Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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O rei está morto: viva Champalimaud

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Tornou-se evidente, há já muito tempo, que de facto a construção do Museu dos Coches irá avançar. Da sua urgência - que dispensou a realização de um concurso para a escolha de um melhor projecto de arquitectura - já (quase) toda a gente se parece ter esquecido.
Continuo a acreditar que o projecto poderia muito bem ter sido outro, bem melhor (aliás, Mendes da Rocha nem sequer foi a primeira escollha entre os Pritzker), e que essa ausência de ambição irá menorizar aquilo que à partida seria uma grande oportunidade arquitectónica.
Certo é (que com a excepção de Mendes da Rocha) não haverá propriamente lugar a mortos e feridos, mas apenas um amargo de boca, que mais cedo um mais tarde passará.

Falhada a obra do regime, restará a Fundação de Charles Correia para convenientemente emoldurar o próximo 5 de Outubro.

Look: new shoes!

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Charles Correia, David Adjaye, Janeiro 2006, via BBC

Repare-se: não tenho nada, mesmo nada, contra a existência de um pensamento Politicamente Correcto.
Parecia-me no entanto bastante mais correcto saber que as apostas que vamos fazendo para as nossas cidades (Museu dos Coches, Africa.cont, Fundação Champalimaud) passassem por processos mais devedores daquela tradição democrática onde, norma geral, as escolhas são feitas com base na reflexão, e não apenas (e só) na intuição.

Concordemos: ultimamente a intuição não tem dado assim tão bons resultados, pois não?

[ps. Clarificação (Politicamente Correcta) àqueles (poucos) que não perceberam (ou perceberam mal) a fina ironia do headline: a piada vem daqui.]

Adenda às três últimas entradas

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Paulo Mendes da Rocha, Osaka, 1969.

Eis um exemplo do que (nos) poderia acontecer se ao Paulo Mendes da Rocha (ainda) lhe apetecesse fazer arquitectura. Ou poesia que, salvo a questão anteriormente referida, é (quase) a mesma coisa.

Adenda às duas últimas entradas

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Urbanismo, geografia, sociologia, política não esclarecem a arquitectura. A arquitectura é que, acidentalmente, pode esclarecê-los a eles. Mas não parece ser este o seu propósito. O propósito da arquitectura é esclarecer-se a si mesma e nesse esclarecimento tornar viva a experiência de que é o apuramento e a intensificação.
Isto seria um texto escrito pelo Herberto Helder, se por acaso Herberto Helder fosse arquitecto, ao invés de ter sido poeta. Bom, o contrário também é verdade: se Herberto Helder fosse arquitecto o mais certo seria não o ter escrito de todo.

Afinal não se pode exigir
sensibilidade à poesia a nenhum arquitecto.
É que a poesia não faz parte da sua responsabilidade social.

Doctor Pangloss

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Susana e os Velhos, Rembrand, 1647

Caro Daniel,

Só agora tive oportunidade de ler a réplica ao Susana e os Velhos: o esforço e a reciprocidade são, claro, estimáveis e, por tal, motivo de reconhecimento.

Antes de mais uma clarificação: se escrevi truculento em parte alguma do meu anterior texto, isso dever-se-á necessariamente à contingência do lapso, do desvio ou do simples acidente. Porque embora tenha especial carinho por diatribes e outras afeições tumultuosas – que, ao contrário da ideia de João Lopes que tem o cuidado de citar, julgo serem sinais de profunda convivência democrática –, não faria parte dos meus objectivos para com A Barriga o uso de qualquer tipo de violência, cinismo caricatural ou ironia grosseira aquando da escrita de Susana e os Velhos.
Nem sequer tinha consciência que o Daniel tivesse uma posição oposta (logo errada) à minha, neste caso particular do (projecto) do Museu dos Coches; pelo que, acredito, os equívocos interpretativos, a terem existido, possam estar definitivamente ultrapassados.

