Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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Sobre o Desenho, outra vez

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Enric Miralles, Como acotar un croissant


Poderia então concluir-se que há aqueles que, por bem desenhar, desenham (quase) sempre bem. Sem no entanto saber porquê, nem mesmo para quê.
Depois há as gentes para quem a teoria e a história - fulcrais, já se vê - são exteriores ao desenho. Esses normalmente desenham mal. Mas no final, claro, sabem sempre porquê.

16 comentários:

Pedro Jordão disse...

E ainda nada por aqui tinha sido tão insolentemente certeiro. Concordei sempre com tudo, tendes a ter razão, fosses outro e isso provavelmente seria um tédio. Deu gosto ler esta elegância cirúrgica.

AM disse...

não, não podes nada concluir coisa nenhuma parecida com a que (d)escreves na posta
o desenho transporta em si a sua (própria) "sabedoria"
o desenho inventa o saber
não é possível desenhar "bem" e não saber porquê
"a teoria e a história" (fulcrais, evidentemente) nunca são (mas que raio de "fixação"...) "exeriores ao desenho"...
não há nada, no sentido que (d)escreves, "exterior ao desenho"
quem desenha aprende a saber o que faz (e a fazer o que sabe...) e quem sabe o que faz nunca desenha mal
podem desenhar "feio" mas isso é uma coisa completamente diferente (até porque a beleza tem muito pouco a ver com a saber)

Pedro Machado Costa disse...

António, António,
a polémica atrai-(te). Eu sei.
E no entanto repara: lá por tratarmos o termo desenho de forma tão desigual, não quer isso dizer que não estejamos, vá lá, a falar da(s) mesma(s) coisa(s). Pois não?
E por isso que, sem retirar uma vírgula àquilo que tanta ânsia te dá, sou levado a confirmar as tuas palavras.
Pensava que para bom entendedor...

Pedro Machado Costa disse...

ah...e não posso deixar escapar essas palavras que só servem para desfazer corações. Só não sei se isso será ciência ou romantismo. Provavelmente serão um e outro.

AM disse...

a polémica atrai odp como a luz branca (das catedrais) atrai a traça :)

prometo que o próximo coment sai à lá Pedro Jordão...

Pedro Jordão disse...

"podem desenhar "feio" mas isso é uma coisa completamente diferente (até porque a beleza tem muito pouco a ver com a saber)"

Ora isto não é de todo verdade. E são equívocos como este que sustentam projectos medíocres a partir de discursos teóricos tão interessantes como mal aplicados.

(O apuro estético não pode ser o objectivo em arquitectura mas é sempre uma consequência de um bom projecto. Não conheço um único caso que invalide isto.)

De resto, a teoria está antes do desenho e é por isso que lhe é exterior. Lança mas não guia o traço. Mas como é muito mais fácil dominar princípios teóricos e construir discursos mais ou menos plausíveis, dá jeito fingir a sobrevalorização do desenho. Isto é tudo muito antigo.

AM disse...

deliciosos jogos de palavras
podemos alimenta-los até ao infinito...

a teoria não está antes ou depois, está no próprio desenho
teoria sem desenho é coisa estéril e pretensiosa
desenho sem teoria é (sublime ou merda) o que "calha" (e pode até calhar que venha a ser "arquitectura"...)
a beleza não é "apuro estético"
beleza é "experiência estética"
sobrevalorização ou subvalorização do desenho, então!? a cada um o "desenho" da sua teoria
numa coisa estamos de acordo: isto (da arquitectura) é tudo muito velho (e agora até o messias secilizado é da geração deus Zum-thor...)

alma disse...

LOL,
um tal de Leonardo de uma aldeia na Toscania já dizia "a arquitectura é coisa mental".

Pedro Jordão disse...

AM, quando te predispuseste a alimentar jogos de palavras ao infinito, não estavas a brincar - simplesmente é uma afirmação que corresponde mais ao teu comentário do que ao meu. De qualquer modo, não vi até agora ninguém falar de teoria sem desenho ou de desenho sem teoria (mesmo que se veja muito por aí um e outro). Mas percebe-se que continuamos a discordar num ponto - eu vejo um ponto a partir do qual o desenho tem uma autonomia face à teoria e que também aí se joga a mediocridade ou a excelência.

E, já que se vai repetindo o conceito que pelos vistos criei, o que é um comentário à la Pedro Jordão?

AM disse...

Pedro Jordão
eu também vejo esse ponto em que o desenho ganha a carta de alforria da sua "autonomia"
é o ponto onde o desenho não é mais (ou ainda...) desenho de arquitectura
é o ponto onde o desenho "de" arquitectura se "esquece" que é desenho "para" a arquitectura
é o ponto onde o "fazer render" digámos à (lá) Bernardo Rodrigues passa por "desenho de arquitectura" - com direito à divulgação nas "revistas" (que temos) e a conferências nas "universidades" (que merecemos...)
não só não tenho nada contra, como gosto cada vez mais, do desenho "livre"
o desenho de arquitectura é que (lamento...) é outra coisa...

nota: um comentário à lá PJ é um comentário vestido de preto...

Pedro MC
o Pedro Jordão é mais ou menos "violento" que o GAD!?... :)

Pedro Jordão disse...

AM, percebo agora que tens estado a falar sozinho. Nem sei se chegámos a discordar porque estivemos sempre em conversas diferentes. Claramente, o que tentas rebater não existe no meu discurso. Sou insuspeito para desvalorizar a teoria na arquitectura e nunca falei de um desenho autónomo (há que saber ler), da forma pela forma, como se estivesse a falar de uma arte decorativa. (E o exemplo do Bernardo Rodrigues nem é particularmente feliz - a ser criticado, tens que começar pelos princípios teóricos, que tem, e não pelo desenho.) