Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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Fim de Maio, ainda

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The Curved House, 1990, L. Bourgeois.

Caleidoscópio

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Bem sei: é díficil. Ou deve ser. Díficil: ser editor de arquitectura em Portugal. Mesmo assim não deixa de ser arduo o exercício de procurar compreender o que está por detrás desse extenso rol de duvidosas monografias de arquitectos portugueses que ultimamente vão enchendo os escaparates das livrarias.

Doutor Fausto duvidando

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Devolver la arquitectura a la gente. La arquitectura se queda en el lugar, pero también en la gente. Nos gustan los edificios ricos, sensuales, inspiradores: los que se quedan en la memoria. Nos interesa la arquitectura económica y hecha a medida, precisa: los edificios sastre.

Non nos interessan las borbujas. Queremos seguir dudando; entrevista a J. Herzog, por Anatxu Zbalbeascoa, El Pais, 2 Maio '10
Para além do paradoxal termo "arquitectura económica e feita à medida" usado por J. Herzog - sobretudo quando comparado com a última década de produção do seu atelier -, ficamos a saber que, para o Suiço, coisas que ficam na memória são afinal simples efeitos espaciais.
Não é fácil precisar o exacto momento em que Jacques trocou a ambição em fazer a melhor arquitectura pela ambição em ser o melhor arquitecto, substituindo o uso da imponderabilidade pelo consumo desenfreado desses efeitos espaciais, que as transformam - às suas obras - numa espécie de sucedâneos de George Lucas. Mas seria capaz de apostar que, por detrás desse falso olhar de quem afirma continuar a duvidar, se esconde alguém cansado de fingir que quer devolver a arquitectura às pessoas.

Dizia-me há dois ou três dias um desses jovem arquitecto ambiciosos que, desde o momento em que houvera assistido a uma palestra desse mesmo Herzog, cansado, repetindo vezes sem conta a sua autoridade de maior arquitecto do mundo, tinha decidido que a sua única ambição era exactamente renegar qualquer tipo de ambição que não fosse a de construir melhor arquitectura. Facto que é sinónimo de rasgar esse pacto assinado com Mefistófeles que todos temos guardado na mesa de cabeceira.

Dos instrumentos

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Tivéssemos nós de nomear o instrumento que a prática da arquitectura mais necessita, provavelmente era de ambição que falariamos.
Fazer arquitectura assenta na ambição. Desmesurada. Impraticável. Intransigente. Em tornar alguma coisa numa coisa única. Concordêmos: não haveria Brunelleschi sem ter havido ambição. Nem Bramante. Nem Alberti ou Della Porta. Michelangelo. Ou Palladio.
É nessa desmesura que porventura residirá a explicação de todo esse tempo gasto a pensar em inutilidades, quando a expectativa primeira em fazer-se um edifício reside exactamente na sua utilidade.
Sem sermos evidentemente capazes de pôr de parte o tempo gasto em todas essas inutilidades - nem que seja pela simples razão de ser esse mesmo tempo gasto em inutilidades o sustento das nossas acções, sem o qual nos sentiríamos ridículos ainda mais vezes do que aquelas que nos sentimos -, não deveríamos no entanto esquecer que a ambição não é transferível.
Quer dizer: se a ambição é o nosso mais poderoso instrumento de trabalho - aquele que um dia nos permitirá fazer coisas vagamente aparentadas com a Fiesole (isto só para não sair do quattrocento); ela não deveria extravazar essa simples condição oficinal.

Fim de Maio: o amigo americano

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Ripley's Game (fotograma), 1977, W. Wenders

North by Northwest

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a.s*: Aula Aberta, na FAUP, quinta, 27 de Maio, pelas 14:30; seguida de conferência na ESAD, dia 28 de Maio, pelas 17:30.

Parque Escolar

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Montessori (ah pois é...)

Hoje, que é dia 20 de Maio, se tempo houvesse, não era nada díficil levarem-me a rever Hertzberger, no LNEC, pelas 15:30.

Arquitectura & Não

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Estando para aqui metido com os meus botões, tinha por certo nem sequer pensar sobre o assunto. Não é que à partida o fenómeno não tivesse qualquer interesse. Tinha-o; nem que fosse por ser o único prémio que se dedica à crítica de arquitectura.

