamente parecido com as coisas que nem o Herzog procura repetir.
Desconfia-se até que Guimarães ele próprio desconhecerá metade das obras que mapeia (porventura por ter estado lá por fora nos últimos tempos), escolhendo-as por d'entre os ficheiros do Habitar Portugal ou das Ultimas Reportagens; facto esse que nos dá - pelo menos - o benefício da dúvida em relação à sensibilidade e bom gosto que o cronista ainda possa manter.

Quanto à jornada dos sete dias, a esperança é que entretanto os Croatas se percam nas ruas do Porto, restando, no fim, um Búlgaro, sozinho, à procura da entrada da Gruta das Torres, esquecendo-se de ver as obras maiores (não abstractas, muito menos distantes) de Paulo Gouveia, de Maia Macedo ou de Correia Rebelo.

Adenda à entrada anterior: Fósforos e Gasolina

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The first rule of Fight Club is, you do not talk about Fight Club

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Também nós receberiamos um cartaz como esse.
Um cartaz quase igual e muitos outros que recebemos no atelier todos os dias. Daqueles que vêm pelo correio, a anunciar um evento qualquer num sítio qualquer.
E no entanto, no meio dos 48 autores que figuravam nesse cartaz, liamos, não sem alguma surpresa, o nosso próprio nome. O nosso nome, portanto, confirmado num evento para o qual nem sequer tinha havido convite. Uma espécie de chantagem, portanto; de coação: ou aparecemos, ou nunca passaremos de uns cobardolas de 2ª classe.

Dizia assim, esse cartaz:
A arquitectura em Portugal vive tempos de paz morna. O Torneio Escada 2010 vem agitar essas águas. Desde os encontros de Serpa, em 1997, que os jovens arquitectos portugueses têm vindo a apresentar os seus trabalhos e ideias. Depoios desse mítico combate, outros aconteceram: Influx, Wonderland, Pecha Kucha, Geração Z, etc. Com argumentos oportunos e temáticas estimulantes o clima tem sido de amena cavaqueira. O Torneio Escada 2010 é precisamente o contrário de tudo isso. No encalço dos momentos mágicos das grandes provas desportivas, será uma oportunidade única para demonstrar convicções, confrontar argumentos, aferir a bondade e a maldade dos participantes. No Torneio Escada 2010 não há lugar a alianças perversas, nem se espelha a esperança vã de consolidar um movimento de renovação da arquitectura.
O Torneio Escada 2010 é um combate violento.

O Torneio Escada 2010 organiza-se por eliminatórias sucessivas, partindo de um grupo inicial de 32 arquitectos. A cada arquitecto é oferecida a oportunidade única de fazer uma apresentação contundente e explosiva de 5 minutos, confrontando-se com uma outra apresentação que será igualmente contundente e explosiva.
O Campeão terá como prémio um depósito de gasolina e uma caixa de fósforos.

Depois disto, nada seria o mesmo. Evidentemente.

E, depois: depois houve sangue. Suor e lágrimas também. Gentes acobardadas, ou simplesmente humilhadas. Esgares e cuspidelas. Derrotados espezinhados, traidores ludibriados, vencedores a prazo, volte-faces surpreendentes. Risos e gritos, e choros e berros; entre gentes cujos nomes nunca poderão ser referidos, numa noite que jamais será registada. Cumprindo-se, aliás, a primeira regra, tal como ela é.

Nuno Brandão Costa, José Capela, Luís Tavares Pereira, Carlos Santana, Luís Santiago Baptista, Pedro Machado Costa, Pedro Campos Costa, Inês Vieira da Silva, Tiago Correia, Inês Moreira, Ricardo Carvalho, Camilo Rebelo, Fernando Guerra, Tiago Mota Saraiva, Paulo Moreira, Eduardo Carvalho, Ricardo Aboím Inglêz, Carlos Maia, António Louro, Carlos Veloso, Nuno Abrantes, Ivo Poças Martins, Nuno Merino Rocha, Pedro Barata Castro, Miguel Figueira, Teresa Novais, Jorge Carvalho, Pedro Barreto, Marcos Cruz, Pedro Maurício Borges, Pedro Gadanho, André Tavares, Pedro Bandeira, Bernardo Rodrigues, Diogo Seixas Lopes, Ana Vaz Milheiro, Godofredo Pereira, Jorge Figueira, Nuno Grande, José Adrião, Paula Santos, Carlos Antunes, Cláudio Vilarinho, Pedro Baía, Diogo Burnay, Filipa Guerreiro, João Afonso, Rui Mendes, Pedro Pacheco, Sérgio Antunes, Daniel Carrapa, Filipe Afonso

