Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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Orgulho e Preconceito

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Pride and Prejudice, Jane Austen, 1813.

Magda Antunes: abrindo-se aqui a excepção de trazer à ribalta discussões que convenientemente se vão arrumando nas caixas de comentários, não poderia no entanto deixar de procurar dar resposta à sua estimável intervenção n'As Catedrais, sobre o tema desta entrada.

Aceitando, claro, a orgulhosa preferência pessoal pelo Orgulho, devo no entanto contrapôr que é sobretudo de Ego que falamos quanto falamos de (autores) de arquitectura (e não só).
Bastaria, evidentemente, ir à fonte, para perceber que o Ego em si mesmo um mecanismo de defesa pessoal. Não sendo directo, e muito menos consciente, este mecanismo aplica-se sempre que um indivíduo entra em conflito com determindo aspecto da realidade: seja a moral social e vigor, sejam as normas e os tabus, ou mesmo as expectativas (não cumpridas, digo eu) do próprio. Segundo esse tal Freud, esses mecanismo de defesa incluem a negação, mas também a intelectualização, a fantasia, a racionalização e a respectiva compensação, a regressão, a repressão ou a sublimação.

Penso, pois, que tudo aquilo que se refere ao autor em questão - como a (quase) todos os autores cuja obra de algum modo nos vão comovendo, tal como a (quase) todas as obras dignas de atenção - actua exactamente sobre o Ego, e não tanto sobre o Orgulho; cujo teor é praticamente irrelevante na produção arquitectónica, até por ser normalmente um assunto de (irritante) carácter pessoal.
Se me permite a observação, o problema da Magda parece ser outro: não acreditar na possibilidade da especulação. Saberá com certeza que a especulação é, na história da arquitectura, elemento fundamental. É a partir dela que descobrimos coisas, que tentamos respostas, que recusamos realidades menos boas. E tenho por certo que a própria Magda valoriza obras que nunca passaram do papel, e autores que tudo fizeram menos construir.

Depois, há uma outra questão, central: se o autor em causa não constrói mais e melhor, talvez seja pelo facto de haver poucas oportunidade para que isso aconteça. Na verdade a própria Magda dificilmente encontrará "arquitectos dessa geração" que construam (se se lembrar de alguém, agradeço que me informe) alguma coisa com o mínimo de interesse. Pelo menos em Portugal. E isso sim, é que é de lamentar; pelo menos para aqueles que preferem as tentativas, os erros e as tragédias (o Ego) à banalidade (o Orgulho).
E é ai mesmo, nesse território de tentativas, de erros e de tragédias (e não nos Açores, como inocentemente sugere), que pudemos de facto encontrar e perceber as obras que a Magda afirma assemelharem-se a "jarras de cemitérios" ou a "cenários de filmes de Série B" (epítetos, aliás, que deixaria babado de orgulho qualquer um que tenha bom senso e sensibilidade).
Seria um evidente sinal de generosidade e de curiosidade colectivas se oportunidades houvessem para que mais gente como esta pudesse de facto construir. Viveríamos, então, num lugar de maior civilidade e de heterodoxia, e não num país que efectivamente concede pouco espaço de manobra a todos aqueles que achem que a arquitectura pode ser algo mais do que isto ou (ainda pior) aquilo.

Curioso é o facto de Magda agradecer o facto de lhe ser dada a oportunidade de conhecer a obra de Bandeira. Crendo sinceramente que os termos que usa para adjectivar a obra de tal autor não derivem directamente do cinismo (o contrário seria uma facada no meu orgulho), fico sem entender como pode criticar tão acerrimamente a pouca adição cívica de toda uma geração (um erro de leitura, evidentemente), e simultaneamente afirmar a sua adesão a um autor que, por definição, assenta toda a sua obra exactamente na mais pura das especulações (ou: na conversa, por suas palavras).

Por fim, em relação àquilo que refere como arquitectura de excepção, avanço com a hipótese da Magda não conheçer pessoalmente a obra em questão, e muito menos desconfiar que a história da atribuição do Prémio Secil à dita seja um outro maravilhoso caso de egocentrismo; até porque a possibilidade do contrário levar-me-ia a pensar, erroneamente - espero-, que sob o manto do orgulho se esconderia o submisso perfume da moralidade.

4 comentários:

Magda Ant disse...

Regresso de uma curta estada em Berlim nevado, munida de manta moralista (fabricada na China) e sem wifi para me surpreender em directo com os exercícios de ego do seu blog que ora dedica uma dissecaçāo às entranhas das minhas directas palavras, num registo extenso e próprio das academias.

Apesar de discordar com tudo o que diz, de não me comover com voos encantados, contento-me com a elevação da nossa diferença. MA

AM disse...

se a MA quiser um fotografia do meu super-ego para guardar no seu cacifro...

office disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Machado Costa disse...

Caro Bernardo; para além do e-mail tardiamente enviado, junto resposta ao teu comentário. Um abraço

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