Mas então qual é de facto a razão de trocarmos posts assim tão oficiosos? Na verdade julgo não haver razão assim tão grande mas, apenas e só, questões de pormenor (que, até ver, são as razões mais interessantes).
Diz o Daniel a certa altura que não pretendeu recriar-se num Pritchard ao serviço da arquitectura. Esse Printchard que, admito, pareceu mesmo partilhar o teclado consigo aquando da escrita do texto originário desta nossa conversa.

Ora, se não foi Printchard, foi concerteza o imoderado optimista Pangloss.
É que, Daniel, o seu texto, – ou antes: a atitude generosamente ampla do seu texto – por pretender ser politicamente correcta e genuinamente estóica na procura de uma verdade (que, já agora, nunca iremos encontrar) sobre as virtudes ou defeitos do projecto de Paulo Mendes da Rocha, tornou-se numa espécie de contra-senso para quem, como o Daniel, é arquitecto.
Ou seja: Daniel quer perceber um fenómeno do domínio da arquitectura à força do sacrifício da sua própria educação e cultura arquitectónicas; que é praticamente a mesma coisa que querer ganhar uma partida de xadrez á custa do sacrifício do próprio Rei.

Bem sei que A Barriga tem pretensões (mais uma vez sem qualquer tipo de carga negativa) pedagógicas. Porventura é essa qualidade que faz d’A Barriga o blog arquitectónico mais visitado cá por casa. E no entanto é essa qualidade altruísta sobre a expressão da arquitectura na comunidade que de certa forma vai tornando redundante qualquer análise mais profunda (para não usar a palavra crítica que tanto nos parece afastar) que A Barriga possa fazer de um determinado fenómeno; pelo menos do ponto de vista de quem procura ler (sobre) arquitectura.

Não tenho nada a opor a que A Barriga faça derivações sobre as propriedades morfológicas ou programáticas de um determinado projecto com o intuito de tornar o discurso o mais aberto possível. Acredito mesmo nos benefícios e na utilidade dessa acção informativa perante um público com poucas oportunidades de aceder a informação disciplinar, de forma clara e descomprometida. Eu próprio me incluo por vezes nesse grupo, se bem que normalmente em outras áreas.

E no entanto não creio que essa abertura surta qualquer tipo de efeito para o próprio Daniel. Porque se acredita de facto em abertura, transparência e democracia deveria, por exemplo, tentar explicar porque teria sido importante para a abertura, a transparência e a democracia a existência de um processo aberto, transparente e democrata na selecção da melhor proposta para o Museu dos Coches em Belém.

É que todos estes assuntos qu’A Barriga procura apresentar são, em limite, os temas que se pensam e discutem através de propostas de arquitectura, através de projectos e de ideias: é para isso que serve um concurso. Sem ele – sem essa vontade da nossa democracia em tentar perceber o que é que anda a fazer – a sua discussão é inútil, porque extemporânea.

Admito aqui um defeito. Um defeito que, ainda assim, julgo, é partilhado por todos aqueles que desenvolvem a sua actividade quotidiana em torno de uma qualquer especificidade, inclusivamente o Daniel: a curiosidade e a disponibilidade para a análise de um determinado fenómeno são diametralmente opostas à quantidade (vá lá, qualidade) de conhecimento que se tem sobre esse mesmo fenómeno. Por outras palavras: quanto mais sabemos sobre uma coisa, menos paciência vamos tendo para ficar maravilhados com aquilo que nos passa pela frente.
Chame-lhe pessimismo ou cansaço; a verdade é que a virgindade só se perde uma vez, mesmo que essa vez, no nosso caso, se arraste durante anos. Por isso não é simplesmente possível olhar sempre com a mesma capacidade de espanto para coisas que fomos sendo treinados para pressentir.

O mais natural para um compositor será desconfiar logo à partida de uma partitura que pareça ter notas fora de escala; como o mais natural para um escritor será desprezar um livro cuja primeira página que abra esteja ferida de erros de sintaxe.
Ou antes: esperamos sempre que os erros de sintaxe e as notas fora de escala tenham origem noutro tipo de autores: aqueles jovens sempre tão arrogantes que por aí pulam feitos uns lobos. Ou porque se querem fazer ouvir. Ou porque acreditam que através de um erro de sintaxe possam descobrir a salvação do mundo. Ou, simplesmente, por terem cometido um erro grosseiro.