Só que a inercia é de algum modo mais fácil de cumprir do que o confronto com tamanha singularidade dos resultados desta primeira edição deste Prémio AICA de Crítica de Arte; pelo que a opção em me distrair com esses meu botões parecia-me decisão bem mais profícua do que perder tempo a tentar perceber as opções do Júri do referido prémio.

Ora: assim estava para aqui decidido a não largar os meus botões - sobretudo o undo - quando, lá no gmail, recebo orgulhosa comunicação, como que a pedir, enfim, que fizesse aquilo que estava decidido a não fazer: tentar perceber as opções do Júri do referido prémio. E tentei. Com esforço e algum afinco, não dispensando uma revisitação ao Paredes Meias (S. Araujo, P. Mesquita, 2009), e até uma breve incursão sobre esse livrinho chamado de Arquitectura & Não (N. Grande, Caleidóscopio, 2005). Tentei. E no fim: fiquei na mesma. Que dizer?: não cheguei a qualquer conclusão sobre o que passou pela cabeça de José Manuel Fernandes e Manuel Graça Dias em darem um prémio que supostamente premeia crítica de arquitectura a um documentário e a uma tese de doutoramento.

Não é que Graça Dias / José Manuel Fernandes deixem de ter razão: afinal até podemos concordar que Paredes Meias é "detentor da abertura, a acuidade e a riqueza de leituras, no quadro da arquitectura e urbanismo contemporâneos (... e também) as continuidades e rupturas que o trabalho tão bem ilustra, no tempo longo da concepção e construção de uma obra edificada com significativo impacte na cidade"; admitindo-se até a hipótese da utilidade, na referida obra pela "presença de múltiplos pontos de vista (...) bem como a pluralidade de discursos conducentes à possibilidade de formação de uma perspectiva crítica por parte do espectador; foi destacada, também, entre as restantes diversas qualidades, a grande coerência formal do objecto".
E no entanto a questão aqui é, simplesmente, estarmos perante um documentário, não uma construção crítica.

Se o documentário "possibilita a formação de uma perspectiva crítica por parte do espectador" isso só vem provar as virtudes de Paredes Meias enquanto obra documental; mas não explica em nada como é que a referida obra possa ser entendida como um exemplo de reflexão crítica em torno da arquitectura, muito menos no supostamente ambicioso patamar disciplinar que um Prémio de Crítica de Arte exige; que não passa tanto pelo espectador, mas exactamente pelo crítico. E interessa não esquecer que este prémio é dado por uma associação que se auto-denomina de Associação Internacional de Críticos de Arte

Quanto à menção honrosa dada à "dimensão, quantitativa e qualitativa, da (...) produção, variada e de múltiplo alcance, tanto de carácter histórico como teórico e crítico, na área da Arquitectura" por Nuno Grande, e sobretudo à "Dissertação (...) Arquitecturas da cultura: Política, debate, espaço/génese dos grandes equipamentos culturais da contemporaneidade portuguesa, uma obra de grande alcance crítico e analítico, no âmbito de uma possível leitura de uma Arquitectura oficial e de regime" parece que o Júri terá confundido a necessária amplitude, utilidade e função da crítica d'arquitectura com a investigação académica que, por definição, é pouco dada à especulação - dirigida, certeira, directas - própria da crítica.

De resto, acompanhado de facto a "dimensão quantitativa, variada, tanto de carácter histórico como teórico" por parte de Nuno Grande, não é com facilidade que lhe descubro a construção de um discurso que permita a todos aqueles que estão envolvidos na produção arquitectónica nacional ultrapassar os seus próprios paradigmas; sobretudo por N. Grande fugir sempre que pode de um registo que ultrapasse os limites do discurso institucional, o que de certa forma contraria a própria actividade a que, para lá dos meus botões, gosto de chamar de crítica de arquitectura. Mas isso sou eu, que gosto de estar para aqui com os meus botões. Sobretudo com o undo.

Reclamo (luminoso)

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Conferência de Olgiati (filho), em Lisboa: 14 de Maio, Lx Factory, pelas 19:00.
Organizada pelo Directório Arco.

Teotónio

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Franjinhas, Lisboa, 1967, N. Teotónio Pereira, J. Braula Reis

A Bienal de Arquitectura Ibero-americana de 2010 concedeu a Nuno Teotónio Pereira o prémio Trayectória. Coisa de evidente bom senso.

