Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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As coisas não são o que parecem que são

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Francisco Castro Rodrigues e o Plano para a Cidade do Lobito (fonte: Ana Vaz Milheiro: as coisas não são o que parecem que são; opúsculo 15; dafne)

De algum modo poderia premiar-se a obra do "desconhecido" Francisco Castro Rodrigues; se fosse de facto a obra de Castro Rodrigues a estar na base da decisão do Júri da "Associação Internacional dos Críticos de Arte".
De algum modo haveria pertinencia em confirmar a "grande relevância cultural da cena portuguesa" (sic) do autor; se fosse de facto essa a preocupação da dupla Manuel Graça Dias e Ana Vaz Milheiro.
De algum modo teria sido útil para Francisco Castro Rodrigues receber um prémio de arquitectura pela sua obra; se esse prémio fosse dado há meio século atrás.
De algum modo teria valido a pena existir um prémio Aica de Arquitetura; se fosse de facto real a existência de uma "associação internacional" que - como o nome indica - associasse mais do que dois críticos.

Mas não: nem é a obra de Castro Rodrigues que está na base da decisão do Júri da "Associação Internacional dos Críticos de Arte"; nem é a "grande relevância cultural da cena portuguesa" do autor que parece ser a preocupação principal da dupla Manuel Graça Dias e Ana Vaz Milheiro; nem o prémio foi dado meio século atrás; nem o Júri do AICA se compõe por mais ninguém do que os mesmos críticos que no ano passado premiaram um arquitecto morto.

Não é, entenda-se, a qualidade da obra de Castro Rodrigues que estará em causa (afinal pouco gente a conhecerá), mas sobretudo a utilidade de um prémio.

Ressalve-se no entanto a coerência de Ana Vaz Milheiro que, aliás, virá legitimar a sua busca pela história da arquitectura moderna em terras d'África. Afinal não foi nem uma nem duas vezes que lhe ouvimos a afirmação sobre o seu recente e exclusivo interesse por arquitectos mortos. É pena.

Para o ano, propomos ao Júri da AICA avaliar a possibilidade de nomear Ventura Terra, ou Cassiano Branco, ou Vitor Figueiredo, ou Raul Lino, ou Fernado Távora, ou Conceição Silva. Ou então a própria AICA; pela sua "grande relevância cultural na cena portuguesa".

É isto

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Não é?

Arquitectura ou Público

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Para lá da relevância do levantamento que Gadanho se propõe fazer no seu Arquitectura em Público: 15 anos de expansão mediática nas páginas de um jornal português (Colecção Equações de Arquitectura, Dafne, Porto, 2010; a partir da sua própria Tese de Doutoramento) - que, de forma sistemática e rigorosa, percorre o processo de generalização da arquitectura levado a cabo pelo Público entre 1991 e 2005 - o case-study torna evidente o paralelismo entre a discussão da arquitectura para lá daquilo que é a sua habitual zona de conforto e a crescente presença desta na sociedade portuguesa; mesmo quando o discurso não coincide exactamente com as pretensões ou preposições que são próprias à disciplina.

Gadanho diz isso mesmo, quando refere que "a hipótese de este acesso (aos media) garantir a construção de uma nova representatividade – e legitimidade – social da produção arquitectónica no âmbito do quotidiano", apontando-lhe no entanto o reverso da medalha: "o enfoque passa aqui a ser o acesso da arquitectura à construção da esfera pública e o modo como esse acesso gera uma sujeição ao escrutínio que, eventualmente, perturba a autonomia da arquitectura".

Dessa forma, como aliás em qualquer outra situação de mediatização, os eventuais ganhos resultantes da exposição pública resultam numa espécie de obrigação de manutenção de uma imagem consistente e coerente com aquela que foi sendo construída por essa via; resultando evidentemente todo esse processo numa aparente redução da complexidade própria do fenómeno arquitectónico. Gadanho di-lo de outra forma: "mesmo que a sociedade conte ainda com o reduto da opinião do especialista, a opinião em termos mais gerais foi, de facto, reconstruída como o adversário público e social do discurso especializado; quer isto dizer; houve um aparente fenómeno em que os media especializados foram sendo substituidos pelos media generalista".

Não sendo exactamente assim - até porque essa redução será, por princípio, apenas aparente; jogando o próprio jogo mediático, numa estratégia de sobrevivência nesse outro mundo já tão distante da cultura própria dos arquitectos -, certo é que esse fenómeno irá trazer mudanças evidentes na forma com que a disciplina se comunica e, por tal (que o digam os semiologistas), alterações na própria forma de a pensar, à arquitectura. Para o exemplificar, bastaria olhar para o fenómeno Bjarke Ingels, não apenas do ponto de vista do autor - preocupado em montar uma estratégioa de marketing -, mas também do ponto de vista dos clientes - que passam a entender um discurso construido à sua medida - e, mais surpreendente ainda, a própria cultura disciplinar - que sofre evidentes alterações, reduzindo-se às normativas do discurso criado.


Arquitectura em Público fica-se pelo território nacional, inclusivamente num tempo anterior ao aparecimento dos BIG; embora o próprio autor desenvolva algumas considerações sobre esse processo, referindo Johnson, Le Corbusier, Koolhaas (que faz a capa do Arquitectura em Público) ou Foster; este último com outro tipo de protagonismo, dada a sua própria presença em Lisboa no decurso dessa década e meia pela qual o livro vai passando.

No entanto, a tese de que a generalização do discurso arquitectónico implica a sua própria simplificação é de certo modo paradoxal; até porque, vendo bem as coisas, o desenvolvimento da visibilidade generica da arquitectura em Portugal coincide a com o próprio desenvolvimento da especialização; ou não fosse o caso do número de publicações especializadas ter aumentado significativamente nos últimos anos.

