Da apresentação d'O Arquitectura em Público, em Lisboa, as palavras de Isabel Salema enquanto editora cultural do Público deixaram no ar a ideia que o enquadramento dado pelo jornal à arquitectura seria sobretudo fruto da casuística (Salema, julgo, utilizaria o termo caótico), mais do que de qualquer estratégia de fundo, que nunca terá chegado de facto a existir.
Aquilo que se pode concluir é que, independentemente do papel relevante do Público na divulgação da arquitectura, a redação viveu - e porventura contínua a viver - numa espécie de ingenuidade disciplinar; propícia, evidentemente, a erros ou, pior, à construção de teses pouco dadas à heterodoxia.
Por falar em Erros, Público e Arquitectura, registe-se a reportagem (especializada) de Sérgio Andrade sobre o lançamento do livro de Gadanho; o que não só vem confirmar a sábia afirmação de Newman, como também o seu contrário.
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Arquitectura ou Público
Para lá da relevância do levantamento que Gadanho se propõe fazer no seu Arquitectura em Público: 15 anos de expansão mediática nas páginas de um jornal português (Colecção Equações de Arquitectura, Dafne, Porto, 2010; a partir da sua própria Tese de Doutoramento) - que, de forma sistemática e rigorosa, percorre o processo de generalização da arquitectura levado a cabo pelo Público entre 1991 e 2005 - o case-study torna evidente o paralelismo entre a discussão da arquitectura para lá daquilo que é a sua habitual zona de conforto e a crescente presença desta na sociedade portuguesa; mesmo quando o discurso não coincide exactamente com as pretensões ou preposições que são próprias à disciplina.
Gadanho diz isso mesmo, quando refere que "a hipótese de este acesso (aos media) garantir a construção de uma nova representatividade – e legitimidade – social da produção arquitectónica no âmbito do quotidiano", apontando-lhe no entanto o reverso da medalha: "o enfoque passa aqui a ser o acesso da arquitectura à construção da esfera pública e o modo como esse acesso gera uma sujeição ao escrutínio que, eventualmente, perturba a autonomia da arquitectura".
Dessa forma, como aliás em qualquer outra situação de mediatização, os eventuais ganhos resultantes da exposição pública resultam numa espécie de obrigação de manutenção de uma imagem consistente e coerente com aquela que foi sendo construída por essa via; resultando evidentemente todo esse processo numa aparente redução da complexidade própria do fenómeno arquitectónico. Gadanho di-lo de outra forma: "mesmo que a sociedade conte ainda com o reduto da opinião do especialista, a opinião em termos mais gerais foi, de facto, reconstruída como o adversário público e social do discurso especializado; quer isto dizer; houve um aparente fenómeno em que os media especializados foram sendo substituidos pelos media generalista".
Não sendo exactamente assim - até porque essa redução será, por princípio, apenas aparente; jogando o próprio jogo mediático, numa estratégia de sobrevivência nesse outro mundo já tão distante da cultura própria dos arquitectos -, certo é que esse fenómeno irá trazer mudanças evidentes na forma com que a disciplina se comunica e, por tal (que o digam os semiologistas), alterações na própria forma de a pensar, à arquitectura. Para o exemplificar, bastaria olhar para o fenómeno Bjarke Ingels, não apenas do ponto de vista do autor - preocupado em montar uma estratégioa de marketing -, mas também do ponto de vista dos clientes - que passam a entender um discurso construido à sua medida - e, mais surpreendente ainda, a própria cultura disciplinar - que sofre evidentes alterações, reduzindo-se às normativas do discurso criado.
Arquitectura em Público fica-se pelo território nacional, inclusivamente num tempo anterior ao aparecimento dos BIG; embora o próprio autor desenvolva algumas considerações sobre esse processo, referindo Johnson, Le Corbusier, Koolhaas (que faz a capa do Arquitectura em Público) ou Foster; este último com outro tipo de protagonismo, dada a sua própria presença em Lisboa no decurso dessa década e meia pela qual o livro vai passando.
No entanto, a tese de que a generalização do discurso arquitectónico implica a sua própria simplificação é de certo modo paradoxal; até porque, vendo bem as coisas, o desenvolvimento da visibilidade generica da arquitectura em Portugal coincide a com o próprio desenvolvimento da especialização; ou não fosse o caso do número de publicações especializadas ter aumentado significativamente nos últimos anos.
E isso leva-nos ao cerne da questão, referida aliás por Gadanho: a mediatização generalista da arquitectura implicou em certo sentido a uniformização de conteúdos. Para os media só existe uma arquitectura portuguesa, o que quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, essa arquitectura portoguesa não irá deixar que nada mais cresça à sua volta.
E depois, penso mesmo que Gadanho saberá exactamente qual a próxima fase da mediatização.
Diria mesmo que a mediatização é ela própria o principal território de trabalho da arquitectura do próprio autor, cuja carreira assente exactamente na criação de conteúdos arquitectónicos cuja validade per se já não é o ponto flucrar, mas antes a sua intersão numa dinâmica de media que ultrapassa o próprio objecto, espalhando-o e espelhando-o por um conjunto de suportes (escrita, media, arte, etc.) e autores; que transformam, aliás, cada projecto de Gadanho uma peça concreta e rigorosa na construção da sua própria agenda enquanto autor, e da qual fazem parte o seu blogs e as suas revistas, os seus projectos curatoriais e, evidentemente, este livro de que agora se fala.
Entretanto no Porto
Do sabor (entrincheirado) da Crítica (2)
Provavelmente esta discussão em torno do sabor da crítica não reside afinal sobre o seu sabor, mas antes sobre aquilo que implica a própria palavra Crítica.
Essa academia que Grande parece querer acreditar tende a agir retroactivamente. Analisando, sempre muito, aquilo que foi feito, e prevendo, sempre muito, aquilo que nunca será feito; a capacidade da academia parece estagnar em tudo aquilo que não seja o acto de transmitir um receituário mais ou menos coerente, mais ou menos eficaz.
O problema principal da tese de Grande reside exactamente no facto de que legitimar a Crítica através do escrutínio é – para além de crer cegamente na capacidade de um sistema quase sempre fechado sobre si próprio, cheio de vícios de forma e de limitações próprias daqueles que sobrevivem à custa do número de artigos publicados com peer review (mas alguém já pensou quem é que faz peer review em arquitectura?) – legitimar primeiramente um circuito de conhecimento que, para lá daquilo que possa ter de positivo ou negativo, é ensimesmado, e muito pouco consequente.
Não duvido, claro, das necessárias conclusões de uma tese de doutoramento, nem mesmo de todo esse maravilhoso conhecimento a que se obriga todo aquele que exerce a sua actividade profissional de crítico no seio da academia. E no entanto duvido, claro, da possibilidade de toda essa sagacidade poder ser posta ao serviço da arquitectura.
O problema aqui passa em muito pela incapacidade – para não falar na falta de vontade - da academia ser de facto útil à produção arquitectónica. Aliás, parece que a academia desdenha em muito aquilo que está na base da própria disciplina, tratando a maior parte das questões que a envolvem com a ligeireza própria de quem aredita que estas nunca tenham sequer existido; preferindo antes distrair-se com factos, certamente deliciosos, mas muito pouco consequentes, quer em termos colectivos, quer em termos individuais.
Evidentemente que a dictomia entre a academia e a actividade profissional (T. Hauser) é perfeitamente descabida; pelo menos no plano teórico. Ambas servem um mesmo fim. Só que esse entrincheiramento – ainda por cima consciente – que Grande e seus pares da academia invariavelmente se colocam, implica um total esvaziamento daquilo que produzem; pelo simples facto do conteúdo que produzem só ser lido e discutido em circuito fechado.
Um projecto crítico é obviamente independente do seu suporte (Gadanho), sendo a sua credibilidade dependente única e exclusivamente do seu teor. E isto aplica-se tanto a uma recensão sujeita a peer review, a uma prova académica, ou a um daqueles textos fáceis que se lêem todos os dias na blogoesfera.
Evidentemente que o suporte deste último tem as suas próprias limitações; que passam em muito pela aparente ligeireza dos textos, pela necessária rapidez com que são lidos e, sim, também, pela fácil apropriação por quem quer que seja. E poderemos, claro, olha-la, à Crítica feita na blogoesfera, com toda a desconfiança.
Por outro lado, podendo sempre exercer-se essa capacidade – tão cara aos académicos – em ser criterioso, não nos parece assim tão difícil saber separar a maldicência amadora da reflexão séria e intencionada, independentemente destas aparecerem travestidas de blogue, ou de páginas de uma qualquer revista arrumada na biblioteca de uma qualquer escola de arquitectura. E dessa forma encontrar a credibilidade de um texto publicado num blogue não é assim tão diferente de encontrar credibilidade num texto publicado noutro qualquer suporte.
Não creio saber se aquilo que pode ser entendido como crítica de arquitectura o é de facto, nos blogues. Nem sei mesmo se importa assim tanto limitar a crítica a um suporte.
Aquilo que (me) leva a reflectir sobre um projecto ou uma obra é, em primeiro lugar, tentar percebe-lo, a esse projecto ou a essa obra.
O acto de tornar públicas essas reflexões passa, evidentemente, por querer testá-las. Perceber exactamente a sua validade. E isso não mais é do que repetir um modelo assente na ideia que o debate é útil.
Na verdade creio que um acto crítico é, antes do mais, uma acto de generosidade. Uma espécie de feed-back sobre o trabalho dos outros. Tentar transformar essa possibilidade numa trincheira não é portanto um simples exercício de auto-defesa, mas um erro grosseiro, violento até.
Não me passaria nunca pela cabeça pôr em causa um qualquer projecto de arquitectura apenas por este ser feito por alguém que não granjeou ainda qualquer tipo de legitimidade profissional (um académico, por exemplo); simplesmente porque aquilo que me interessa num projecto é o projecto em si: a forma como é pensado, o seu conteúdo, e sua formalização, e as suas consequências disciplinares. Tudo o que se passa para além (ou aquém) disso é portanto dispensável.
A(i) 10
Quer dizer: gostavamos do Hans Ibelings, ou pelo menos da ideia que dele tinhamos, toda ela baseada nessa tese maravilhosamente anti-regionalista-crítica descrita no Supermodernism.
Não é que tenhamos qualquer tipo de desprezo pela A10. Pelo contrário: o pasquim é simpático quanto baste, e sempre se vão lendo umas coisas sobre a croácia ou a bulgária. Quer dizer: há um lado intrinsecamente generoso em fazer passar toda aquela arquitectura (europeia) que não enche as medidas às Av's ou às GA's, ou às 2G's, mas cuja regularidade (digamos assim) merece ainda assim (com certeza que sim) a atenção. Simpático o modelo editorial da A10, que espalha a responsabilidade de escrever e editar a revista por correspondentes nacionais de perfil heterodoxo (de Portugal seguem textos de Gadanho, de Jordão ou de Carlos Santana, entre outros), o que faria adivinhar não apenas uma base de informação credível, mas também (sobretudo) a ausência de uma definição ideológica nas mostrar de cada um dos países que lá vão contruindo a herança da A10.
E no entanto, é exactamente nessa generosidade que assenta o grande problema da A10; que a leva, em limite, a não ter qualquer tipo de critério em relação à qualidade dos objectos que publica. Não tendo um corpo editorial residente, a A10 está à mercê dos pontos de vista de quem com ela vai esporadicamente colaborando, sendo evidente a impossibilidade do editor (neste caso o próprio Ibelings) validar o trabalho dos seus correspondentes, sob o risco de pôr em causa esse princípio de abrangência que está na origem da revista.
Vem tudo isto a propósito de um artigo (publicado na A10 n.º 35, de Setembro) chamado de Seven Zones, Seven-Day Journey (A seven-day architectural tour of Portugal), onde Carlos Guimarães (à semelhança de todos ou outros correspondentes nacionais da A10, também autor d'um blog que gosto de ler) propõe aos Croatas e aos Bulgaros ocupar 7 dias a ver obras menores como as Casas Brancas de Adalberto Dias, a recuperação do Grande Hotel do Porto (Cremascoli, Okumura, Rodrigues), um estádio (?) em Matosinhos (Machado Vaz), ou a Adega do Carlos Castanheira (que, d'entre as obras do autor, é a menos interessante).
Guimarães sustenta a sua escolha na tese (de Gadanho, que escreve o pequeno texto introdutório do Tour) de que a arquitectura (portuguesa) já não é mais caracterizada por uma abstracta e distante relação formal, mas antes um modelo de abertura, troca, e multiplicidade (tradução evidentemente livre), o que o leva a deitar fora tudo aquilo que de facto importa conhecer, propondo aos Croatas a aos Bulgaros irem passear por cima da relva (artificial) das Piscinas da Povoação (realmente um óptimo exemplo de abertura, troca e multiplicidade) ou andar não sei quantas horas de carro entre pedras e pedragulhos para ver um deselegante museu - tema a explorar num Post perto de si - vagamente parecido com as coisas que nem o Herzog procura repetir.
Desconfia-se até que Guimarães ele próprio desconhecerá metade das obras que mapeia (porventura por ter estado lá por fora nos últimos tempos), escolhendo-as por d'entre os ficheiros do Habitar Portugal ou das Ultimas Reportagens; facto esse que nos dá - pelo menos - o benefício da dúvida em relação à sensibilidade e bom gosto que o cronista ainda possa manter.
Quanto à jornada dos sete dias, a esperança é que entretanto os Croatas se percam nas ruas do Porto, restando, no fim, um Búlgaro, sozinho, à procura da entrada da Gruta das Torres, esquecendo-se de ver as obras maiores (não abstractas, muito menos distantes) de Paulo Gouveia, de Maia Macedo ou de Correia Rebelo.
Bienais, Trienais e outras tais
Logo após o Guardian anunciar o nome do autor que irá representar a Grã-Bretanha na Bienal de Veneza de 2011 (não: não me enganei: 2011) descubro, não sem algum contentamento, que Pedro Gadanho faz parte do Advisory Panel que ajudou a definir a representação britânica na bienal de arquitectura.
Exercício do Direito de Resposta separado por breves trechos ensaisticos sobre a Escola do Porto
Do alegado estilo melindrado e recorrentemente reactivo com que aqui se fala da Escola do Porto julga-se que o incómodo de JPM resulta sobretudo de uma interpretação algo inadequada da sua parte, mais do que propriamente do teor dos argumentos que por aqui se vão defendendo.
Obviamente que a questão passa por saber de que Escola do Porto é que estamos a falar quando estamos a falar de Escola do Porto - como aliás se referem vários dos outros comentadores de serviço. Mas, mais importante que isso, é sabermos definir o campo de abrangência do nosso discurso, extrapolando-se, ou não, um posicionamento mais geral em torno das suas conclusões.
Não se adivinhando qualquer tipo de constrangimentos em abordar tal tema (a que já lá iremos) julga-se no entanto que As Catedrais não se lhe terão dedicado assim tanto à sua análise. Mas vamos lá então:
Argumentará aqui JPM que a irasbilidade demonstrada em a.s* Plan Toys ou a Classe de 1996 contraria esta nossa última afirmação: afinal refere-se por aí que a Escola precisa de quase tudo. Precisa de reflexão. De auto-análise. De reforma. De capacidade auto-crítica. De abertura e de flexibilidade. De inteligência. De capacidade de experimentação e de investigação. De habilidade e de idoneidade. De ambição e de conhecimento, e de ambição de conhecimento. De aptidão, dos seus alunos e dos seus professores. De saber aceitar aquilo que desconhece, e de ser curiosa. E precisa de apagar de uma vez por todas aquelas palavras pintadas num muro da escola, que dizem: Arquitectura Não se Ensina, com letras gordas e ponto de exclamação no fim e tudo.
Teria razão JPM: Ali falou-se da Escola do Porto. Ou daquilo que para ela desejaríamos, e que por razões várias – muita delas prosaicas, pouco heróicas - não acontece. E no entanto a.s* Plan Toys resume-se, prosaicam
ente, a uma espécie de private joke sobre gentes d’outros tempos, dos seus encontros e dos seus desencontros, mais do que a outra coisa qualquer.Conclui-se portanto ser um paradoxo a afirmação que um texto que crítica críticos da Escola do Porto possa constituir ele próprio uma crítica à Escola do Porto; anulando-se, por isso, qualquer hipótese de a partir dele se concluir um qualquer Complexo freudiano.
E no entanto, sendo possível que nos discursos do (ilhéu?) Bernardo Rodrigues, dos (lisboetas?) a.s*, de Pedro Bandeira, ou mesmo, com outra subtileza, do Atelier do Corvo ,se pudessem depreendem eventuais divergências com a iconografia ortodoxa pela qual a Escola do Porto tem vindo a ser (superficialmente) reconhecida, ou então com um distanciamento à posição ideológica que iria pautar o modelo de ensino que por lá se exerceu; será sempre displicente afirmar-se que esse afastamento equivale à assunção de renuncia à herança; mesmo no caso dos deserdados.
Tudo isso, repare-se, não equivale a redimir qualquer desses autores de desprendimento.
Não sabendo concluir sobre o partido desses autores, dir-se-ia que, no que diz respeito ao a.s*, ele existe. E pode ser explicado por vários ângulos.
O primeiro, mais fácil de demonstrar, resume-se à pouca equivalência entre o que (JMF) considera ser a Escola do Porto e toda essa produção que por ela se procura sustentar, pouco ou nada condizente com a condição ideológica que a nomeia
Quer dizer: fazer caixinhas, paralelepipédicas, mais ou menos elegantes, brancas ou com materiais da região, com pedras, madeiras, betão por envernizar, janelas rasgadas sobre a “paisagem”, austeras (ver essa brilhante selecção da melhor cultura arquitectónica nacional no Arquitectarte), pouco ou nada é explicado por essa teoria de entendimento do espaço que pela escola se veicula(va).
Se concordarmos que a Escola do Porto partilha em muito a sensibilidade que a teoria decidiu chamar de abordagem fenomenológica ou, pelo menos, validarmos a simplificação regionalista de Frampton, estamos muito longe (mas muito longe mesmo) de podermos explicar toda essa alegada partilha de valores entre essa forma da acreditar, e aqueloutra em que um extenso rol de autores lá vai caracterizando a sua obra.
Repare-se: não se trata aqui de colocar em causa a qualidade arquitectónica de uma qualquer obra considerada (por JMF) produto da Escola do Porto - se quiserem um exemplo, bastará relembrar a Casa do Gerês -, mas antes de duvidar da relação causal entre a Teoria da dita Escola e a produção que com ela se tem vindo a ser confundida.
Há, digamos assim, uma divergência entre a ordem do discurso que se opera sobre essas obras (a importância do contexto, a interpretação da estrutura sensível do lugar, o respeito para com ela, a sua continuidade) e a sua formulação, que mais se parece aproximar de um lugar comum do moderno, do que propriamente de uma formulação subjugada à matéria exterior (lá, no Norberg Schulz).
Caixas e mais caixas. Caixas em todo o lado. Brancas. Caixas iguais a tantas outras. Altas, menos altas. Acompanhadas por longos muros, tangencia de lajes, envidraçados encaixilhados a fino, guardas a tender para a invisibilidade, espaços neutros e modulares, volumes secos e aborrecidos, que nos são apresentadas como inteligentes e sensíveis exemplos de exímia compreensão do mundo, e de uma resposta única, singular, aos problemas que se lhe colocam; quando na verdade são simples exemplares (uns, poucos, melhores, outros, muitos, piores) do mais puro ensimesmamento. Desse mesmo ensimesmamento que despreza tudo aquilo que é externo ao autor Moderno; esse ser que Ferry chama de L’Homme-Dieu (ver também, por favor, o Homo Aestheticus, do mesmo Ferry), que muito de afasta daqueloutro posicionamento anti-moderno, supra-humano, algo metafísico até, onde a determinado momento se posicionou o discurso da Escola do Porto.
Seria levado a afirmar que, seguindo esta linha de raciocínio, JMP estaria porventura consciente que a sua afirmação – onde se diz que as “primeiras obras do a.s (já agora, a primeira obra do atelier é a Biblioteca dos Açores, que JMP decidiu, como que cuidadosamente, deixar de fora) não escondem uma certa herança da Escola do Porto” - se demonstra errada; não estivessem as Residências, com também a própria Casa do Tractor, muito mais próximas desse infeliz chorrilho de caixas e mais caixas (caixas em todo o lado, iguais a tantas outras, altas, mesmo altas, acompanhadas por longos muros, etc.) do que propriamente da aspiração fenomenológica tão cara à academia do Porto.
Se uma e outra obras se confundem com coisas que não se deviam parecer, isso dever-se-á sobretudo àquilo que nos limita: como saberá, fazemos apenas aquilo que podemos, poucas vezes aquilo que queremos, e raramente aquilo que realmente admiramos. E no entanto não posso deixar de referir que a haver falhas de monta nas Residências, essas não passarão por uma deficiente leitura de determinada realidade. Confessa-se: essa leitura nunca existiu, sendo que a intencionalidade do projecto passa exactamente pelo desejo de uma outra realidade.
Essa confusão tem uma explicação simples, sobretudo acreditando (e acreditamos) que a formação de JMP é feita na FAUP, cuja origem é exactamente a estrutura conceptual que lhe dá origem, à Escola, tal como hoje (hoje talvez já não) a conhecemos.
Aliás, essa explicação coincide também com o segundo argumento que poderá eventualmente sustentar esse tal desligamento do a.s* em relação à Escola do Porto e que tem a ver exactamente com um factor absolutamente decisivo para o seu percurso académico e pedagógico, com consequências nas várias gerações que aí se foram formando.
Para melhor o demonstrar peço emprestadas essas frases de Alexandre Alves Costa publicadas n’Os Textos Datados (mais precisamente no texto Considerações sobre o Ensino da Arquitectura), por sua vez citadas de Siza, onde, algures em 1980, se afirma:
“(…) propor a formação do arquitecto a partir de síntese plásticas, apoiadas na informação das ciências humanas e exactas lhe confere, é por demais distante da experiência pedagógica acumulada nos últimos anos de funcionamento do Curso (da FAUP), e por isso inaceitável”, para logo a seguir se poder ler “a ideia central das Bases Gerais (da metodologia de ensino da Escola do Porto) em funcionamento consiste na consciência da autonomia disciplinar da arquitectura”, concluindo-se, um pouco mais à frente ser “o núcleo de instrumentos metodológicos disciplinares (entenda-se: o desenho; o desenho e a cultura de atelier) que é necessário entender e aprender”.Dispensando-nos de qualquer consideração política que se possa (e pode) extrapolar destas palavras defendidas no inicio da década de 80 por toda essa geração que foi (ainda é) influente na Escola do Porto (e também em Coimbra, sua filha, e em Guimarães, sua afilhada) dir-se-ia que estas curtas frases estão na sua origem; sendo as consequências dessa acto (re)inaugural aquilo que tem vindo a caracterizar esse lado mais visível (a tal forma) pela qual achamos adivinhar esse produto arquitectónico da Escola do Porto.
Quer isto dizer que, pelo menos a partir da década de 80, a acção pedagógica do Porto investe toda a sua energia na autonomia do projecto de arquitectura, caminhando para uma crescente aproximação ao modelo de funcionamento do atelier (que, no Porto, é também ele influenciado por essa forma de pensar).
Não havendo espaço, nem tempo, muito menos vontade de exercer por ora qualquer tipo de reflexão crítica sobre tal modelo de ensino de arquitectura; não podemos no entanto deixar de referir que a nossa formação (comum) se baseia numa absoluta concentração no exercício dos instrumentos operativos, directos, do projecto; cuja validação não pode por isso deixar de dispensar a observância do desenho (entendendo aqui o desenho como forma decisiva e fundamental de projecto).
Nesse sentido, sair da Escola do Porto entre o final da década de 80 e os anos 90 (coisa que abarca muitas das gerações que lá vão construído a arquitectura admirada em Portugal) equivale a crer, infalivelmente, que (a qualidade d)o desenho implica em absoluto a qualidade da arquitectura que por ele se faz. E mais: que a teoria simplesmente não existe.
Quando alguém referiu, lá nos comentários ao trompe-l’oeil, que há uma geração de ruptura na Escola do Porto (citando, se não me engano, os nomes de Nuno Grande, Pedro Gadanho ou, a-temporalmente, Nuno Portas) não se equivocou assim tanto. Só que quem o referiu se esqueceu de explicar que se essa ruptura existe, ela não se explica por um desejo, por uma ambição, ou por qualquer tipo de atitude revolucionário dos seus agentes (até por ser algo tautológico querer fazer uma revolução numa Escola cuja origem do pensamento é, por definição politica, revolucionária), mas simplesmente por serem os seus protagonistas exemplos de autores cujo teor disciplinar e as matérias de interesse serem inequivocamente e sem qualquer tipo de excepção mais abrangentes (não necessariamente mais profundas, apenas mais abrangentes) do que as matérias a que a FAUP se decide dedicar.
Não vale então a pena falar de rupturas, mas de simples desencontros. E se quiser nomear um exemplo, poderia usar o nome de Jacinto Rodrigues, cuja teor da sua formação e sua especificidade cultural em muito o limitaram na produção de outros sentidos dentro da academia em que ensinou.
Assim, aquilo que JMP refere como crise existencialista de alguns arquitectos ilhéus e lisboetas que foram para a Escol(inh)a do Porto, mas cuja “doutrina” passaram a recusar e a odiar (sic) resume-se a um simples fenómeno, muito comum até, que resulta da natural abertura social, politica e cultural que tivemos o privilégio de acompanhar; que (nos) fez divergir de interesses; tornando-nos eventualmente menos capazes do exercício puro do desenho (que vamos desprezando por vezes, valorizando outras), mas certamente mais abertos – ou pelo menos mais curiosos – em relação ao resto das coisas.
Se há de facto alguma coisa que me faz certamente impressão naquilo que JMP chama de Escola do Porto (que não pode ser assim chamada) é exactamente essa falta de curiosidade pelo outro, e por outras coisas. É essa ortodoxia que faz com que ser de Lisboa ou das ilhas seja confundido como uma ameaça à suposta integridade de uma ideia de arquitectura cuja fragilidade é, sempre foi, imensa; e cuja origem da crise passe pela divergência entre a sua ideia de disciplina (contida, certa, inequívoca) e a cada vez mais abrangente cultura disciplinar.
Nota-se que não há nada de especialmente negativo em decretar (a tese, entenda-se, não é minha) a falência da Escola do Porto enquanto modelo de ensino (porque enquanto morada irá com certeza continuar a ser uma das melhores escolas de arquitectura nacionais). Na verdade não temos conhecimento de escola alguma de arquitectura que tenha condições de afirmar a eficácia da sua excepcionalidade por muito mais do que um bom punhado de anos. Simplesmente porque essa relevância, pontual, coincide quase sempre com um determinado momento de excepcional felicidade, em que se conjugam pessoas, professores e alunos, ideias, em condições únicas e irrepetíveis.
O eventual erro do Porto – como o está a ser o erro da AA, e como o foram os erros de todas essas escolas italianas – é querer eternizar paradigmas, relegando para segundo plano esse conjunto de fenómenos que mais cedo ou mais tarde se irão demonstrar da maior relevância para o desempenho das funções de uma academia.
Isso é, aliás, uma condição para qualquer actividade, quer seja uma escola de arquitectura ou um atelier.
Algumas considerações finais: o facto de falar do trabalho de um atelier com 17 anos é particularmente irrelevante. Poderia ter apenas 17 meses, como 5 décadas. Aquilo que nos interessa por aqui é o trabalho de arquitectura. Procurei, enfim, não ser leviano; apresentando argumentos que não tem qualquer tipo de objectivo que não procurar compreender aquilo que tinha perante mim (neste caso a Vodafone); e – facto de não de somenos importância - partilha-lo.
Nota final: o que é caricatural nas coberturas das piscinas da Povoação não é propriamente o desígnio de continuidade com a natureza verdejante que circunda o edifício. Pese embora a tentativa de contextualização “paisagística” me ser de algum modo estranha, e a afastar (julgo) do uso de relva (ou lá o que era) na cobertura do Hotel de Lagos (cuja intenção, tipologia e funcionamento é totalmente diverso – ou pelo menos assim espero que seja entendido); aquilo que de facto o torna caricatural é que a “relva” usada na cobertura das piscinas não mais é, afinal, do que um daqueles tapetes artificiais; que mais cedo ou mais tarde (no Verão) irão continuar verdejante, independentemente do tom daquilo que o rodeia tomar a seu cargo.
Beyond vs. Behind
[a]portoguese school

Por falar no Habitar Portugal: anuncia-se, no Shrapnel, o lançamento do HP 06/08.
Arquivo reincidente
A propósito dos revivalismos de Gadanho fico para aqui a pensar o que é que afinal terá sobrado do post Post.Rotterdam cá por casa.
Post.Rotterdam, na nossa ingenuidade, parecia, na altura, uma hipotética plausibilidade do exercício das coisas sem a necessária verificação desses constrangimentos que afinal iriam perdurar; que, com o tempo , foram ficando mais velhos, e menos parecidos com a possibilidade de uma saída airosa.
Ainda assim, dela sobrou o suficiente para que não seja necessário dispensar o passado, que é a mesma coisa que dizer que não há nada a evitar no futuro.
Ficam registos de Architecture and City after the Tabula Rasa, que esteve na Biblioteca do Palácio de Cristal durante a Porto 2001. Não sei já bem quem será o autor das imagens. Há umas outras fotografias (muito melhores) do Sérgio Mah, se bem que sobreexpostas; que não deixam perceber muito bem o ambiente da mesma.
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