Não creio que Paulo Mendes da Rocha necessite, hoje, de se fazer ouvir. Nem acho que Paulo Mendes da Rocha tenha ainda a ingenuidade de querer mudar o mundo. A mim, infelizmente, só me resta a terceira explicação.

Pela leitura do Discurso Directo percebi algumas reservas ao projecto do Museu; mais diluídas em precauções de carácter social e urbano do que as minhas. E mais abertas a revisão futura.
Acredite, meu caro Daniel, que gostaria que tivesse toda a razão do seu lado, e no fim de contas o museu fosse uma extraordinária obra de arquitectura.

Outras diatribes haverão concerteza, para mútuo entretenimento. E não se preocupe com mais nada: a probabilidade de desistência da minha parte é muito superior à sua. Até lá.

Susana e os Velhos

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Susana e os Velhos
, Tintoretto, 1560

Li, com atenção, a análise d’A Barriga ao projecto do Novo Museu dos Coches. Reli uma segunda vez. E não consegui chegar a nenhuma conclusão sobre o posicionamento de Daniel Carrapa sobre o objecto que se propôs analisar.

No entanto diria, com toda a certeza, que é exactamente na questão que a Barriga tão cedo põe de lado (da poética laudatória aos amadorismos do "gosto") que se resolveria tão delicado problema.

Alertei a Barriga para o problema: subjugar o (que ela chama de) amadorismo do gosto a pontos de vista tecnocráticas é um daqueles erros básicos que só faz quem se propõe avaliar arquitectura de forma tecnocrática.

Ao que A Barriga replica:

ao colocar de lado a questão do ‘gosto’ não pretendo avançar com uma análise ‘tecnocrática’ ou muito menos neutra do projecto. Mas não vejo outra forma de falar objectivamente sobre ele [claro que vê, meu caro, claro que vê]; avançando desde logo com a proposta de confrontar o projecto, objectivamente, com valores contemporâneos de arquitectura [que são]:
O projecto materializa um equilíbrio entre massa construída e os espaços vazios?
Confere identidade ao lugar?
Promove a diversidade de usos?
Permite uma boa apropriação do público?
Acolhe a multiplicidade e riqueza de actividades?
Experimentação?
Evasão?
Informação?
Promove uma boa vivência, permite convívio, isolamento, confere segurança?
O espaço envolvente é qualificado? Tem “funções”? Resulta numa boa urbanidade do lugar?
E a função Museu? Porque um museu não é apenas um edifício, não é apenas arquitectura, é acima de tudo conteúdos?
Aquela expressão infraestrutural serve a identidade do Museu dos Coches?
Como nos relaciona – exterior e interiormente - com a sua história?
Valoriza o seu potencial turístico? Economicamente, é uma mais-valia?
Dito isto concluo que estamos de facto perante um problema. Não o problema do Museu (isso não é bem um problema, mas apenas um projecto que correu mal a uma vida que correu bem), mas o problema da crítica, ou de falta dela.

Repare Daniel: qualquer que seja o tipo de resposta que encontre para cada uma das questão que levanta (sim/não; certo/errado; verdadeiro/falso; 1/2) ficamos na mesma.

Porque, como sabe, há projectos que materializam um equilíbrio entre massa construída e espaços vazios que são geniais, e projectos que materializam um equilíbrio entre massa construída e espaços vazios que são medíocres. Como também há projectos que não materializam qualquer tipo de equilíbrios entre massa construída e espaços vazios que são, outra vez, geniais, e projectos que não materializam qualquer tipo de equilíbrios entre massa construída e espaços vazios que são, infelizmente, banais.