Poder-se-ia, é certo, afirmar sem grande constrangimento que a quantidade de títulos de e sobre arquitectura não representa no entanto um aprofundamento do discurso. E no entanto, se olharmos com atenção para a maioria dos exemplos de mediatização generalista que nos são dados por Pedro Gadanho, constactamos que a maior parte deles não se refere de facto à arquitectura per se, mas antes a questões de somenos importância, pelo menos no que se lhe refere.
Assim, os assuntos polémicos e as discussões públicas são em grande parte ligadas à espuma dos dias: ou é a altura (quase sempre em demasia) de determinado edifício, ou é a sua volumetria (quase sempre demasiado balofa), ou é o traçado ou a traça, ou é ainda o desajuste ao contexto (bastando recordar a recente polémica do Edifício do Rato, de Mateus e Valssassina); sendo evidente que os assuntos, mesmo que prosaicos, que a arquitectura corporiza pouco ou nada transparecem nesse processo de mediatização generalista - isto para utilizar os termos do autor -, e quando assim não é, o discurso tende a ser inconsistente, e desinformado.

Dessa forma, embora seja um facto que a arquitectura (e a cidade) passa a integrar o discurso quotidiano, a forma de o fazer não deixa no entanto de ser desadequada, ingénua, muitas das vezes; e isso - essa simplificação - mais cedo ou mais tarde repercurtir-se-á nas esferas em que a cultura disciplinar deveria ter presença – nomeadamente em termos de opções políticas e estratégicas para o país.

Então, mais do que um instrumentos capaz de colaborar no desenvolvimento ou na resolução de questões, a arquitectura confirma-se apenas como uma posssibilidade de lhes dar forma, em que a suposta qualidade que oferece se sobrepurá a partir de então ao debate ou à reflexão. Uma espécie de vestimenta portanto, como se estivessemos todos dispostos a falar de mini-saias ou de meias até ao joelho.
Este fenómeno ganha ainda maior presença pela tipificação a que os arquitectos se sujeitam - gente cool e bem vestida, cujas certezas são sempre maiores que as dúvidas, e cuja iconolatria ganha contornos messiânicos -, agravando-se através de posições corporativas completamente desajustadas. Basta relembrar aqui o triste episódio do manifesto por Paulo Mendes da Rocha, em que um conjunto significante e preponderante de arquitectos se propunham legitimar um processo sem qualquer tipo de sustentabilidade ética e democrática; assumindo um corporativismo atávico que, para além de escamotear o problema, aceitava a condição de menoridade, delegando a responsabilidade de tão importante obra a um messianico (lá está) Pritker.

Na verdade o problema dos problemas associados à mediatização tem origem nos próprios arquitectos – sendo o resto (a escrita que se faz no Público ou noutros meios de comunicação) apenas e só a sua consequencia.
Assim, quando por exemplo Gadanho relembra as múltiplas referências à arquitectura dita Portoguesa (sic), está sobretudo a referir-se à exasperante ingenuidade com que os media os fazem, não só pelos jornalistas serem na maior parte desinformados; mas também por essas respostas directas e simplistas q.b. terem origem na própria comunidade arquitectónica.

E isso leva-nos ao cerne da questão, referida aliás por Gadanho: a mediatização generalista da arquitectura implicou em certo sentido a uniformização de conteúdos. Para os media só existe uma arquitectura portuguesa, o que quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, essa arquitectura portoguesa não irá deixar que nada mais cresça à sua volta.

De algum modo isto foi possivel por várias razões: a ingenuidade de quem escreve – e, não sei porque, mas estou sempre a recordar-me de Alexandra Prado Coelho, injustamente esquecendo outros tantos jornalistas especializados que enchem as páginas dos jornais de referência -, a confirmação da existência de uma arquitectura portoguesa por parte dos especialistas que vão colaborando nesses meios – e que exercem a sua função sem qualquer tipo de distanciamento ético perante os objectos que se propõem analizar, sendo muitas vezes parte interessada dos acontecimentos e/ou fenómenos que descrevem.

Há, em todo esse processo, um evidentemente deficit democrático. Só que o maior contributo para esse deficit democrático seria exactamente dado pelos cronistas de arquitectura – defensores de tendência, eles próprios pouco diversificados, e que alimentavam um circuito que por sua vez os garantiria legitimização no próprio inner circle da arquitectura -, e não tanto pela incultura do jornalismo especializado, incapaz de tirar conclusões sobre aquilo que se lhe deparava.
Se quisermos ir até um pouco mais longe, percebemos que as recentes investidas de autores-cronistas contra as opiniões muito mais heterodoxas e diversificadas dos blogues não mais são do que uma tentativa de manutenção dessa identidade nacional que tem vindo a ser construída nas páginas dos jornais, e que a partir de agora passa a ser facilmente (visivelmente, queria eu dizer) posta em causa.

Aquilo que podemos concluir da obra de Gadanho é que todo este processo de publicitação da arquitectura é de algum modo um paradoxo. E, em limite, um logro. Porque se é verdade que a arquitectura se tornou mediática, oferecendo-se ao debate público; os sistemas de mediatização da arquitectura testabeleciam os seus próprios critérios, substituindo-se por tal àquilo que seria o objectivo máximo do jornalismo: informar, para que os leitores possam depois construir as suas próprias reflexões.

Pedro Gadanho fala em três fases deste processo de mediatização da arquitectura em Portugal: a primeira ligado a cronistas como Manuel Graça Dias, a João Vieira Caldas ou a Paulo Varela Gomes, onde ao discurso generalista do primeiro se interpunha uma crítica (relativamente) heterodoxa, ligada ainda a um discurso de especialista; a segunda ligada já ao advento de Siza e da sua Escola; sendo o Terceiro ligado a esse mesmo sentido de uniformização do discurso em torno de um modelo, e da sua ascensão enquanto fenómeno típico dos sistemas de moda (o autor do livro usa o termo wallpaper várias vezes), confirmando e sustentanto nomes como os de Siza, Souto de Moura, Carrilho da Graça, Byrne ou Aires Mateus.

