Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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dois mil e dez

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Ter obra há dez anos

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A Casa do Tractor, 1999, a.s* (foto Sérgio Mah)

Faz por estes dias uma década que (não) acabámos a nossa primeira obra: na época um editor qualquer recusou publicar A Casa do Tractor, com o argumento que a sua revista não publicava edifícios em obra. Pareceu-me, obviamente, uma resposta sensata.

Dez anos depois a Casa do Tractor abriga umas quantas galinhas. Está suja e desarrumada. Os tijolos tem verdete, e o betão escureceu. Está bem assim A Casa do Tractor.

Coisas sobre o fim do mês de Dezembro

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Aleluia, excerto de O Messias, 1741, Händel [imagem da partitura original via The Guardian, disponível na Brithish Library]

Dois textos

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Dois texto de Garcia Barba, do blog Islas y Territorio: o Talento, e Retaguarda Crítica. Para fechar o ano.

Arábico

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De certa forma a Casa das Artes constitui um momento relevante na história recente da arquitectura nacional, sobretudo se pensarmos no contexto disciplinar de então, muito mais próximo que estava de intentar as prolíficas manifestações cosmopolitas que iriam marcar a década de oitenta.
Aos de Lisboa, a cidade parecia-lhes, nessa época, o lugar mais próximo da Europa.
Taveira fazia as Olaias, e ganhava estatuto de promissor. Luís Cunha desistia definitivamente do modernismo, optando por aquilo que lhe parecia a verdade na história. Graça Dias estava de regresso à capital depois da sua experiência macaense com Manuel Vicente, para fazer parte dessa Idade da Prata que encheu durante um bom punhado de anos as noites do Frágil e as páginas dos jornais mundanos que despontavam aqui e ali. De Carrilho - um autor da geração de Souto de Moura -, com atelier montado desde 1977, não se lhe conhece qualquer obra antes dos anos 90, entregue que estaria ao ensino. Byrne andaria às voltas com a Pantera Cor-de-Rosa. Hestnes e Figueiredo andariam à procura, mais um que outro, do seu tom; enquanto Teotónio abrandava o ritmo, depois de ter feito as suas obras-primas.

Tirando o eterno Siza, os tempos eram de alguma confusão: se Lisboa parecia mais próxima de mergulhar a fundo no pós-modernismo diletante, num aparente desejo de um outro país, o Porto, esse, agarrava-se, com afinco, como num beco sem saída, a fundamentos mais dados à resistência do que à persuasão.
Nesse contexto, mais do que o Mercado de Braga - onde aparecem colunas inacabadas e pedras soltas - , é o Concurso da Casa das Artes que inaugura Souto de Moura como autor, abrindo um caminho até então pouco dado a especulações por terras lusas.

Se é verdade que herança da Casa das Artes só viria ganhar importância uma década depois, muito por contraponto aos desvarios pós-modernos lisboetas, sendo sobretudo digerida pelas gerações que a Escola do Porto ia pondo cá fora; Souto de Moura não se desviaria, senão já nos finais dos 90's, do seu próprio paradigma. Esse paradigma que, feliz ou infelizmente, se tornaria, anos depois, o maior dos lugares comuns pela qual a arquitectura portuguesa tem vindo a falecer.

Se é verdade que Souto de Moura se tornou num dos mais influentes autores em Portugal - procurando, é certo, livrar-se dos seus próprios fantasmas - , ganhando notoriedade e conquistando o seu espaço, não deixa de ser curioso constatar que a Casa das Artes (1981) foi o único concurso ganho nos seus quase 30 anos de carreira profissional; isto se excluirmos o projecto para o Hotel de Salzburgo (1987), cuja obra nunca viu a luz do dia.
E no entanto é a reboque desse projecto que Souto de Moura iria ganhar alguma visibilidade internacional, fazendo-o envolver-se com aqueles que seriam na altura os seus pares mais naturais - Herzog ou Chipperfield.
Embora a produção de Souto de Moura tenha desde então vindo a ser regularmente acompanhada pela crítica lá de fora, tornando-o num dos poucos autores portugueses recorrentemente citados fora-de-portas, certo é que por uma ou outra razão o autor não terá grangeado o mediatismo que lhe permitiria acompanhá-los, ao suíço e ao inglês, na desmultiplicação prolífica de obras um pouco por todo o mundo; fenómeno aliás semelhante ao que se passou com outros autores ditos periféricos, como por exemplo no caso do galego César Portela.

Aparentemente o final de 2009 vem acabar com tudo isso: o facto Souto de Moura ter ganho apenas um concurso (excluindo-se o tal de Salzburgo, claro). E de ser considerado um autor local, ou periférico.
Quem sabe, poderemos, um dia destes, dizer da Escola em Abu Dhabi o mesmo que acabámos de dizer da Casa das Artes: que ela constituiu um momento de viragem na arquitectura portuguesa; ajudando a (re)criar um autor.

Schulman

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Nota

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Edifício Montepio Geral, Porto, 1960, Agostinho Ricca [via o Guia de Arquitectura do Porto do Fio de Prumo]


Embora seja há muito objecto de atenção, só agora percebemos a nossa desatenção sobre o responsável por aquele edifício que lá vai ajudando quem sobe a Júlio Dinis: Agostinho Ricca.

Dos credos ecuménicos

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Centro de Congressos de Córdoba, 2002/..., OMA

Nuestra incapacidad para modernizar nuestro propio concepto de lo urbano nos ha
conducido a un terrible urbanismo loco, que aparece por todos lados, que nos rodea, con su mediocridad, con un simbolismo sostenible de la peor calaña, con un cinismo verde, una nulidad del espacio público que se ha convertido en un espacio de exclusión cada vez más radical. Nuestra agencia ha intentado escapar de todo esto. Por eso es por lo que hemos lanzado hace algún tiempo la idea de una arquitectura genérica, inspirada en Erasmo, Lutero y Calvino, asumiendo así nuestro calvinismo

Vivimos un urbanismo loco, entrevista a R. Koolhaas por Javier Mozas / Aurora Per, Babélia, 19 Dez. 09

Tendo em conta que uma das doutrinas básicas do calvinismo refere a caridade como o vínculo da perfeição, o risco de o cinismo poder vir a tornar-se, daqui a uns anos, o elemento pelo qual a arquitectura desta primeira década do Séc. XXI será reconhecida, começa a ganhar contornos de inevitabilidade.

Da realidade vista sobre um certo ângulo recto

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Foi publicada a convocatória à Bienal Ibero-Americana de Arquitectura, que decorrerá em Medellín, em Outubro próximo.
A delegação portuguesa é uma vez mais composta por Ana Tostões (Comité de Acessoria, com trabalho anterior para as Bienais de Madrid, México ou Chile) e Gonçalo Byrne (Júri Nacional para o Prémio de Arquitectura, repetindo dessa forma o papel desempenhado em Lima, em 2004), sendo a maior novidade a escolha de José Adrião (Delegado Nacional), a quem caberá a responsabilidade de seleccionar as 10 obras nacionais a serem expostas.

Tendo em conta a anterior história das representações nacionais na BIAU (ver aqui e, depois, ali), não se prevêem alterações significativas no modo como a arquitectura nacional tem vindo aí a ser representada.

Nota sobre a magnitude

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A possibilidade da terra tremer não deveria implicar necessariamente a sua transposição para o real

Vernacular Footnote

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Sandálias Bernard, 1949-1964, Bernard Rudofsky (via Artland)

Adenda à entrada anterior

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Adenda às entradas anteriores

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Não há qualquer tipo de dúvida em afirmar a superioridade do Insel Hobrich de Siza em relação ao Insel Hombrish de Siza. Não sendo um e outro obras maiores (só um milagre permitiria atingir, ao de leve, a elevada fasquia de Siza) há ainda assim, em ambos, aquele misto de ascetismo e de requinte clássicos que lhes garante o embrincado próprio da intemporalidade. Mais num do que noutro, é certo.

Insel Hombroich

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Museu Insel Hombroich, Düsserdorf, 2009, Álvaro Siza [Fotografias de Fernando Guerra]

Insel Hombroich

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Museu Insel Hombroich, Düsserdorf, 2009, Alvaro Siza [Fotografias de Duccio Malagamba]

Factos incontornáveis

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Casa Aalto, Muuratsalo, 1952, A. Aalto


O frio. Esse factor civilizacional.

Sobre o desejo da nidificação de cegonhas

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Alguém deixou, nas paredes do atelier, um recorte com uma entrevista. Quer dizer: não é bem uma entrevista. É mais uma daquelas páginas publicitarias travestida de notícia ou, neste caso, de entrevista. Daquelas. Que saem nos suplementos imobiliários.
Dizia: alguém a deixou na parede, ao recorte com a entrevista. O entrevistado: José Quintela, o arquitecto-chefe da Sonae, responsável por grande parte dos centros comerciais que populam um pouco por todo o lado. Nela, Quintela lá vai falando; dizendo-se orgulhoso do facto das casas de banho de um shopping por ele desenhado terem sido consideradas as melhores do mundo ou, ainda melhor, confessando a sua angustia por nunca ter conseguido construir uma cegonha de 40 metros na esquina de qualquer centro comercial.

Ocorre-me uma explicação para o facto da entrevista de Quintela estar lá pelas paredes do Atelier. Será certamente uma espécie de última reserva de auto-confiança: mesmo quando as coisas não correm bem e os projectos parecem um disparate, basta olhar para a parede para dar de caras com um tipo cuja obra será sempre bastante pior que a nossa. Rir de Quintela (como aliás já se fez por aqui) é uma forma, fácil, de exorcizar as nossas próprias limitações.
Pode ser que seja verdade: que a obra de Quintela seja bastante pior do que a nossa pior obra. Até porque, olhando para aquilo que Quintela faz, dificilmente acreditaríamos que a arquitectura fosse coisa considerada por este arquitecto.
O problema é que isso não é verdade. Trata-se, simplesmente de um fenómeno dado a antagonismos: Quintela nunca será minimamente considerado por nenhum autor nem por nenhum crítico de arquitectura, e vice-versa. Para estes o trabalho de Quintela nunca será catalogado como arquitectura, e sua obra nem sequer terá direito a ser apelidada enquanto tal. Por outro lado essa gente será apelidada, por Quintela, de diletante e inconsequente: gente pretenciosa, cujo pensamento ou a obra diverge do bem comum.
Não é que não possa concordar com esse eventual ponto de vista de Quintela, até porque se o diletantismo serve para alguma coisa, é exactamente para constatar que a maior parte daquilo que levamos o dia a pensar é inútil e inconsequente. Como o é a maior parte do trabalho feito por esses arquitectos que consideramos, independente de gostarmos ou não da sua obra.

O curioso no entanto é descobrir que afinal o pensamento de Quintela não está assim tão distante de qualquer outro arquitecto: afinal todos gostariam que a nossa obra - casa de banho ou outra coisa qualquer - fosse considerada a melhor do mundo. E cegonhas de 40 metros? Apresentem-me um arquitecto que não ambicione fazer, por uma vez na vida que seja, uma cegonha com 40 metros? De altura?
Concluo: Quintela somos nós. Todos.

Dos fraudes da década.

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Sabendo que estas listas que por aí se vão publicando são, no fundo, disparatadas, confesso alguma agonia em constatar que o único arquitecto considerado pela Times, na década que passou, foi Hadid. Mas lá vamos ficando mais descansado quando, logo abaixo, lemos o nome de Madoff.

A Barriga do Arquitecto

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Claudia Schiffer, Nov. 2008 [Vogue], amorosamente fotografada por Erwin Wurm [segundo o sugerido por jac]

O resultado é, por isso, tanto mais confrangedor quanto mais se procura revestir de realismo. Evidentemente.

Dir-se-ia no entanto que a explicação é simples: é como um homem que decide casar e anda à procura da mulher mais bonita de todas. É um esteta, sacrifica tudo à beleza e depois os edifícios ficam todos lindíssimos mas é como almoçar com a Cláudia Schiffer. É bonita e pronto.

Adenda à entrada anterior

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Pergunto-me: qual o exacto momento em que um autor toma consciência que à ambição da sua obra se interpõe, como que incomodamente, a sua própria. Ou antes: se esse momento chega a tempo de poder ser redimido, e não o fazer refém desse pequeno mas ainda assim acusativo erro, que é o de esquecer que o mundo continua a existir. Como se nada fosse.

Da tendência para a reclinação e o seu desejo

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Por causa do que aqui foi escrito, temos vindo a ser regularmente visitados por leitores d'Os Cidadãos por Abrantes; um blog inteiramente dedicado a contrariar a Câmara de Abrantes no que diz respeito à decisão que tomou em encomendar a Carrilho da Graça o projecto para o Museu Ibérico.

Sendo claro, razoável até, o objectivo do Cidadãos por Abrantes - sustentado na ilegitimidade da adjudicação directa do projecto a Carrilho , e cuja saída legal terá sido a criação, em data posterior ao projecto, de uma Fundação que permitisse escapar aos contrangimentos próprios da encomenda pública -, o Blog sofre no entanto dessa ingenuidade que habitualmente rodeia este tipo de movimentos populares. Ali se vão esgrimindo argumentos escatológicos, com mais ou com menos apuro técnico, sobre o projecto de Carrilho, ao mesmo tempo que se permitem especulações pessoais e revelações sobre relações menos claras entre os vários envolvidos no processo, não se dispensando, aqui e ali, o delicado exercício da maledicência, facilitada que está a escrita pelo confortável e sempre errado anonimato que vai dispensando os seus autores de outros aborrecimentos.























Museu Ibérico, Abrantes, Carrilho da Graça, 2009 (imagem via Circo Natureza)

Não se sabendo ao certo o verdadeiro leitmotiv d'Os Cidadãos por Abrantes, uma coisa é certa: aquilo que dá pretexto ao seu esforço - dos seus autores e dos muitos outros bloggers que vão sendo ali citados por defenderem o fim do projecto do Museu tal como ele é hoje - revela-se, afinal, uma questão de gosto; facto esse que em muito vai explicando os recorrentes epítetos com que o edifício tendo vindo a ser nomeado: Pedregulho, Mamarracho, Caixote Horrendo, Bunquer Faraónico, Mastadonte, e todas os já habitais impropérios de cada vez que aparece alguém a propôr um projecto para um edifício com mais de três andares e com um aspecto mais ou menos esquisito. O problema de toda esta gente não é tanto a qualidade da proposta de Carrilho, mas a interpretação que dela fazem, nomeadamente do seu suposto impacto da paisagem.
Não é que seja de facto exigivel a um comum cidadão ter noções, por mínimas que sejam, daquilo que subjaz à ideia de paisagem; nem mesmo a capacidade de interpretar as ideias subjacentes a uma proposta arquitectónica. E no entanto, sendo embora um lugar comum, não deixa de ser estranho que a capacidade crítica em relação a um projecto se revele inexistente para tudo o resto; neste caso Abrantes e tudo aquilo que por lá tem sido feito nos últimos anos.
Evidentemente que as manifestações procuram um objecto simbólico; mas ainda assim seria expectável que estes movimentos de cidadania operassem sobretudo sobre o quotidiano, e não sobre um edifício que, pela sua própria natureza, será sempre uma excepção.

Do lado oposto os apoios são de peso: Pinto Ribeiro, ex-ministro da cultura, considerando-o um projecto de interesse nacional, e a Câmara Municipal de Abrantes - que, já agora, pretende que seja o mesmo arquitecto a desenhar as suas novas instalações - sublinha o nível internacional da equipa liderada por Carrilho; sem explicar porque razão é que a dispensou, a essa suposta equipa de nivel internacional, de trocar argumentos com seus pares num concurso aberto.

Evidentemente o que está em causa para a Câmara Municipal de Abrantes não é o projecto do Museu, mas antes ter - vá lá saber-se por que razão - um (dois, a contar com o edifício da Câmara) projecto(s) de Carrilho. E Carrilho, como qualquer outro arquitecto, serve-se desse pretexto para lá ir fazendo aquilo que quer, que pode ou que gosta.






















Museu Ibérico, Abrantes, Carrilho da Graça, 2009 (imagem de Luís Morgado)

E no entanto não há muito ainda a dizer sobre a suposta genialidade do projecto de Carrilho. Trata-se basicamente de um museu em altura - modelo já experimentado, não sem pontual sucesso, mas que condiciona fortemente a sua estrutura funcional -, cuja única explicação se deve - julgo - à ambição de alterar o skyline da cidade, criando-lhe um landmark que servirá principalmente o ego dos seus instigadores, mais do que os habitantes de Abrantes.
A maqueta é relativamente esclarecedora acerca do ortodoxismo da proposta, cujo maior interesse reside num vazio central que percorre os vários pisos do edifício. Resta saber se o generoso Edil viabilizará tal solução, que aparentemente colide com o cada vez mais apertado pacote legislativo que por aí anda.
Aparentemente o projecto pouco acrescenta à obra de Carrilho, apontado que está, cada vez mais, à contenção formal; dispensando-se, a proposta, de uma reflexão mais consequente e enriquecedora da natureza da sua própria arquitectura, como alías tem vindo a ser constante nos últimos projectos do autor, nomeadamente em Poitiers ou em Nancy - apenas para citar os franceses.

Se é verdade que os Cidadãos por Abrantes clamam, com legitimidade, a realização de um concurso público para o projecto do Museu de Abrantes, o curioso, aqui, é que a proposta de Carrilho tem grande probabilidade de ser o melhor projecto para Abrantes das últimas (largas) décadas. Facto esse que só vem confirmar alguma inépcia da cidade em se compreender a ela própria.

Da resistência ao enamoramento

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Printemps (também conhecido como Hino de Amor, ou Duo d'Amour), 1925, Ernesto Canto da Maia (original no Museu do Chiado, com reprodução pelo autor no Museu Carlos Machado)

Seria pura especulação afirmar que o projecto para o Museu Carlos Machado ficará afinal fechado numa gaveta qualquer da Direcção Regional de Cultura dos Açores, trancado pela sua ex-directora. Isto, claro, se fôssemos muito dados a especulações adminstrativas. Coisa que não somos.

Diz: colagem

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Curioso constatar que as obras, por dentro, são todas iguais.
Ou será por fora?

Nota sobre os desenganados

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Released, 1989, John de Andreas

Os arquitectos: não é assim tão evidente quem é que andam a tentar enganar: se às pessoas que lhes habitam as obras ou a eles próprios. É esse permanente estado de dúvida que os separa, em difinitivo, não sem alguma violência, da classe dos artistas. Esses, que há muito sabem qual é de facto o seu alvo principal.

Deitar fora o bébé com a água do banho

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Aparentemente tudo está já escrito sobre Le Corbusier: desde as múltiplas e extensas monografias críticas à análise minuciosa de cada uma das suas obras. Se é verdade que a maior parte da revisão crítica da sua vida e obra foi elaborada por confessos admiradores seus - facto esse que porventura explicará a pouca relavância dada por essas obras aos seus detractores mais directos (isso, claro, se excluirmos a resposta da arquitectura ela própria, nomeadamente as gentes dos últimos CIAM's, dos Team X e similares, ou um texto ou outro esparsamente publicados junto a revisões da obra de Corbusier, como aqueles - do Pallasmaa, julgo - que aparecem no número especial da Architecture d'Aujoud'Hui logo depois da morte de LC), julgo, ainda assim, que passados quase 50 anos da morte, seria mais que evidente que a relevância cultural de Le Corbusier vai muito para além daquilo que seriam as suas posições ideológicas, ou das tabulas rasas urbanas (Plano Voisin e etc.) que supostamente intentava. Uso o termo seria porque não tenho assim tanta certeza do vínculo do autor a tais radicalismos: LC é acima de tudo arquitecto, o que faz com que tenhamos de encarar Voisin como puro marketing ou, no máximo, como pura especulação narcisista; num ou noutro casos actos inócuos ou, pelo menos, inofensivos.

Se é verdade que a obra de Le Corbusier levanta(va) questões socialmente relevantes; facto é que não há hoje ninguém que não tenha consciência desse facto, e que não consiga separar essas (só) aparentes manifestações de radicalidade social de tudo o resto; que é aquilo que de facto é relevante em LC: a sua arquitectura.

Bem sei que com isso posso ser outra vez acusado de desprezar a teoria; separando-a da produção. E no entanto parece-me que o exercício teórico desligado da capacidade de entender aquilo que se tem em mãos equivale ao simples exercício diletante da ignorância. Como é o caso deste texto, absurdo, de Theodore Dalrymple.

Eyes wide shut

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No imediato, o problema que se me coloca é tentar, simultaneamente, entender a Nicole do Kubrick, que se vai despindo ali pela televisão, e a Esmeraldina do Benitez, que se vai despindo, menos, no Finotti.

Tendo em conta que o epílogo palavreado de Kidman é bastante mais assertivo, torna-se claro que a relação entre aquilo que vemos e aquilo que não vemos da Esmeraldina implica interpretações bem mais abrangentes. Facto esse que ainda assim não menoriza o Kubrick; até porque é nestas pequenas coisas que se consegue perceber a distância entre a probabilidade da arquitectura e a possibilidade do cinema.

Massad por Augé

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Era disto que Massad falava, quando falava na obrigação de mudar a forma das coisas: de Ordos, por exemplo. Alega Massad que a aceitação cega da cenoura (à frente do burro) equivaleria à própria destruição do significado da arquitectura - isto dito por mim.

Não se trata obviamente de um problema de consciência, até porque seria uma hipocrisia pensar-se em alguém que tem como única ambição fazer arquitectura fosse capaz de desprezar uma encomenda como a de Ordos - e aqui a minha posição é de que não há nenhum trabalho que mereça a recusa. E no entanto a questão não reside tanto na recusa ou no seu contrário, mas antes na capacidade em agir criticamente sobre ela. Ou seja: ser capaz de inverter as regras do jogo.

O problema aqui é que não acredito que alguém tenha já vontade de mudar qualquer tipo de regras.

Doctor Pangloss

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Ao contrário da previsível concentração disciplinar da próxima Biennale, Lisboa parece apostada na variabilidade. Isto, claro, se concordámos com a ideia que Gordon Matta-Clark não era de facto arquitecto; facto nem sempre evidente.

Portugal fora de Portugal

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Central Dallas Community Development Corporation (Central Dallas CDC) announced today that it has selected the architectural firms MOOV and Atelier Data as the design architects for the Re:Vision Dallas project, which will turn a parking lot immediately south of Dallas City Hall into the first truly sustainable city block in the world. MOOV and Atelier Data, both located in Lisbon, Portugal, jointly submitted the Forwarding Dallas proposal that was named one of the three winners of the Re:Vision Dallas international design competition last May.