Sobre a evidência da utilidade de perseguir baleias

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Ripplingly withdrawing from his prey, Moby Dick now lay at a little distance, vertically thrusting his oblong white head up and down in the billows; and at the same time slowly revolving his whole spindled body; so that when his vast wrinkled forehead rose- some twenty or more feet out of the water- the now rising swells, with all their confluent waves, dazzlingly broke against it; vindictively tossing their shivered spray still higher into the air. So, in a gale, the but half baffled Channel billows only recoil from the base of the Eddystone, triumphantly to overleap its summit with their scud.


















But soon resuming his horizontal attitude, Moby Dick swam swiftly round and round the wrecked crew; sideways churning the water in his vengeful wake, as if lashing himself up to still another and more deadly assault. The sight of the splintered boat seemed to madden him, as the blood of grapes and mulberries cast before Antiochus's elephants in the book of Maccabees. Meanwhile Ahab half smothered in the foam of the whale's insolent tail, and too much of a cripple to swim,- though he could still keep afloat, even in the heart of such a whirlpool as that; helpless Ahab's head was seen, like a tossed bubble which the least chance shock might burst. From the boat's fragmentary stern, Fedallah incuriously and mildly eved him; the clinging crew, at the other drifting end, could not succor him; more than enough was it for them to look to themselves. For so revolvingly appalling was the White Whale's aspect, and so planetarily swift the ever-contracting circles he made, that he seemed horizontally swooping upon them. And though the other boats, unharmed, still hovered hard by; still they dared not pull into the eddy to strike, lest that should be the signal for the instant destruction of the jeopardized castaways, Ahab and all; nor in that case could they themselves hope to escape. With straining eyes, then, they remained on the outer edge of the direful zone, whose centre had now become the old man's head.























Meantime, from the beginning all this had been descried from the ship's mast heads; and squaring her yards, she had borne down upon the scene; and was now so nigh, that Ahab in the water hailed her!- "Sail on the"- but that moment a breaking sea dashed on him from Moby Dick, and whelmed him for the time. But struggling out of it again, and chancing to rise on a towering crest, he shouted,- "Sail on the whale!- Drive him off!"



















The Pequod's prows were pointed-, and breaking up the charmed circle, she effectually parted the white whale from his victim. As he sullenly swam off, the boats flew to the rescue.

Dragged into Stubb's boat with blood-shot, blinded eyes, the white brine caking in his wrinkles; the long tension of Ahab's bodily strength did crack, and helplessly he yielded to his body's doom for a time, lying all crushed in the bottom of Stubb's boat, like one trodden under foot of herds of elephants. Far inland, nameless wails came from him, as desolate sounds from out ravines.

















But this intensity of his physical prostration did but so much the more abbreviate it. In an instant's compass, great hearts sometimes condense to one deep pang, the sum total of those shallow pains kindly diffused through feebler men's whole lives. And so, such hearts, though summary in each one suffering; still, if the gods decree it, in their life-time aggregate a whole age of woe, wholly made up of instantaneous intensities; for even in their pointless centres, those noble natures contain the entire circumferences of inferior souls.

"The harpoon," said Ahab.

Melville, Moby Dick: capitulo 133: the Chase, First Day (excerto)


















imagens: Casa do Vôo dos Pássaros, S. Miguel, Bernardo Rodrigues, 2010

Setembro

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Agosto. Agosto outra vez. Um Agosto inútil, mas, talvez por isso mesmo, um Agosto decisivo.

Por isso: Setembro.