Curiosamente Gadanho admite desconher o futuro, ou aquilo que apelida ser a próxima fase de mediatização. Pode ser que sim, que Gadanho tenha razão. E no entanto diria que esta próxima fase poderia muito bem ser ilustrada pela sofisticação e subtileza com que os agentes imobiliários e os políticos lá vão confrontando os opinion makers, fazendo-os tomar o mesmo caminho que os arquitectos um dia decidiram calcorrear, esquecendo-se porventura da sua própria cultura crítica.

E depois, penso mesmo que Gadanho saberá exactamente qual a próxima fase da mediatização.
Diria mesmo que a mediatização é ela própria o principal território de trabalho da arquitectura do próprio autor, cuja carreira assente exactamente na criação de conteúdos arquitectónicos cuja validade per se já não é o ponto flucrar, mas antes a sua intersão numa dinâmica de media que ultrapassa o próprio objecto, espalhando-o e espelhando-o por um conjunto de suportes (escrita, media, arte, etc.) e autores; que transformam, aliás, cada projecto de Gadanho uma peça concreta e rigorosa na construção da sua própria agenda enquanto autor, e da qual fazem parte o seu blogs e as suas revistas, os seus projectos curatoriais e, evidentemente, este livro de que agora se fala.

Faltar às aulas

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(...) isto é o reconhecimento de uma instituição que ensina Arquitectura com grande qualidade, pondo ênfase no desenho, no empenho e no trabalho, disse ao PÚBLICO José António Barbosa. Evidentemente que José deve ter faltado àquela aula do Távora em que se falava de bom senso e sensiblidade.


ps. independentemente desse algo delirante vox populi não garantir por si só lugar na história à desempoeirada obra de Aguiar/Otto, há que admitir que a dupla terá sido bastante mais certeira nas aulas a que decidiu não ir.

Falar de arquitectura

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Bem sei que ainda não falámos de casas - que é uma outra forma de dizer que temos vindo a adiar, não sem alguma injustiça, escrever sobre aquilo que foi a Trienal.


E no entanto, para além de próximas considerações sobre a mesma (brevemente, assim se espera), parece-nos (assim de repente) que esse objectivo de difundir a cultura arquitectónica junto ao grande público parece bem mais conseguido nesta coisa aparentemente tão simples chamada de A Casa e a Cidade. O primeiro e segundo episódios já estão on-line.

Adenda à entrada anterior: H&M

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Foi pelos inícios de 90, acho, que vi pela primeira vez o Herzog, num ciclo de conferências que se organizava lá para os lados das Belas Artes do Porto, que nesses tempos acolhia ainda as gentes da FAUP. Pérolas a porcos, já se vê; ou não fossemos todos demasiado imberbes para perceber que a presença do Herzog, e do Chipperfield, e do Zumthor, e do Moneo, e do Grassi, e do Secchi, e do Frampton, e do Stirling lá pelo auditório do Távoranão só não era a coisa mais normal do mundo, mas, sobretudo, que a oportunidade que nos era dada em ver e ouvir falar toda esta gente ultrapassava em muito o horizonte com que mais cedo ou mais tarde todos nós nos iriamos confrontar.

Do pouco que recordo da fala pausada desse Herzog de há 20 anos, feita daquele tom coloquial que ainda assim imprime alguma intimidade às frases que vão sendo ditas - que nos explicava a razão do mármore nas paredes de uma igreja (ainda ninguém sabia do Bunshaft), o modo como a luz descia pelos lanternins do Estúdio de Fotografia, ou as plantas, simples, daquelas casinhas em madeira, em contraplacado ou em pedra) - já nada resta.

Na verdade, nesses largos vinte anos que passaram desde essa primeira conferência, muita coisa mudou. Nem Herzog é mais o mestre artesão com queda para as fenomenologias tão caras às gentes do Porto, nem nenhum dos então presentes partilha mais da inocência desses dias, onde tudo era novo.
Desses dias, em que ainda não havia nenhuma das El Croquis que tornaria Herzog no arquitecto mais importante do mundo nada resta: nem a curiosidade, nem a intensidade, nem a generosidade; a nossa, e a deles.

Não se trata aqui, evidentemente, de mitificar os bons velhos tempos da dupla (esses mesmos anos que Souto de Moura fez questão de frisar aquando da apresentação da conferência) - até porque, para lá de uma ou duas (ou, vá lá, três) peças absolutamente soberbas, o trabalho da dupla nunca me foi particularmente revelador (a insensatez da Jussieu do koolhaas sempre me foi muito mais inquietante do que a languidez da Jussieu de H&dM, por exemplo) -, mas no entanto parece que, sobretudo a partir dos dias da Tate Modern (cuja obra é evidentemente sobrevalorizada, sobretudo de tivermos em conta, mais uma vez, a proposta do OMA para o mesmo concurso), tudo seria diferente: as oportunidades, as possibilidades, e as ambições também.

Deve dizer-se no entanto que esses são os anos mais estimulantes da carreira de Herzog e de deMeuron: desde o esterotipo da casinha - que só não se tornou numa caricatura pela extrema elegância com que é desenhado - ao já referido Estádio de Beijing, mas também à aparente simplicidade do Centro de Reabilitação de Basel ou daquele edifício de escritórios com as janelas tortas; tudo isso nos foi (nos é) absolutamente tentador. E a razão é simples: há, nessas obras, uma ambição desmedida em fazer arquitectura.
E há inteligencia (porque não dize-lo: génio), sensibilidade e know-how suficientes para tornar Herzog naquilo em que ele se tornou de facto: num dos autores decisivos da história da arquitectura.

