Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

| Subscrever via RSS

Da beleza e da consolação

| |

A propósito do que aqui foi escrito, Carlos Guimarães, reage assim:

[...] há que perceber que muitas destas coisas [as críticas, os pensamentos, as analogias, as ironias] são fogo de vista "gritante", são actividade intelectual abrupta, desmedida, esquizofrénica [...]
Depois, não se querendo dirigir a ninguém em especial, lá vai defendendo que tudo ficaria melhor se não nos esquecêssemos dessa coisa a que Guimarães apelida de Beleza das Coisas Simples.

Pode ser que sim. Que Guimarães tenha razão: o exercício da crítica, do pensamento, da analogia ou da ironia serão, em certa medida, exemplos de esquizofrenia. Não sendo, claro, a esquizofrenia um problema menor, sobretudo se pensarmos nela como um elemento que nos classifica; parece, ainda assim, ser essa esquizofrenia um fenómeno mais auspicioso do que aqueloutro por qual Guimarães tanto anseia: a Beleza das Coisas Simples.

Diria, em tom de quem quer passar ao lado desse outro exemplo de esquizofrenia aplicada a que vulgarmente apelidamos de estética, que, para a arquitectura (vamos cingir-nos a ela) se torna absolutamente necessário distinguir entre a possibilidade e a efectividade das coisas, pelo simples facto que essa separação corresponde, aparentemente, à única oportunidade que se nos oferece em construir uma determinada ideia a partir daquilo que se nos é apresentado, seja através de uma obra ou de um projecto, um desenho ou de uma ideia.
Entenda-se: não é a simples aparência das coisas que nos interessa tanto; porque isso corresponderia a assumirmos uma vocação eminentemente erótica à arquitectura.

Não nego evidentemente esta possibilidade, até porque se há alguma coisa de fundamental no (aparente) fim das visões morais que torna os nossos tempos tão interessantes é exactamente isso mesmo: a recusa dos argumentos de autoridade, que nos possibilita pensar na compatibilidade da vontade com a liberdade de consciência e da autonomia.
De certa forma há hoje um lado erótico na arquitectura, e isso não se resume simplesmente à redução pelas imagens que extensamente se publicam um pouco por todo o lado.














Keira Knightley, Scarlett Johansson; manipulação fotográfica a partir de original de Annie Leibovitz [Via E Deus criou a mulher]


Quer dizer: aceito perfeitamente a possibilidade de validar o erotismo aparente (ou, por outra, o aparente erotismo) nas obras de Sofia, como em qualquer outra obra de arquitectura que consideremos relevante. Julgo, aliás, ter referido isso mesmo, quando distingo (comparo) a intransponível intimidade da Casa, confrontada com a disponibilidade, apenas aparente, de Sofia revelada pela presença do seu corpo nu; tendo em conta, sobretudo, que esse corpo pertence à autora da obra, e não a um qualquer modelo anónimo.

E no entanto parece-me que aquilo que permite estabelecer o valor da Casa de Sofia - que, vale aqui como simples exemplo, entenda-se - reside exactamente na nossa capacidade de distinguir entre a efectividade da obra e as possibilidades que ela nos proporciona; ou antes: a capacidade de distinção entre a nossa própria intuição, digamos, sensível para um determinado objecto e o entendimento que se lhe corresponde.

Assim, o aparente envolvimento de Guimarães com a Beleza Simples da (Casa de) Sofia não passa de uma propensão sua por determinados aspectos, digamos, eróticos, da obra. Podendo de facto essa dimensão contribuir para a construção identitária da obra parece, ainda assim, que isso não bastará para concluirmos do seu valor.

Das duas uma: ou a Beleza das Coisas Simples corresponde, para Guimarães, a uma construção entre as coisas e as suas possibilidades de representação relativamente a conceitos próprios – sendo isso, evidentemente, já em belo exemplar de esquizofrenia compulsiva; ainda que pessoal e íntima, por Guimarães nada ter registado (publicamente) sobre o facto –; ou, pelo contrário, a assunção dela equivale a uma intuição, facto esse que, em limite, anula quaisquer possibilidades de representação do próprio objecto, transferidas que estão para o efectivo.

Nesse último caso, simplesmente, aquilo que Guimarães propõe será, não um retrocesso, mas um regresso à origem das coisas: uma Casa de Adão no Paraíso que, como ambos sabemos, é uma impossibilidade. Ainda que denote uma tentativa de exorcizar o nosso legado moderno (Duchamp incluído), esse desejo não mais é do que pura demonstração de uma doçura maternal, mais própria de romantistas anacrónicos do que propriamente de alguém que cita, tão bem, Cedric Prize: Dialogue might be the only excuse for architecture…

O que quero dizer a Guimarães é que sim, que há, claro, sempre, o desejo implícito da beleza. O problema é que essa beleza depende somente de nós próprios, o que, em limite, não nos deixa grande espaço de manobra. E o pouco espaço que há torna-se, dessa forma, uma singularidade.
Explicá-la, a essa singularidade, implica obrigarmos determinado objecto ao nosso ponto de vista; até porque a beleza - da Casa de Sofia ou da Casa de Lavra - não subsiste por si só.

Não lamente por isso. Para o bem e para o mal, é em nome dessa exigência de autonomia que a todos nós tem caracterizado, que o nosso universo amoral, laico, liberto de constrangimentos normativos, tende a recusar todas as referência àquilo que nos é exterior. E, nesta condição, não será de admirar que a própria arquitectura se tenha rendido ao imperativo de responder àquilo que são, afinal, as nossas naturais limitações.














Ford's Foudation, Keira Knightley, Scarlett Johansson, Tom Ford; Capa da Vanity Fair, Março 2006; sobre foto de Annie Leibovitz.


E no entanto repare: ainda assim tudo isto se tem vindo a tornar mais e mais entusiasmante. Como se a consolação pudesse de algum modo ultrapassar, em grau de interesse, a beleza substantiva das coisas.

Espero por isso ter conseguido contradizer a afirmação, de Guimarães, acerca da arquitectura que mostro (bela, nas palavras de Guimarães): ela não difere assim tanto da arquitectura que falo (que escrevo).

[ps. Em tudo o mais que Guimarães refere - desde a tese da incompreensão dos arquitectos por parte de quem os rodeia ao lançamento de uma proposta aberta cujo teor receio não ter compreendido na sua total amplitude -, resta-me dizer que cá estaremos para o que der e vier.
Quanto a essa outra esquizofrenia que é escrever com maior periodicidade do que aquela que se adequa ao tipo de leituras, mais esporádica, de um blog; aceito a observação. Para depois do Verão espera-se poder diminuir o número de post semanais]

2 comentários:

alma disse...

Pedro,

Nada de reduzir as postas depois do verão ...

a minha esquizo... não me permite entender o significado do texto do Guimarães.

só sei que de esquizo todos temos um pouco :)
so what !?

Carlos M Guimaraes disse...

parte II, inclui proposta!

http://lugardamente.blogspot.com/2009/07/parte-ii-entre-o-optimismo-e-carne.html

Tags