No Place Like: Portogallo

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A morte de Sardanapalus, 1828, E. Delacroix

Falso alarme. Afinal a representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2010 será composta por Ricardo Bak Gordon, Carrilho da Graça, Aires Mateus e Siza Vieira. A responsabilidade de tão inovadora escolha - sob o título No Place Like - é da responsabilidade dos comissários Julia Albani, José Mateus, Rita Palma e Delfim Sardo.
De referir ainda que a exposição central, comissariada por Sejima, contará com a participação de Aires Mateus.

Não pondo em causa a qualidade dos trabalhos e dos respectivos autores envolvidos, pensa-se que a representação portuguesa é insensata, e totalmente inútil. As razões (para quem tiver paciência): aqui, e depois ali.
Mais: julga-se que a eternização dos referidos autores por este tipo de circuitos internacionais afasta qualquer hipótese de explorar a necessária heterodoxia e a disponibilidade da arquitectura nacional, já de si escassa em possibilidades. Facto esse que é sempre de lamentar.

Seria de esperar que a existência de um comissário externo à arquitectura - como o é Delfim Sardo -, e de um autor como José Mateus - que entre outras coisas, foi co-responsável por um dos mais estimulantes momentos da arquitectura em Portugal na década que passou - à frente do Pavilhão Português, permitisse uma outra forma de interpretar a criação nacional. Qualquer uma que não envolvesse a facilidade, pelo menos.

Afinal de contas sempre é verdade: Deus é Brasileiro

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Espaço Público no Cacém, 2008, Risco















Estação Biologica do Garducho, 2008, Ventura Trindade












Arquivo Municipal de Loures, 2008, Fernando Martins e João Santa Rita


No fim de contas serão estas as (três) obras a representarem Portugal na VII Bienal Ibero-Americana de Arquitectura; já que a Fundação Ibere Camargo aparece, não sem algum mistério, na selecção de obras brasileiras.
Embora se possa afirmar que qualquer uma dessas obras portuguesas não aparenta representar aquilo que de mais interessante se passou no último biénio por terras lusas, não haverá de facto nada a apontar à aparente coerência do júri na escolha dos projectos nacionais, subjugado que estava ao tema "Arquitectura para la Integracíon Ciudadana" e à selecção prévia de José Adrião.

Quanto à confusa escolha do projecto brasileiro Ibere Camargo, exija-se (em troca) a nacionalização imediata do Niemeyer e do Lúcio Costa, do Tom Jobim e Vinicius de Moraes, de Buarque (o músico e o escritor), do Artigas e do Nelson Piquet, da Bruna Lombardi, do Ronaldinho Gaucho e também do Zico, Falcão e companhia, do Machado de Assis e da Clarice Lispector e da Gisele Bundchen. Autorgamo-nos também o direito de reservarmos para nosso melhor uso o Burle Marx e o Olavo Bilac, o Calçadão e Ipanema, a Ópera de Manaus e Brasília (dispensando a periferia, evidentemente), co Paulo Mendes da Rocha (até aos anos 90) e aquela italiana que fez o SESC de Pompeia e o Museu de São Paulo, a Carla Bruni (não é brasileira mas bem que podia ser), Curitiba e o calor.

E mesmo assim ficámos a perder.


ps. Só não percebemos uma coisa: sabendo que as obras que representam cada um dos países na BIAU deveria ser proposta pelo seu autor, parece algo nebuloso Siza ter concorrido com a camisola canarinha.

O sabor das cerejas

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Pode apenas ser um equivoco. Fruto de uma qualquer estrapolação sem sentido. Mas é que, tendo estado nos últimos dias a fazer uma incursão sobre sobre propostas, projectos ou ideias de autores nacionais dos últimos dez anos, fica a nítida sensação que há uma maior disponibilidade por parte dos arquitectos portugueses em ensaiar soluções - digamos - mais libertinas quando experimentam em contextos fora de Portugal.

Poder-se-ia concluir da existência de auto-censura, exercida de forma totalmente consciente, na formulação de projectos para concursos em Portugal; fenómeno esse explicável pela eventual descrença generalizada nos júris nacionais. O que ninguém vai pensando é que são esses mesmos júris que vão ajudando a escrever esta nossa mui conservadora história da arquitectura recente em Portugal.
Espera-se então, no mínimo, que esses autores que arriscam lá por fora mundos e fundos não se escapem ao exercício da coerencia, de cada vez que são chamados a assumir o papel de quem escolhe o futuro da nossa arquitectura.

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