E no entanto há um outro lado: o do absoluto desastre.
Poder-se-ia, concordo, alegar que o absoluto desastre está intimamente ligado à matéria que permite produzir obras-primas; não fossem ambos os fenómenos comungar desse elemento que toda a arquitectura digna desse nome detém: o risco.
E no entanto não me parece que o Fórum de Barcelona, tal como esses outros edifícios que a dupla suiça anda a espalhar pelo mundo (Paris, Allschwil, S. Paulo, Guadalajara, Beirute) deva a sua existência a essa ambição desmedida em fazer arquitectura.
Pelo contrário: estas obras e projectos que, num tom algo soberbo e sem qualquer entusiasmo, Herzog mostrou na conferência de Lisboa são apenas consequência da tal presunção (sem água benta), a que se associa uma total displicência dos seus autores. Estas obras não já são mais do que maus argumentos, embrulhados - como numa mau filme de Hollywood - numa arrepiante pele de efeitos especiais, que a torna, à dupla, numa espécie de George Lucas da arquitectura.

Provavelmente muitos daqueles que assistiram à conferência de Herzog e deMeuron, fizeram-no pela primeira vez. Assim, embevecidos pela ingenuidade própria de quem pouco exige, associada a esse encantamento pelo duplo salto mortal à retaguarda, maravilhados com as imagens que afinal nos aparecem publicadas em qualquer revista de quiosque como de banalidades se tratassem, esquecem-se que tiveram à sua frente uma das poucas pessoa a quem ouvir falar de arquitectura poderia ter sido de facto um previlégio.
Foi, no entanto, perdida essa oportunidade de ouvir falar em arquitectura; por um Herzog bem mais interessado em provar as suas habilidades, e em revelar essa sua predesposição imobiliária, do que falar, simplesmente, de arquitectura.

Das razões pelas quais a arquitectura deixou de fazer parte do discurso de Herzog - mais até do que a razão das obras de Herzog terem deixado se ser desconcertantes - haverá com certeza uma mão cheia de explicações.
A primeira será, porventura, a de que a dupla Herzog e de Meuron deixou de ser capaz de se sentar mais do que meia hora seguida num estirador, para passar a ser apenas a testa-de-ferro de uma coisa que é, provavelmente, a mais conhecida multinacional de projectos do mundo: H&M. Uma H&M de luxo, é verdade. Mas ainda assim uma H&M.
Não podemos é continuar-lhe a chamar-lhe, infinita e insensatamente, Haute-Arquitecture, pois não?

Da noite, resta apenas a referência às palavras de Souto de Moura, em busca desse tempo perdido; do qual o Silo de Miami é o melhor exemplo. E uma luz ao fundo do tunel, também.

Crítica ao Futuro

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Does, as author of BLDGBLOG Geoff Manaugh proposes, the designer of the videogame Grand Theft Auto have more influence as an architect than David Chipperfield? Is criticism in the traditional sense still relevant or useful? If the role of the print publication in contemporary production irreversibly declines, what is its future role? What forces will shape architectural production in a post-critical environment? Is, as Kelly writes, a more realistic and rigorous approach to architectural criticism online urgently needed?

Ou, por outras palavras, o regresso da (eterna) polémica d'O Sabor da Crítica, agora, em directo, na Domus. A descoberta, essa , coube a Tiago Borges.

Il Girasoli

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com um agradecimento especial a pahr

Senso e Sensibilidade

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Sense and Sensibility (Bom Senso e Sensibilidade), A Lady (Jane Austen), 1811


Bernardo: abrindo-se aqui a excepção de trazer à ribalta discussões que convenientemente se vão arrumando nas caixas de comentários, não poderia no entanto deixar de responder à tua intervenção n'As Catedrais, de certo originada pel'A evidente relação entre as pirâmides e a excelência e, sobretudo, por alguns dos comentários que essa suscitou; os mesmos aliás que nos levaram ao escrito Orgulho e Preconceito.

Aceitando, claro, a sensata preferência pessoal que demonstras pela Sensibilidade, devo no entanto contrapôr que é sobretudo de senso que falamos quando falamos de (obras) de arquitectura (e não só). O problema não parece no entanto residir no estrito uso do senso, mas antes na opção acerca do tipo de senso que se usa para dela falar.

Bastaria, evidentemente, ir às fonte, para perceber que é na opção pela diferença entre sensos - esse Bom Senso e aquel'outro Senso Comum ao qual tanto uso se vai dando - que se distingue a origem do discurso.
Se por um lado temos essa tautologia aristotélica que nos confirma que o Bom Senso é elemento central da conduta ética, possibilitanto encontrar meio termo e de distinguir a acção correcta, sabemos também que o seu contrário reside exactamente na aplicação quotidiana desse Senso Comum que dispensa qualquer tipo de análise mais profunda, condicionando todas as nossas acções pela espontaneidade que lhe é endémica, e cuja origem revela necessariamente os nossos próprios limites individuais.

Penso pois que tudo aquilo que se refere à suposta injúria sobre o trabalho e o nome - como a (quase) todas as opiniões que de algum modo se vão emitindo sem ter em conta a causalidade entre objecto e vontade - actua exactamente na esfera do Senso Comum, e não tanto na do Bom Senso; facto esse que a torna, à injúria, numa evidente impossibilidade.
Se não repara: o acto de descrever algo baseado apenas numa proposição criada a partir de uma noção de normalidade, dispensando uma análise mais detalhada desse mesmo objecto e daquilo que lhe deu origem, faz com que seja difícil de alcançar qualquer tipo de conclusões que estejam para lá das "jarras de cemitério" ou mesmo de "cenários de filmes de Série B" (conjunto de epítetos, aliás, que - julgava eu - deixaria babado de orgulho qualquer um que tenha bom senso e sensibilidade).

Ora, tendo em conta que o juízo - o de valor, mas também o de gosto - sobre determinada obra de arquitectura (e não só) implica algo mais do que a sua explicação baseada na simples experiência do ordinário, o mesmo se passa com o insulto. Porque, para que o insulto resulte (e o insulto, como arte que é, só nos é verdadeiramente útil quando atinge resultados visíveis) é necessário o uso da exactidão; dessa mesma exactidão que só subsiste aquando do uso do Bom Senso, e nunca da manifestação do Senso Comum.

Se me permites a observação, o problema parece ser outro: não acreditar na possibilidade da especulação. Saberás com certeza que a especulação é, na história da leitura arquitectura, elemento fundamental. É a partir dela que descobrimos coisas, que tentamos respostas, que recusamos realidades menos boas. E tenho por certo que tu próprio valorizarás críticas menos boas, simplesmente porque são essas que nos fazem pensar.

Depois, há uma outra questão, central: a da liberdade. Essa mesma liberdade que te torna tão sensato, e simultaneamente tão autor, é elemento basilar de tudo aquilo que prezas. Na verdade tu próprio dificilmente encontrarás alguém que se predisponha à análise de arquitectura sem que para tal use, aqui e ali, da saborosa maldissencia (se te lembrares de alguém, agradeço que me informes; recordando-te porém que sou frequentar assiduo desses bastidores onde tudo é bem mais divertido). E isso sim, é de elogiar; pelo menos para aqueles que preferem as tentativas (a Sensibilidade) e as tragédias (o Bom Senso) à banalidade (o Senso Comum).

E é aí mesmo, nesse território de liberdade (e não na injúria, como inocentemente sugeres) que pudemos de facto encontrar e perceber os epítetos que afirmas assemelharem-se a "injúrias" (acções, aliás, que deixariam babados quaisquer arquitectos que advoguem, por exemplo, a arquitectura ou o suicídio).
Seria um evidente sinal de generosidade e de curiosidade colectivas se oportunidades houvessem para que mais gente como esta pudesse de facto debater. Viveríamos, então, num lugar de maior civilidade e de heterodoxia, e não num país que efectivamente concede pouco espaço de manobra a todos aqueles que achem que a arquitectura serve para nos pôr em causa, da mesma forma que serve para se pôr em causa.

Quando ao teu pedido em deixar a sua obra "à margem" (notando que é da sua obra que por aqui se vai falando, e nunca da tua pessoa), evitando desse modo "esse refluxo de inertes ressabiados" que populam pelas caixas de comentários d'As Catedrais; resta-me apenas dizer que há um facto que dou, até mais ver, como certo: as obras de arquitectura são coisa pública.
Serás aliás tu, Bernardo, o primeiro a alimentar-me dessa crença, dispensado-te de guardar debaixo da cama aquilo que vem fazendo ao longo dos anos; o que só vem confirmar que todos temos a ganhar com a apresentação, a discussão e a fruição daquilo que fazemos; condição para melhorarmos, colectiva e individualmente.

Adenda (aos comentários d)a entrada anterior

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Com certeza que sim: que o projecto é um projecto feito em velocidade de cruzeiro, sendo mais fruto do hábito (toda a gente sabe que tendemos pouco a reflectir sobre tudo aquilo que nos é habitual), do que de um qualquer desejo. Não se lhe denota qualquer tipo de investimento nem envolvimento, recorrendo a truques (coisa que nada tem de mal) de forma atabalhoada (coisa que tudo tem de mal), abstendo-se de algo mais do que cumprir os mínimos.

De certa forma é um projecto construído apenas à base de estereotipos (propositadamente alguém referiu Byrne na caixa de comentários), desligados, desproporcionados, desadequados; com um desenho pobre - é ver o Átrio ou o Auditório, como AM bem refere, mas também as padieiras e as soleiras, e aquela confrangedora pedra (uma má escolha, que anula a intenção expressa nos alçados desenhados) -, aparentando haver um problema de (in)capacidade de quem, deselegantemente, levou o projecto para a frente (será um curioso exercício tentar descobrir quem, por detrás da extensa lista de nomes espanhóis que fazem parte da equipa de projecto, é a aparejador de serviço).

Não há aqui, evidentemente, nada de grave. Ou nada de errado, sequer, a não ser essa banalidade que pouca justiça faz ao autor. Na verdade a única conclusão que poderemos tirar acerca do Paraninfo é a sua inutilidade. Para nós, para Bilbao, e para o próprio Siza.

A propósito deste tipo de coisas (sobretudo vindas de quem vem) recordo uma conferência do mesmo, que tive oportunidade de ver há um bom par de anos. A conferência, maravilhosa, foi toda ela ocupada apenas com um projecto: a Fundação Iberê Camargo. Nela foram mostradas todas aquelas coisas que ficam esquecidas pela gavetas dos ateliers, ou que normalmente acabam nos cestos do lixo: as dúvidas, os recuos e as hesitações (Iberô Camargo em forma de cubo, Iberô Camargo em forma de pirâmide, Iberô Camargo em forma de tolice), os desenhos feios e menos feios, os equívocos e, sobretudo, todo o tempo que se gastou a inventar aquela coisa.

A uma dada altura, já no fim da festa, alguém terá questionado Siza sobre a razão do evidente desequilíbrio entre o Museu - que, tal como afirma João Amaro Correia, é A Obra de Siza (quer dizer, depois daquilo nada mais há a fazer) - e outro projecto da sua autoria (não me recordo exactamente qual era a obra referida) terminda mais ou menos na mesma altura.
Depois de ter calmamente explicado o processo de encomenda do projecto do Brasil, e o (excepcional) envolvimento da fundação Iberê Camargo, Siza foi claro: aquilo que fez a Fundação ser aquilo que é - repito: o projecto que culmina e supera todo o percurso de Siza - deve-se, segundo o autor, a um facto da maior simplicidade: o envolvimento da parte de quem lhe pede o projecto, e o estímulo que esse envolvimento lhe provoca.

Quer dizer: não haverá boas obras sem bons clientes. Ou, dito estão de outra forma: todos têm o (Siza) que merecem.


ps. já agora, G. Byrne esteve nessa conferência. Embora não possa confirmar o seu grau de atenção para com tudo aquilo que por lá foi dito.

Acerca da proporcionalidade da beleza

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Faculdade de Informática e Electrónica, Combra, 1991, Gonçalo Byrne (imagem via Skyscrapercity)

Ia começar a escrever qualquer coisa acerca do texto da Anatxu sobre o Byrne, e sobretudo sobre aquela frase aparentemente mitológica de Nuno Grande: la belleza de Lisboa es proporciona a su vulnerabilidad. Mas depois arrependi-me. Até porque a beleza é sempre proporcional à vulnerabilidade; sobretudo se não percebermos qual o sentido exacto da proporcionalidade. Ou da beleza. Que no fundo é a mesma coisa.

Adenda à entrada anterior

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Pirâmide Invertida (da série Folies), Pedro Bandeira, 2007

Mas então, o que dizer de um autor que decide assumir definitivamente o peso da história, para ao mesmo tempo torna-lo imponderável, assim, de uma forma tão despudorada?
Dir-se-ia, pois, que se confirma em Bandeira essa tendência de atirador furtivo; como que se as coisas pudessem ser como sempre foram e, simultaneamente, funcionar ao contrário.

Da evidente relação entre as pirâmides e a excelência

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Museu de Arte de Caracas, O. Niemayer, 1954

















Capela da Luz Eterna, Ponta Garça, S. Miguel, Bernardo Rodrigues, 2003/...


Não seria preciso ter lido toda a história crítica do Tafuri, nem todo aquele monte de livros que o Benevolo nos deixou, para tirar a mais óbvia das conclusões que nos é dada pela história da arquitectura ocidental. Essa mesmo, que nos diz aquilo que toda a gente já sabia: não há autor maior que não tenha num ou noutro momento da sua vida desenhado (pelo menos) uma pirâmide.
Desde o Corbusier ao Rossi, do Herzog ao Kahn, passando pelo Boulée ou o Wright, todos desenharam uma pirâmide. Há uma (má) pirâmide do Foster, uma pequena pirâmide do Philip Johnson, a quase pirâmide do Aalto, os pilares em pirâmide do Nervi e os telhados em pirâmide do Candela, um edifício piramidal do Taut, e a base em pirâmide do Breuer . O Tatlin, evidentemente, tem a sua pirâmide. O Zumthor também. O Souto de Moura tem duas, sotadas, e outra inteira, o que dá três. E o Manuel Vicente tem muitas pirâmides, pequeninas; tal como o koolhaas aliás. Há ainda uma pirâmide num esquiço do Siza. E, claro, podemos sempre ver o Mies de um ponto de vista piramidal.
E depois, depois há aqueles outros autores que a superam, à própria história da arquitectura, demonstrando que as coisas são afinal para serem vistas de pernas para o ar.

Adenda à entrada anterior

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Gimnasio Maravillas, Alejandro de la Sota, Madrid, 1961 [fonte: Fundación Alejandro de la Sota]

Do sabor (entrincheirado) da Crítica (2)

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Provavelmente esta discussão em torno do sabor da crítica não reside afinal sobre o seu sabor, mas antes sobre aquilo que implica a própria palavra Crítica.


No fundo tem razão Nuno Grande: o ponto de vista de quem escreve crítica nos blogues não é o mesmo ponto de vista de toda essa gente que, durante anos, viu os seus artigos julgados, recusados, que tiveram que se submeter a escrutínios rigorosos (?) para puderem publicar.
A pergunta que se impõe é, evidentemente, o valor, mas sobretudo a utilidade desse veículo rigorosamente escrutinado. Senão vejamos: cada vez mais parece haver um real distanciamento entre essa academia que Grande defende, e aquilo que de mais interessante a criação arquitectónica tem para nos dar.

Essa academia que Grande parece querer acreditar tende a agir retroactivamente. Analisando, sempre muito, aquilo que foi feito, e prevendo, sempre muito, aquilo que nunca será feito; a capacidade da academia parece estagnar em tudo aquilo que não seja o acto de transmitir um receituário mais ou menos coerente, mais ou menos eficaz.
Não faz parte da sua natureza colocar-se em causa. Recordo, a título de exemplo, uma frase que ouvi da boca de um dos principais responsável pela direcção da FAUP. Dizia este eminente académico que preferia sempre rodear-se (de professores) que pensassem como ele, do que (professores) que viessem pôr em causa essa estabilidade tão cara à academia. Este homem, que com certeza sempre agiu em prol da defesa do conhecimento da FAUP, não mais faz do que procurar manter a barbárie fora de portas; esquecendo-se porventura que é exactamente do lado de lá da porta que reside o grande interesse das coisas e, sobretudo, o finalidade das próprias academias

O problema principal da tese de Grande reside exactamente no facto de que legitimar a Crítica através do escrutínio é – para além de crer cegamente na capacidade de um sistema quase sempre fechado sobre si próprio, cheio de vícios de forma e de limitações próprias daqueles que sobrevivem à custa do número de artigos publicados com peer review (mas alguém já pensou quem é que faz peer review em arquitectura?) – legitimar primeiramente um circuito de conhecimento que, para lá daquilo que possa ter de positivo ou negativo, é ensimesmado, e muito pouco consequente.

Não duvido, claro, das necessárias conclusões de uma tese de doutoramento, nem mesmo de todo esse maravilhoso conhecimento a que se obriga todo aquele que exerce a sua actividade profissional de crítico no seio da academia. E no entanto duvido, claro, da possibilidade de toda essa sagacidade poder ser posta ao serviço da arquitectura.

O problema aqui passa em muito pela incapacidade – para não falar na falta de vontade - da academia ser de facto útil à produção arquitectónica. Aliás, parece que a academia desdenha em muito aquilo que está na base da própria disciplina, tratando a maior parte das questões que a envolvem com a ligeireza própria de quem aredita que estas nunca tenham sequer existido; preferindo antes distrair-se com factos, certamente deliciosos, mas muito pouco consequentes, quer em termos colectivos, quer em termos individuais.