Nota solta sobre um monte de papel

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De certa forma é curioso constatar que a brutalidade e a violência associados ao acto de fazer arquitectura se resumem, no fim, a um monte de folhas de papel em cima de uma mesa. Acreditar, porém, que o papel garante coisa alguma não mais é que a ingenuidade que, aqui e ali, vai sendo confundida com optimismo.

La pergunta és:

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¿Ocupa la honestidad toda tu obra?

in ¿Quién es Alejandro Aravena?, por Anatxu Zabalbeascoa, no agora linkado del Tirador a la Ciudad

Quando as catedrais eram piratas

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Estivesse embora prometido há algum tempo, a reserva obrigava-nos à espera. À espera da Obradoiro 34 nas bancas. Dessa Obradoiro acabada há mais de um ano, e guardada (definitivamente ?) numa gaveta. Achando-a, à Obradoiro, uma pequena pérola, toma-se uma decisão em prol da pirataria internacional: disponibilizá-la.
É correr, gentes, é correr; q'a oferta não dura para sempre.

pim pam pum

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uf... dir-se-ia: tanta tempestade num copo d´àgua.

Bem sei que não é de crítica que se controem os blogs, e que de facto há pouca crítica em Portugal. E no entanto não era tanto disso que se falava quando se falava de crítica; mas exactamente do contrário: o aparente desprezo pela crítica por quem faz arquitectura
Não é, entenda-se, um fenómeno reduzível ao desprezo de um qualquer autor por uma determinada crítica directa ao seu trabalho; mas uma observação mais geral, que se prende com a falta de disponibilidade dessa gente toda que trabalha nos ateliers em procurar uma leitura crítica do seu trabalho fora do quotidiano que habita. Quem diz Seu, diz, claro, qualquer trabalho que tenha algo em comum com os problemas que se lhe colocam a determinado instante.

Na verdade a leitura de uma obra de arquitectura é sempre viciada. E o problema para os autores é exactamente aquilo que procuram(os) numa obra de outro: a relação directa com as nosso programa do dia-a-dia. Descobrimos-lhes, a essas obras, os truques, os erros escondidos debaixo do tapete, as pequenas maravilhas, as hesitações, as invenções. Só que tudo isto é em certo sentido moldado por aquilo em que estamos embrenhados; o que implica, enfim, pouco afastamento à coisa. E por isso ler uma crítica a uma dessas obras é ler uma crítica a esse nosso embrenhamento. Como sabemos: uma pancada nos olhos faz ver.Mesmo que a pancada não seja exactamente nos nossos olhos.

(continua).

Peggy

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A maravilhosa hesitação de Patsy perante a possibilidade de uns minutos de luxuria com Peggy ou o decisivo prazer de saborear a cereja, primeiro, e o bolo, logo a seguir, não mais é do que uma imagem limpida daquilo que são as nossas mais quotidianas indecisões. Sendo evidente que uma escolha dispensa todas as outras (promissoras) hipóteses, resta-nos questionar exactamente as virtudes do desejo, e se esse desejo será saciável através dos mecanismos que nos são mais habituais.
De uma ou de outra forma resta-nos sempre a hipótese de nos saciarmos com o que temos mais-à-mão. Seja um bolo - mesmo que seja uma charlotte russe with whipped cream - ou, enfim, um corte. Com cereja.

Rewind

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Diz-se: não há crítica de arquitectura em Portugal. Pode ser que sim. Que não haja gente a escrever crítica. E no entanto esta afirmação expressa mais um lugar comum do que propriamente vontade que ela exista. Há poucos dias, para os lados da Antena 2, Alberto Carneiro queixava-se exactamente disso: de não haver crítica. Ou - interpretei eu - de não haver gente que a compreendesse, à obra escultórica de Alberto Carneiro, pondo-se o autor a desdizer todos aqueles que procuram desmontar o seu discurso; coisa particularmente difícil de se fazer, diga-se, dada a total incapacidade do autor em articular uma frase inteligivel do princípio ao fim.
Na verdade a questão não reside assim tanto nessa ideia de existir, ou não, crítica de arquitectura em Portugal; mas antes se os autores estão disponíveis em deixar que a crítica lhes entre pelo atelier a dentro. E não: não estão. Facto esse que torna a actividade crítica numa inutilidade, não tanto por ela ser inexistente, mas por aquilo que está na sua origem (os factos, as obras ou as gentes sobre os quais se dedica) a acharem irrelevante ou, pior ainda, maldizente.