Desde quando é que uma boa (excelente, vá lá) obra de arquitectura promove a diversidade de usos ou acolhe a multiplicidade e riqueza de actividades? Estamos a pôr Viipuri de que lado?
Experimentação? Quem? O Pietila?
Evasão? Sullivan ou de La Sota?
Informação? Estará porventura o Daniel a pensar no Hertzberger?
Desde quando é que um edifício que promove uma boa vivência, permite convívio, isolamento, confere segurança é um edifício genial? E o contrário… recordo muitos.
O espaço envolvente é qualificado? E se não for? É bom? É mau?
E depois, mais errada ainda: aquela expressão infraestrutural serve a identidade do Museu dos Coches? Pergunta, como se não soubesse, meu caro, que a expressão (qualquer que ela seja) serve sobretudo a arquitectura.
Das questões de valorização do potencial turístico interrogo-me: o que é que a arquitectura tem a ver com isso?

Desconfio, claro, que aquilo que nos separa é a própria arquitectura enquanto possibilidade de interpretação: para si um conjunto de satélites em órbita de variantes encontradas caso-a-caso; para mim a (simples) explicação do objecto através dele próprio (chame-lhe gosto se quiser); como aliás se faz na (boa) crítica literária, na (boa) crítica musical, na (boa) crítica poética.
Lembrar-se-ia alguma vez de abordar um Livro do Herberto Hélder como experimental (sim/não), evasivo (sim/não), ou através da análise qualitativa do seu espaço envolvente? Não creio.

Até porque não há obras valiosas em arquitectura (pelo menos na moderna) que não sejam intolerantes e demolidoras dos esquematismos castrenses ou tecnocráticos, como também dos espartilhos do uso. Público e privado.
Por isso obras valiosas são tão escassas. E todas estas não são, ao longo da história, outra coisa que não crítica e paródia a outras grandes obras; que levantam, claro, o único problema que a crítica distante e distanciadora é incapaz de resolver: a sua própria natureza limitada e limitadora.
A crítica feita dessa maneira, meu caro, é sobretudo uma autocrítica, que fica escrava das suas próprias limitações, sem (sequer tentar) perceber o que tem à sua frente.

A outra crítica – aquela da poética laudatória aos amadorismos do "gosto"; como lhe chama -, como também o acto de fazer arquitectura, é um ciência poética (desculpe a expressão Daniel, mas estou acordado há horas demais para me lembrar de outra mais elegante), mas que, ao contrário da primeira, não requer uma grande formação tecnológica.

Relembro as palavras de António Miranda (Ni Robot Ni Bufón) – livro, aliás, que aconselho vivamente (nota: o brilhante texto contraditório da tese de Miranda, publicada na última parte do livro, é também de Miranda, embora não pareça):
basta, segundo as indicações evangélicas, tentar (como cordeiro entre lobos) ser sensato como a pomba, mas astuto como a serpente, e abandonar o papel das virgens insensatas para adoptar o das virgens prudentes.
Todos podemos alcançar um alto nível de crítica usando a ironia, usando tópicos, prejuízos, sentidos comuns, ideologias, paranóias pessoais e [até] o mau gosto burguês

Se não gostar de Miranda poderá sempre usufruir as palavras de um autor (julgo) bem mais próximo da sua sensibilidade pessoal (ia dizer gosto, mas arrependi-me):
Não tenho princípios (...) julgar com as ideias e os sentimentos sempre me pareceu um destino soberbo. A indiferença pelas chamadas virtudes cívicas e para com os apetrechos mentais do instinto gregário resulta não só útil para o artista [para o crítico], mas é seu dever absoluto. Se isto é amoral, a culpa é da natureza (…) A sinceridade é o grande obstáculo que o artista [crítico] tem que vencer. Unicamente uma disciplina prolongada, uma aprendizagem de simplesmente sentir as coisas, pode levar o espírito ao seu próprio culminar.
Dito isto, termino reafirmando:

O problema do Museu dos Coches do Paulo Mendes da Rocha é, simplesmente, o de ser um mau projecto. Não por fazer uma praça sei lá aonde. Não por estar cortado ao meio. Não por ser o contrário do CCB. Mas simplesmente porque é, amadoristicamente falando, formalmente despropositado; sem que no entanto nos dê algo em troca.

É uma espécie de infelicidade que acontece a todos. Uma infelicidade para PMR, uma infelicidade para Belém. E uma infelicidade para mim, que gosto de um e do outro.

Obrigado.

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