Evidentemente que a dictomia entre a academia e a actividade profissional (T. Hauser) é perfeitamente descabida; pelo menos no plano teórico. Ambas servem um mesmo fim. Só que esse entrincheiramento – ainda por cima consciente – que Grande e seus pares da academia invariavelmente se colocam, implica um total esvaziamento daquilo que produzem; pelo simples facto do conteúdo que produzem só ser lido e discutido em circuito fechado.

Um projecto crítico é obviamente independente do seu suporte (Gadanho), sendo a sua credibilidade dependente única e exclusivamente do seu teor. E isto aplica-se tanto a uma recensão sujeita a peer review, a uma prova académica, ou a um daqueles textos fáceis que se lêem todos os dias na blogoesfera.
Evidentemente que o suporte deste último tem as suas próprias limitações; que passam em muito pela aparente ligeireza dos textos, pela necessária rapidez com que são lidos e, sim, também, pela fácil apropriação por quem quer que seja. E poderemos, claro, olha-la, à Crítica feita na blogoesfera, com toda a desconfiança.

Por outro lado, podendo sempre exercer-se essa capacidade – tão cara aos académicos – em ser criterioso, não nos parece assim tão difícil saber separar a maldicência amadora da reflexão séria e intencionada, independentemente destas aparecerem travestidas de blogue, ou de páginas de uma qualquer revista arrumada na biblioteca de uma qualquer escola de arquitectura. E dessa forma encontrar a credibilidade de um texto publicado num blogue não é assim tão diferente de encontrar credibilidade num texto publicado noutro qualquer suporte.

Não creio saber se aquilo que pode ser entendido como crítica de arquitectura o é de facto, nos blogues. Nem sei mesmo se importa assim tanto limitar a crítica a um suporte.
Aquilo que (me) leva a reflectir sobre um projecto ou uma obra é, em primeiro lugar, tentar percebe-lo, a esse projecto ou a essa obra.
Encontrar-lhe as fragilidades, os erros, as imperfeições é, sobretudo, tentar que essas fragilidades, esses erros e essas imperfeições não se repitam no (nosso) próprio trabalho.
O acto de tornar públicas essas reflexões passa, evidentemente, por querer testá-las. Perceber exactamente a sua validade. E isso não mais é do que repetir um modelo assente na ideia que o debate é útil.

Na verdade esse exercício não é assim tão diferente daquele que nos faz aceitar dar conferências, participar em seminários, ou publicar projectos e obras: a expectativa de discutir, de aprender algo mais; e de tornar esse conhecimento colectivo em algo útil para os projectos que ainda não foram feitos.
Na verdade creio que um acto crítico é, antes do mais, uma acto de generosidade. Uma espécie de feed-back sobre o trabalho dos outros. Tentar transformar essa possibilidade numa trincheira não é portanto um simples exercício de auto-defesa, mas um erro grosseiro, violento até.

Não me passaria nunca pela cabeça pôr em causa um qualquer projecto de arquitectura apenas por este ser feito por alguém que não granjeou ainda qualquer tipo de legitimidade profissional (um académico, por exemplo); simplesmente porque aquilo que me interessa num projecto é o projecto em si: a forma como é pensado, o seu conteúdo, e sua formalização, e as suas consequências disciplinares. Tudo o que se passa para além (ou aquém) disso é portanto dispensável.

Interlúdio (musical)

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Mimesis Museum, Pajo Book City, Coreia do Sul, Álvaro Siza, Carlos Castanheira, 2009 (fonte: Últimas Reportagens / Fernando Guerra)

Fosse por um qualquer lapso, porventura devido a momentânea distracção, e achar-se-ia completamente estapafúrdio aquele bochecho de espaço que sobra da intersecção do pátio com o canto.
Mas não: passada a momentânea distracção, e afastado o correspondente lapso, percebemos que estamos afinal perante um canto. Um simples canto. Um canto de Sereia.

Do sabor da crítica (1)

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Há umas semanas atrás, numa conversa paralela a esse evento cujo teor não mais poderá ser referido, Nuno Grande poria em causa a legitimidade dos Blogues em esboçar qualquer tipo de crítica.
Afirmava Grande que a aparente facilidade com que se aborda uma qualquer obra de arquitectura num Blogue não mais é do que um simples e desagradável exercício de ligeireza e de libertinagem, pouco próprio da responsabilidade a que se obriga todo aquele que reflecte sobre a disciplina.

A Tese de Grande sustenta-se na ausência de qualquer tipo de critério, de crivo, ou de objectividade por parte de todos aqueles que publicam opiniões (maldizentes, na maioria das vezes) sobre o trabalho dos outros; devendo-se tal facto, segundo Grande, à ausência de um sistema de legitimização de tudo aquilo que aparece escrito nos Blogues. Em rigor, Nuno Grande crê que o acto de reflexão e de produção crítica ou teórica nunca poderá ter lugar num lugar (passe o pleonasmo) onde não existe ninguém (para lá do autor) que possa confirmar (ou, em limite, recusar) o teor das ideias ou opiniões que aí são expressas.

Para Grande, expôr uma ideia numa revista, numa academia ou num seminário (onde naturalmente existe um editor, um júri ou um comité científico) será o único garante da qualidade e do rigor dessa exposição; pelo simples facto do seu teor passar a estar validado por um quórum alargado, que necessariamente partilha responsabilidades pelo que é dito ou pelo que é escrito.

Mais: Grande defende (veementemente) que um Blogue que tente reflectir sobre a produção arquitectónica constitui, em primeira mão, um perigo: não só para o objecto alvo de determinada reflexão (e, por arrasto, para autores desse objecto, que desse modo vêm o seu nome e o seu objecto de trabalho arrastados na lama da web), mas também - sobretudo - para o autor do próprio blogue, irremediavelmente associado à prática da libertinagem egocêntrica e da maledicência, doravante impossibilitado de poder exercer a credibilidade em todo o seu esplendor.

Partindo do pressuposto que Grande tem razão, poderiamos chegar todavia a uma conclusão relativamente simples: se reflectir (escrever, falar, críticar, opinar) sobre arquitectura tal como hoje é feito em revistas, academias ou seminários em Portugal equivale à ideia de consentimento, então os Blogues constituem porventura a possibilidade de fuga ao consenso.

Se a fuga ao consenso não será, só por si, facto especial a assinalar, a ideia de autonomia crítica ganha contornos bem mais interessantes se pensarmos no panorama extraordinariamente conservador da reflexão arquitetónica em Portugal. Porque se é verdade que nunca, como hoje, existiram tantas possibilidades de se apresentarem, discutirem e se concluirem ideias - seja através de exposições, conferências, seminários, revistas e outras publicações que cada vez mais enchem as prateleiras das livrarias - certo é que essa multiplicidade de pontos de vista não trouxe qualquer tipo de qualificação ao debate arquitectónico.
Se a divulgação arquitectónica nunca foi tão eficaz, tal facto não abriu no entanto portas a um debate que nos permitesse validar o seu conteúdo, nem mesmo a uma crítica que pusesse em causa o seu valor.

Vem tudo isto a propósito de um texto de Tiago Mota Saraiva (roubado, pel'As Catedrais, ao Facebook) e da (falta de) discussão que provocou, tanto aqui, como ali.
Se a intervenção de TMS procurava de algum modo iniciar o debate sobre a natureza epistemológica (e politica) da Trienal, o tipo de reacções que suscitou resumiu-se a apelida-la de tola (por parte do autor do Blogue de Arquitectura mais popular em Portugal) ou, pior ainda, a etiqueta-la de simples reacção de azedume pessoal.

Este exemplo virá, em limite, dar razão à tese de Nuno Grande: a opinião (pessoal) de Mota Saraiva revela-se frágil. Frágil não tanto pelas ideias de TMS - que não chegaram sequer a ser discutidas - , mas pela falta de sustentação do texto; reflectindo desde logo essa condição (algo limitativa, é certo) da escrita curta e corrida própria dos blogues e de suportes similares.
Por outro lado a publicação do texto não terá, aparentemente, acrescentado nada de positivo ao debate: as reacções que provocou resumem-se a sugestões de má fé do autor, ou então a arrivismos de tom pessoal (é ver o comentário de Ivo Sales Costa n'A Barriga, e posterior resposta de Carrapa).
Sobre a Trienal (que seria o ponto principal da discussão que TMS se propunha a iniciar): nada.

Na verdade venho reflectindo há algum tempo sobre esta suposta validade dos Blogues em suportar discussões verdadeira e colectivamente úteis em torno da arquitectura.
Por um lado tem(-me) sido difícil chegar a conclusões que ultrapassem a esfera meramente pessoal dos textos, opinões ou críticas que são veiculados pelos poucos blogues de arquitectura que de algum modo procuram ser interventivos em Portugal.
Mesmo no caso em que os textos publicados são claros - já que, muitas vezes, o texto original nos surge encriptado -, e devidamente argumentados - o que se demonstra difícil num suporte que não convida à leitura de textos longos - , o tipo de reacções que suscita só pontualmente permite acrescentar algo mais ao texto original.
Por outro lado é cada vez mais claro que um qualquer texto publicado num blogue sobre determinado projecto ou obra é na maior parte das vezes tido como um ataque directo ao seu autor, e não tanto como um contributo para a construção do significado desse objecto. Um simples exercício de maledicência, portanto: destrutivo, inibidor, libertino. E sem qualquer tipo de generosidade construtiva.

São poucas as reacções directas a textos publicados n'As Catedrais. Mesmo aqueles que visam directamente uma obra, concluem-se quase sempre pelo teor do que escrevo; sendo poucas vezes confrontados, e nunca contrariados pelos seus autores.
E no entanto, ao invés de se criarem pontos de discussão e de contrução de ideias, esses são os texto que nos levam a criar imimizades; ou, como diria Nuno Grande: actos que nos levam a cavar as nossas próprias sepulturas.

Percebe-se, então, porque não existe crítica de arquitectura em Portugal: ninguém quer, afinal, cavar a sua própria sepultura. Confirmando, aliás, a resposta que um dia me foi dada por um editor de uma das revistas nacionais com maior implantação no mercado, ao desafio em começar a publicar textos críticos nas páginas da sua revista.


ps. que este texto sirva também de resposta (atrasada, muito atrasada) a Tiago Borges.

A República vista por uma Monarquia

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São do El Pais as primeiras imagens compreensíveis do Fundação Champalimaud. Não partilhando do entusiasmo crítico de Ana Vaz Milheiro ou de António Machado, a obra de Charles Correia será ainda assim um coisa a confirmar. Brevemente.

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Julião Sarmento, Cromlesh, 2010; sobre a Casa Candeias, de Carrilho da Graça

É no mínimo divertido, tentar um cruzamento do último parágrafo do La Buena Vida - Solo a través de un esfurzo así podríamos pensar la casa que aún no tenemos, podremos levantar la casa que nos conmueva por completo - do Abalos com as imagens que Sarmento nos deixa da Casa Candeias: uma jovem nadando na piscina, outra saindo do duche, um queixo, um joelho, uma curva do pescoço.

Por outro lado poderemos sempre aceitar essa ideia que nos diz que a arquitectura não necessita de nos comover por completo. E a arte muito menos. E então as coisas tornam-se, enfim, bastante mais aceitáveis.

Surfin'Bird (Live 2010)

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A-well-a everybody's heard about the bird

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