Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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Haute Cuisine

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Fundação El Bulli (projecto); Enric Ruiz Geli, Cloud 9; 2011.

Mais cedo ou mais tarde esta ideia de tomar um cozinheiro por homem de cultura tornar-se-ia insustentável.

5 comentários:

pedro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno disse...

Até nem é que estejas errado em relação ao (confuso?) projecto de Ruiz Geli mas não ser para ti evidente que um cozinheiro é necessariamente uma pessoa de cultura(s), mesmo que não de todas as culturas evidentemente, é uma afirmação de lesa gravidade. Qualquer coisa como pôr ketchup numa ostra.

Quando as Catedrais eram Cultas disse...

A frase do Bruno confirma essa tendência tão admiravelmente panteísta (god is everywhere under a woman ́s skirt inside a man ́s pants) de achar que há uma pessoa da cultura em cada esquina: artistas são pessoas da cultura, cozinheiros são pessoas da cultura, modelos são pessoas de cultura, modistas (ou assim se chamavam numa altura em que poucos eram criadores) são pessoas de cultura, jornalistas são pessoas de cultura, medicos são pessoas de cultura. Até os banhistas são pessoas de cultura, sobretudo se frequentarem Vals aos sábados à noite. Por essa lógica, um destes dias ainda os arquitectos também passam a ser pessoas de cultura.
Mas não: banhistas são apenas banhistas, e nãp precisam de saber nada demais, a não ser, talvez, nadar; tal como os médicos (curar), os jornalistas (mediatizar), os modistas (vestir), os modelos (despir), os cozinheiros (esta é óbvia: fazer água na boca), e os artistas (estes na verdade não precisam de saber fazer nada, pelo menos depois daquela história da Fountain).

Em relação à simpática proposta das Ostras com Ketchup (deduzi que era de facto uma proposta, dado que parto do princípio que um homem que crê na cultura nunca olha para o experimentalismo a partir do preconceito); nada que Nigella Lawson (essa, sim, uma pessoa de imensa cultura - confirmada por todos os habitués da Sic Mulher, mas também por essa old fashioned mas ainda assim culta Life Magazine) não resolvesse com a sua superior capacidade de argumentação silogística.

Conclui-se, afinal, que Bruno não deixará de ter razão: se encontramos em Nigella toda essa capacidade que advém do mais puro exercício da hermenêutica, então Deus está mesmo em todo o lado.

Bruno disse...

Nada disso Pedro, por muito que gostasse nunca conseguiria ser tão generoso ao ponto de ser panteísta. Um cozinheiro é um cozinheiro, um modista é um modista um arquitecto é um arquitecto. Claro que cada um destes será melhor se tiver pelo menos uma consciência do que existe fora do seu métier estrito (salvo no caso do artista, do músico ou do escritor que realmente não carecem dela de forma tão evidente). O que defendo é que o cozinheiro será das profissões mais dependentes (quando a um nível superior) desta visão, digamos abrangente. Claro que há sempre caricaturas, Nigellas, Calatravas, Vasconcelos, etc, que nos conduzem o olhar para a periferia das coisas. Ficamos lá o tempo que a ela queiramos dedicar antes de voltar às coisas mesmas.
Não consigo ser igualmente tão generoso ao ponto de entender que todo o experimentalismo é bom porque sim, nem acredito que o espaço entre o preconceito e o experimentalismo seja um espaço vazio de acontecimentos. Mas se é de um preconceito que tenho de me armar para declinar uma simpática ostra com ketchup, seja.
Concluindo: a Nigella o que de Nigella, à hermeneutica o que da hermeneutica, e a Deus o que fôr dele, o que segundo as nossas leis anti-monopólio nunca será todo o lado.

Quando as Catedrais eram Brancas disse...

E ainda em relação ao assunto, favor consultar o recente texto de Massad; que entre outras coisas, diz o seguinte: y tal vez sea el constatar que aquí innovación y creatividad no sean sino una impostación de la complejidad que aboca a la banalidad.

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