A queda de um império

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Fai Chi Kei, Macau, Manuel Vicente

O Manuel Vicente de quem julgo saber rir-se-ia - julgo - de tudo isto. Piscaria os olhos, encolheria os ombros, para logo a seguir assumir aquele esgar que lhe é tão próprio - um misto de raiva, fina ironia e algum cinismo- e chamar-nos-ia, em voz alta, estúpidos. Estúpidos por nos preocuparmos com questões de somenos importância. Como se o fim das coisas não fizesse parte da ordem natural do mundo; diria. Logo a seguir explicaria que sim: que as coisas acabam, e que não há mal nenhum nisso; até porque tudo aquilo que interessa não existe propriamente à nossa volta, e ainda assim somos capazes de as convocar, às coisas que nos interessam, sempre que precisamos. Concluído-se, portanto, que o significado das coisas não passa pela sua existência, nem mesmo pela sua manutenção.
A nossa obrigação - diria Vicente - enquanto arquitectos seria preocuparmo-nos com as coisas que estão por fazer, e nunca com aquelas que estão feitas. Acusar-nos-ia, não sem alguma violência, de atentar revivalismos ocos. De sermos românticos; daqueles: decadentes, incapazes do desprendimento. E por fim falava das coisas que lhe eram significativas. Entre elas aquela frase do filme do Visconti onde se diz que tudo tem de mudar para as coisas ficarem mais ou menos na mesma. Da importância da história apenas de lhe ouviria um murmúrio longínquo, marcado pelo desprezo.

Teria, em tudo, razão, esse Manuel Vicente de quem julgo saber. Afinal todos os dias as coisas mudam. Destroem-se. E nada de basilar nos acontece.
E no entanto há coisas que nos serram ai meio. Podem ser apenas fruto do apego à nossa própria memória. Mas esses desassossegos são, ainda assim, aquilo que nos vincula ao outro. Que é o mesmo que dizer: a nós próprios.

Pode ser, por isso, que demolir o Fai Chi Kei seja pouco mais que uma irrelevância. No entanto aprendi, julgo que com esse Manuel Vicente de quem julgo saber, que não é por serem irrelevantes que os factos dispensam a nossa maior atenção.

Da simplicidade das questões

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Não é que Figueira não tenha razão. Tem. Sobretudo quando afirma que a coisa é rudemente pop, inconveniente. Ou que, na igreja, não há nada que se aproveite. Evidentemente.

No entanto, caso se mantenha este discurso de tentativa de desmontagem ideológica do projecto de Troufa Real, corre-se o risco de dar-lhe, a Troufa Real, um estatuto que ele não tem: o de autor.
Na verdade é Troufa Real quem ganha, sempre que se alimentar a polémica em torno do gosto; dando espaço à eterna exigência pela liberdade criativa.
Dever-se-ia antes tentar-se explicar que o exercício de criatividade implica o exercício da responsabilidade. E a responsabilidade de um arquitecto passa pela ambição em fazer um bom trabalho. Que no caso de Troufa Real nunca existiu. Sublinhe-se: não se trata aqui de uma questão de gosto, nem mesmo de ideologia ou de posicionamento estético. Mas antes de pura incompetência arquitectónica.

Da efemeridade da beleza e da fama

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Britney Spears, 2003, por James White, Esquire Nov. '03

Para quem estava à espera de uma espécie de Mike Tyson a puxar orelhas à dentada, a noite não foi propriamente espectacular .
Ainda assim Massad é criterioso na crítica que faz: não tanto ao starsystem mas sobretudo aos seus subprodutos que vão despontando como cogumelos aqui e ali. E isso é, na verdade, uma análise clara da produção arquitectónica na última década. Para lá dos lugares comuns - ainda assim uteis, sobretudo se pensarmos na composição da plateia- sobre a efemeridade da beleza e da fama que trespassa o discurso vagamente romântico e moralista de Massad, a pergunta, simples e directa, que o argentino lança não perde validade alguma: afinal esta arquitectura serve o quê?

No fundo Massad quer passar a ideia de que a instrumentalização da imagem não serve a arquitectura. Quer dizer: transfere o desejo, e torna-o em simples e banal objecto de trabalho da pornografia. O problema aqui é que a noite não terá sido suficientemente longa para percebermos qual será de facto a alternativa; isso se retirarmos as sugestões vagamente ecológicas ou neo-regionalistas - o típico erro dos românticos que me deixa arrepios na espinha- timidamente alinhavadas no seu discurso.

Bem sei que a responsabilidade da crítica pára nesse exacto momento em que a arquitectura começa. Embora Massad tenha procurado pôr o dedo na sua própria ferida, quando clama que as revistas devem assumir a sua quota-parte de culpa na desmoralização da arquitectura - ou seja, na transformação do objecto de desejo em pornografia -, ficou a ideia de não-retorno. Facto esse que nos torna a todos numa espécie de público-alvo da Hustler.

Always look on the bright side of life

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Why do we waste so much time trying to complete things that can't be realistically completed?


We like lists because we don't want to die: Entrevista a Umberto Eco, Susanne Beyer e Lothar Gorris, Spiegel, 11 Nov. '09

Dancing days

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Hollywood
Palladium, Los Angeles, 1940, Gordon B. Kaufmann [foto: Ralph Crane, 1946; via El Pais]

Adenda à entrada anterior

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E no entanto, nessa prática, reside de facto um problema, que se deve à aparente impossibilidade de se negar a procura do desejo.

Diga-se o que se disser: se as práticas artísticas se libertassem dessa inesgotável demanda do desejo, talvez fosse possível exercitar, com toda a lucidez, essa reflexão que tanto parece confundir aquela teoria que se diz - erradamente, já se vê - autónoma.
Face a isso, admito de facto a confusão: a ambição, desmesurada, em prol do desejo, implica a redução da capacidade de se ser lúcido. E no entanto é o potencial desse fenómeno que tem vindo a alimentar os melhores momentos da história da arquitectura. Pelo menos daquela que me consigo ir lembrando.

Cisão (a frio)

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Admitir que o distanciamento da prática possibilita uma mais profunda reflexão disciplinar implica, obviamente, a negação da própria arquitectura enquanto instrumento que estrutura o pensamento disciplinar.

O que é o mesmo que dizer: acreditar que a prática - e, com ela, quem a pratica - é incapaz de reflectir sobre determinado fenómeno é por si só um paradoxo. Também é um erro.

Nota (crítica)

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Sexta-Feira, dia 20: Fredy Massad em Lisboa.

Um lugar no mundo

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Homebody. The Wittgenstein House, 2003-2004, Paulo Mendes com a.s*; na foto: Schizolife systems, 2004, CAP, Coimbra (fonte: Paulo Mendes)

Na verdade foi Paulo Mendes quem trouxe, debaixo do braço, a ideia: fazer a chamada Casa Wittgeinstein. Que não: não é (só) da autoria de Wittgeinstein. Também não é a casa onde Wittgeinstein habitou: na verdade o filósofo era dado a ambientes bem menos modernos. E que dá pelo nome oficial de Casa Stonborough.

Tentámos primeiro faze-la à escala real. Parte dela: os salões e a tal entrada com as escadas. E aquelas outras escadas que dobram a meio. Tudo dentro da FIL. Desenhamos a coisa toda. Salas e Saletas. Degraus. Portas. Frisos. Até o puxador que vinha numa imagem publicada no livro que Paulo Mendes trazia, sempre, debaixo do outro braço.
Depois, como fazem todos os arquitectos falhados quando tudo falha, apostámos em fazê-la à escala 1:20. Toda. Mas em pequenino. A maquete deve andar por aí, num armazém qualquer.

Um dia destes ainda pego em Paulo Mendes, ponho-o debaixo do braço, e levo-o comigo a Viena, nem que seja só para confirmar se é verdadeira a tese que diz: a unica coisa que Wittgeinstein fez foi pegar no projecto original de Paul Engelmann, e alterar-lhe as proporções, na medida exacta da sua irmã Margarethe - que chegou a ser retratado por Klimt -: dizia-se, era um bocadinho - um bocadinho apenas - mais pequena que o normal. Como à maquete.

As coisas já foram melhores

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É no mínimo curioso constatar que desta mão cheia de filmes, os dispensáveis são exactamente os mais recente. Pode ser que Of Time and the City seja uma boa surpresa - assim o espero; mas o que é certo é que se vai notando um certo declínio à medida que o tempo passa. E olhem que isso não é só um fenómeno cinematográfico. Digo eu: um optimista convicto.

Fachadas lisas e mulheres

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Pode até ser coincidência, mas a única fotografia em que Mies aparece acompanhado por uma mulher que não a Lilly Reich é também a única fotografia em que Mies mostra um emotivo e rasgado sorriso. Riso.

A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica

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Guggenheim, Las Vegas, 2001, OMA

Facto

em meados do mês passado, Salgado adiantou que, afinal, o número de processos desses [2] autores somava perto de 1200 no triénio em causa.
Explicação n.º 1
Temos muitos processos porque somos jovens e modestos e fazemos de tudo [...]
Pergunta
E o facto de o seu pai ter trabalhado no Urbanismo da câmara até há cinco anos e ter lá familiares não lhe facilita a angariação de clientes e a aprovação dos projectos?
Explicação n.º 2
De modo algum, basta ver as propostas de indeferimento que existem em muitos dos nossos projectos [...]
Conclusão
[...] até há três anos assinava muitos projectos de restaurantes e bares [...] que eram feitos por técnicos da CML que não os podiam assinar
Acção
[...] todos têm direito ao bom-nome.

Ps

Não é totalmente esclarecedora a notícia do público em relação à posição da Ordem dos Arquitectos sobre este assunto. Uma coisa é certa: nem todos têm direito ao bom-nome; sob pena de o bom-nome ir de encontro àquilo que são as regras deontológicas de qualquer cidadão.
Ou então a coisa pode ser vista de outro ângulo: fazer um projecto de 3 em 3 dias - isto se aceitarmos como verdadeiro o tal número de projectos [500] dado como certo pelo Público - equivale a uma invejável eficácia produtiva. Afinal tinha razão o Walter Benjamin.

Prima Donna

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Teatro del Mondo, 1979, Aldo Rossi

Ia para dizer que desde 1986 - o último ano em que Rossi coordenou Veneza - não se via nada assim: entregar da Biennale a um arquitecto. Ia dizer, mas não digo. Até porque, ou muito me engano ou o lugar ocupado por Rossi se deveu, na altura, muito mais ao que ele dizia (escrevia), do que àquilo que fazia; mesmo que fosse mais ou menos nessa época (mais precisamente em '79) que Rossi tivesse construído a sua obra maior. O mesmo aconteceu com Gregotti,e também, de uma outra forma, com Portoghesi - e deixo propositadamente Fuksas de fora. Parece que Veneza esteve sempre mais interessada na moldura do que no quadro. Quer dizer: na escolha dos quadros pelas molduras disponíveis lá por casa.

Nesse sentido, dir-se-ia: temos uma estreia absoluta: um arquitecto que não escreve. Daqueles que fazem casas e tudo. A ver.


ps. Para regozijo de quem cultiva distinções de géneros: uma dupla estreia, já se vê.

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Enfim. Retiro o que disse.

Manguito do Mangado

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Museu de Arqueologia de Alava, Victória, Francisco Mangado, 2009 (via Archdaily)

Um equívoco. Admito. Mas para mim a obra de Mangado fazia parte daquele grupo de projectos onde incluo, entre outros, (edifícios de) autores como Moneo ou Byrne. Não é que este grupo qualifique algo. Não se trata sequer de um medidor que possibilite equiparências. Não. É antes uma daquelas arrumações mentais, sempre levianas mas ainda assim confortáveis, que nos permitem engavetar modos ou sensibilidades.

Neste caso Mangado lá ia ficando esquecido nesse tal armário dos tipos que fazem coisas grandes, amorfas, arrastadas, menos elegantes, garantindo no entanto um ar qualquer, uma parecença - nebulosa, já se vê - com alguma coisa. Se necessário fosse ilustrar, assim de repente, aquilo que o define, ao grupo, talvez pudéssemos relembrar a embaraçosa Faculdade de Informática e Electrotécnia da Universidade de Coimbra, com suas longínquas e ingénuas citações a obras de outra craveira. Mas isso seria algo injusto, até porque a maior parte das obras ou dos autores que cabem nesse armário são competentes.

Bom: tudo isto estaria pacificamente catalogado nesta minha estante preconceituosa, não fosse Mangado dar a volta ao texto, e andar para aí a mostrar (belas) imagens do Museu de Arqueologia de Alava.

Chama-se a isto engolir sapos. E não é que os sapos afinal não sabem assim tão mal?

North by Northwest

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Vandamm House [MGM: Boyle, Hornign, Pye, Grace, McKelvey], North By Northwest, A. Hitchcock, 1959

Das três razões que nos prendem ao sofá sempre que passa o North by Northwest, a mais racional deve-se àquela casa do Monte Rushmore. Desconfiavamos, claro, que a casa não ficava propriamente no Monte Rushmore; mas isso seria, quanto muito, um incómodo menor, face à curiosidade de saber a origem da coisa.
Descubro agora que a casa é falsa. quer dizer: nunca existiu realmente. Ou antes: nunca ninguém a habitou. Facto este que só confirma a suas qualidades arquitectónicas.

O que os edifícios provocam

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E não é só por ter construído pouco que a sua obra constutui uma raridade, mas pela extraordinária comoção que os seus edifícios provocam.

A morte de um arquitecto hiper-realista (obituário a Paulo Gouveia), Ana Vaz Milheiros, Público, 7 Nov. '09

Descuido crítico

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5 Áfricas 5 Escolas; representação nacional na Bienal de S. Paulo, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Br.; 2009 [via DG Artes]

Estava para aqui a pensar por que razão é que ainda não li nenhuma crítica oficial às 5 Áfricas 5 Escolas. Mas logo percebi que todos os críticos de serviço estão de uma ou outra forma ligados ao projecto de Graça Dias.
Ora aqui está uma maneira fácil de acabar de vez com a crítica: vertê-la em arquitectura.

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Por outro lado não posso deixar de pensar na acusação, curiosa, que me fizeram num desses Verões que nos vão salvando: a de que desprezava a Teoria. Não é que a autora de tão precioso mimo tivesse precisado com suficiente exactidão o significado de Teoria. Mas não me pareceu, durante um momento sequer, que se estivesse a falar realmente de arquitectura.

Petit Cabanon

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Da série I Konw Where the Summer Goes, Ryan McGinley, 2007.

O Verão é que nos vai salvando: dizem-me simpaticamente. Verdade: o Verão é que nos salva. A nós e à teoria. E no entanto às vezes merecemos não ser salvos. Nem que seja por estarmos fartos. Do Verão.

1989

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Berlin: Hans Conrad Schumann em Bernauerstraße, 15 de Agosto de 1961; Peter Leibing (via Iconicphotos)

Não há especial grandeza estética nas imagens que Patrick Rotman nos oferece no seu Un mur à Berlin. Na sua maior parte são cenas filmadas por amadores. Um por câmaras de televisão daquelas que se usam nos noticiários. E no entanto, neste documentário residem das mais belas sequências humanas dos últimos 20 anos. Contrapostas que estão a algumas das mais trágicas sequências humanas do último século.

Princípios de Novembro

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Museu do Vinho, Pico, 1999, Paulo Gouveia

Nunca tive propriamente oportunidade de me cruzar com Paulo Gouveia. De lhe falar. Ou de lhe tentar dizer o como admirava as obras que lhe conheço. Se até agora isso era apenas uma condição, a partir de hoje a situação tornou-se irreversível. Facto que é demais lamentável.

Novembro não começa bem.

(ps: para o mensageiro, dir-se-ia não haver palavras para evitar o inevitável. Sad news indeed)

Beyond vs. Behind

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One Step Beyond, 1979, Madness (via Odp)

Assistia, com entusiasmo, à resenha do percurso de Pedro Gadanho, apresentada pelo próprio a um grupo de estudantes da Elisava: Post Rotterdam, Space Invaders e Pancho Guedes, intervalados pela Ellipse Foundation ou por aquela casa com ares de poder ser capa da Frame, finalizando com a Beyond. A propósito da variedade e variabilidade dos trabalhos que se nos deparavam, consciente da sua aparente heterodoxia, Gadanho avançou com a tese na qual o exercício do pensamento arquitectónico apenas poderá ser eficaz se distanciado da prática quotidiana de atelier. Quer dizer: a teoria da arquitectura só se torna uma evidência para aqueles que, como o autor, não se obrigam a passar os seus dias embrulhados nos normais constrangimentos de quem faz projecto. Sendo esse desfasamento que permite questionar a prática, e alterá-la.

Quando chegou a minha vez de falar, só pensava que se algum dia tivesse, como Gadanho, a minha própria revista de arquitectura em inglês, chamar-lhe-ia, certamente, Behind. Entenda-se: não seria propriamente uma revista de história - tema esse que para Gadanho, como para qualquer progressista - parece ser de somenos importância - mas uma coisa dedicada exactamente a explicar de que forma é que nos projectos de arquitectura se estabelece o significado da própria disciplina.

O mais curioso no entanto é o (aparente?) paradoxo: entre as coisas que Gadanho apresentou e os poucos projectos que explicámos, contabilizei seis trabalhos partilhados; todos eles pouco dados a discórdias.
O que me faz concluir que a forma das coisas não estará propriamente limitada aos seus conteúdos. Muito menos à forma de os comunicar.

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In Heaven. Everything is fine. Sem imagens. Claro.



Som da frente

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Pensar que as pessoas morrem no momento que deixam de respirar é um erro. Na verdade as pessoas, tal como as gerações, começam a morrer muito antes, quando as suas referências falecem.

Na verdade o termo geração nunca se refere apenas ao percurso de vida de um indivíduo, ou de todos os outros que partilham a sua idade. Não. Porque Geração implica sempre alguém a montante e alguém a jusante: aqueles com quem aprendemos, e aqueles que havemos de ensinar.

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Alguém insinua que a Escola de Hering pertence a essa mão (meio) cheia de obras excepcionais feitas nos últimos anos. Certamente que sim. Ou pelo menos gostaria que assim fosse.
Gostar por gostar: gostaria mais ainda de estar em condições de afirmar que a capacidade de invenção de Hering encontraria paralelismo em projectos cujos pressupostos de algum modo lhe são similares.

Por isso, gostar por gostar: gostaria de poder afirmar que nas nossas 5 Escolas 5 Áfricas encontraríamos razões para crer que a arquitectura portuguesa teria capacidade para ultrapassar os seus próprios dogmatismos, mostrando-se disponível para inventar uma outra coisa.
Gostar por gostar: gostaria então de estar em condições de afirmar que as respostas da comitiva portuguesa à Bienal de S. Paulo procuram estabelecer um outro grau de relacionamento entre aquilo que são as condições dos 5 países onde se intervém e o potencial que a arquitectura ainda detém, sendo capazes de criar modelos de excelência, que pudessem servir, de forma inteligente e criativa, os fins para que foram pensados.

Fazer escolas em países cuja escassez implica ainda grandes e graves limitações para aqueles que aí habitam equivale a um acto de extrema generosidade. Inegável. Mas tornar essas escolas em momentos especiais - como especial é a escola de Hering - equivaleria a assegurar que a educação implica muito mais do que ter um espaço para estudar. Simplesmente porque a importância da educação reside, em muito, no modo como o mundo nos é apresentado, mais ainda do que a maneiro como ele nos é explicado.

Amanhã iremos ter a oportunidade de ver cinco propostas para cinco escolas em África, pensadas por cinco autores portugueses.
Nelas vão estar presentes os fantasmas mais ou menos recentes da nossa própria arquitectura: caixas brancas, abstractas, assentes em muros contínuos; estruturas modernistas a lembrar, não sem algum romantismo ou ingenuidade, os anos de ouro da arquitectura ultramarina [aquela, que tão bem copiava os brasileiros, com grelhas, pilotis, e tudo o mais]; ou aproximações de tom regionalista, melhorando, com algum eruditismo, modelos e técnicas locais.

A pergunta que nos resta fazer: porque é que a generosidade de Hering é ainda caso único?

Muito com pouco

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Meti School, Radrapur [Bangladesh], Anna Hering e Eike Roswag, 2005


Ao contrário, no Sul, as regras são outras. As necessidades também. Como se não houvesse espaço nem tempo para outra coisa que não o assegurar da precariedade. Mas às vezes não é assim. Ou então é errada a ideia que nos diz que a precariedade não detém em si mesma a capacidade de superação.

Apontar para cima

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Não é concerteza por falta de vontade ou de empenho. Nem de jeito, entenda-se. Muito menos uma questão de não se gostar daquilo que se faz. Gosta-se, concerteza. E muito. Também não resulta de ignorância ou de desconhecimento.

O problema da arquitectura deve-se, demasiadas vezes, ao facto de, desde o princípio, se apontar para baixo. Para o baixo-ventre.

Sei, claro, de boxeurs que fizem longas carreiras a dar murros no estômago. Sobem para o ringue e logo se encostam ao adversário, socando-o sem levantar as mãos. Em socos curtos, com apuro de anos de treino. À espera que não aconteça nada de muito especial, e no fim a soma dos pontos do júri lhe permita, finalmente, fazer aquilo que até então tinha sido abafado pela razão: levantar as mãos. Genta há que vive toda a sua vida assim. Confortável com os pontos, levantando as mãos só no fim, depois de tudo se confirmar.



















Por outro lado pode até ser que apontar logo à cabeça tenha os seus riscos. Nem que seja por nos tornar demasiado expostos. Frágeis. Mas é que um bom soco é exactamente isso: levantar as mãos, apontar para cima, e bater com força. Com toda a força. A acreditar no K.O. Mesmo quando isso desiquilibre os momentos a seguir. E nos faça poder cair.
Pode ser, por isso, que a consequência seja a derrota. Uma derrota imensa. Sangrenta e dolorosa. Mas pelo menos as mãos não esperaram pelo fim: ergueram-se no momento certo. A apontar para cima.

Daí conclui-se: embora um adversário mais alto implique um risco maior, certo é que o facto de o termos à nossa frente amplia, em muito, a hipótes de apontar bem lá para cima. A lei aplicar-se igualmente ao boxe. Embora no boxe o adversário não seja propriamente uma invenção nossa.

Teoria da Arquitectura

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Claudia Schiffer, Campanha Dom Pérignon '95, Karl Lagerfeld

[Zumthor] é como um homem que decide casar e anda à procura da mulher mais bonita de todas. É um esteta, sacrifica tudo à beleza e depois os edifícios ficam todos lindíssimos mas é como almoçar com a Cláudia Schiffer. É bonita e pronto.

Eduardo Souto de Moura entrevistado por Laurinda Alves, i, 5 Out.'09

[agradecendo a informação a HN, um fervoroso adepto de Laurinda Alves]

Canavilhas

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Pode até não ser relevante para aquilo que se faça o sítio, qualquer que ele seja, onde se cresceu. Mas é óbvio que tudo isso se altera no momento em que o acaso implica que se cresça já não num sítio qualquer, mas antes nos Açores. É que os Açores não são um sítio qualquer. Na verdade não são sítio algum. São antes uma espécie de ideia.
Dessa forma crescer nos Açores implica de certa forma crescer numa ideia. Ora: tal facto tem, comprovadamente, sido relevante para aquilo que se faz. Ou nesta caso para aquilo que se irá fazer. Pelo menos assim se espera.

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