Dito isto, refira-se não ser intencional o facto de se pôr em causa a existência de um blog cuja autoria reflecte exactamente sobre a noção de crítica. Aliás: trata-se exactamente do oposto: da necessidade de o tornar consequente para aqueles que o lêem. Mais, portanto. E nunca menos.

Fim de Maio, ainda

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The Curved House, 1990, L. Bourgeois.

Caleidoscópio

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Bem sei: é díficil. Ou deve ser. Díficil: ser editor de arquitectura em Portugal. Mesmo assim não deixa de ser arduo o exercício de procurar compreender o que está por detrás desse extenso rol de duvidosas monografias de arquitectos portugueses que ultimamente vão enchendo os escaparates das livrarias.

Doutor Fausto duvidando

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Devolver la arquitectura a la gente. La arquitectura se queda en el lugar, pero también en la gente. Nos gustan los edificios ricos, sensuales, inspiradores: los que se quedan en la memoria. Nos interesa la arquitectura económica y hecha a medida, precisa: los edificios sastre.

Non nos interessan las borbujas. Queremos seguir dudando; entrevista a J. Herzog, por Anatxu Zbalbeascoa, El Pais, 2 Maio '10
Para além do paradoxal termo "arquitectura económica e feita à medida" usado por J. Herzog - sobretudo quando comparado com a última década de produção do seu atelier -, ficamos a saber que, para o Suiço, coisas que ficam na memória são afinal simples efeitos espaciais.
Não é fácil precisar o exacto momento em que Jacques trocou a ambição em fazer a melhor arquitectura pela ambição em ser o melhor arquitecto, substituindo o uso da imponderabilidade pelo consumo desenfreado desses efeitos espaciais, que as transformam - às suas obras - numa espécie de sucedâneos de George Lucas. Mas seria capaz de apostar que, por detrás desse falso olhar de quem afirma continuar a duvidar, se esconde alguém cansado de fingir que quer devolver a arquitectura às pessoas.

Dizia-me há dois ou três dias um desses jovem arquitecto ambiciosos que, desde o momento em que houvera assistido a uma palestra desse mesmo Herzog, cansado, repetindo vezes sem conta a sua autoridade de maior arquitecto do mundo, tinha decidido que a sua única ambição era exactamente renegar qualquer tipo de ambição que não fosse a de construir melhor arquitectura. Facto que é sinónimo de rasgar esse pacto assinado com Mefistófeles que todos temos guardado na mesa de cabeceira.

Dos instrumentos

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Tivéssemos nós de nomear o instrumento que a prática da arquitectura mais necessita, provavelmente era de ambição que falariamos.
Fazer arquitectura assenta na ambição. Desmesurada. Impraticável. Intransigente. Em tornar alguma coisa numa coisa única. Concordêmos: não haveria Brunelleschi sem ter havido ambição. Nem Bramante. Nem Alberti ou Della Porta. Michelangelo. Ou Palladio.
É nessa desmesura que porventura residirá a explicação de todo esse tempo gasto a pensar em inutilidades, quando a expectativa primeira em fazer-se um edifício reside exactamente na sua utilidade.
Sem sermos evidentemente capazes de pôr de parte o tempo gasto em todas essas inutilidades - nem que seja pela simples razão de ser esse mesmo tempo gasto em inutilidades o sustento das nossas acções, sem o qual nos sentiríamos ridículos ainda mais vezes do que aquelas que nos sentimos -, não deveríamos no entanto esquecer que a ambição não é transferível.
Quer dizer: se a ambição é o nosso mais poderoso instrumento de trabalho - aquele que um dia nos permitirá fazer coisas vagamente aparentadas com a Fiesole (isto só para não sair do quattrocento); ela não deveria extravazar essa simples condição oficinal.

Fim de Maio: o amigo americano

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Ripley's Game (fotograma), 1977, W. Wenders

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