Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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O Homem que sabia desenhar

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Civic Centre [ esboço em grafite sobre papel], Philadelphia, 1957, L. Kahn [via Colecção MOMA]


Digamos antes assim: o facto de Hejduk demonstrar eventuais lacunas no acto do desenho é perfeitamente irrelevante para a qualidade da sua obra.
Sendo inegável que a nossa cultura arquitectónica assenta muitas das vezes na virtude do desenho - muito por culpa, diga-se, a tradição do ensino das belas-artes cujas escolas por onde passámos (e continuamos a passar) não se conseguio ainda desvincular - certo é que ao virtuosismo não se lhe reconhece qualquer tipo de obrigatoriedade, nem mesmo de preponderância, no que diz respeito à qualidade de uma qualquer arquitectura.
















Court House [esquisso: tinda sobre papel], 1934, Mies van der Rohe [via Colecção MOMA]

Tomando como princípio que o desenho integra de facto o (nosso) método de projecto, o seu exercício é apenas um factor, entre tantos outros, que implica o processo em si. Saber desenhar tem por isso a mesma importância que saber interpretar, que saber ler, que saber dominar, inventar ou desenvolver tudo aquilo que ocorre na feitura de um projecto de arquitectura.
Da mesma forma que o domínio do desenho ajuda a quem a ele recorra, desconfiamos também que o ser exercício implica as consequências que são próprias das suas limitações; não soubessemos, todos, de antemão dos enganos que depois somos levados a corrigir, apenas por termos seguido tempo de mais um esquisso traidor.










Miami Art Museum [esquisso (J. Herzog)], Florida, 2007 (?), Herzon deMeuron

Se saber desenhar é uma virtude, ela é concerteza suplantada pelo projecto, de longe um processo bem mais complexo do que o simples exercício de traçar uns quantos riscos no papel.
Se a valorização do desenho explicita uma certa forma de pensar arquitectura, qualificando-a; o contrário não deixa de ser verdade; sendo, curiosamente, o caso de Gehry paradigmatico desse fenómeno onde o desenho apenas expressa um desejo, e não exerce qualquer tipo de controlo sobre o resultado final, entregue que está a rigorosas Catia's.
Neste caso Gehry ou Hejduk - um menos que o outro, é certo - são exemplos de autores de um mesmo universo, no qual o desenho é apenas participante. Um participante não vinculativo.













City Hall [ esquiço: grafite sobre papel], North Canton, Ohio, 1965, R. Venturi
[via Colecção MOMA]

Saber desenhar será certamente útil. Mas muitos são os que sabem desenhar, sem que lhes descubra qualquer tipo de validade nas suas propostas arquitectónicas. E estou a lembrar-me (não sei porque razão), dos primeiros óleos de Hadid.
O contrário também é verdade. Sendo Hejduk - um homem que soube desenhar arquitectura mesmo não sabendo desenhar no papel -, mas também, com mais ou menos virtuosismo, Kahn, Souto de Moura, Herzog ou Mies exemplos disso.

4 comentários:

AM disse...

parece-me bem :)
no "caso" Gehry - estou cá desconfiado... - o desenho exprime muito mais que ("apenas") o desejo :) (acho que isso se deve a um leitura superficial e incompleta do trabalho da sua - dele - obra... de "desenhador")
não quero abrir nova frente de batalha :) mas gostei de fantasiar a tua - dele - Cátia dominadora :)))))

Quando as Catedrais eram Brancas disse...

Todos nós temos uma Cátia Dominadora.
Cheers.

Quando as Catedrais eram Brancas disse...

Só ficará em falta a abordagem ao cego Borges. Mas haverá certamente oportunidades por aí.

Ricardo disse...

Como disse Loos - de quem Tristan Tzara dizia ser "o único cujas realizações não são fotogénicas" - já em 1910, "Por culpa do arquitecto, a arte de construir degradou-se, tornou-se numa arte gráfica".

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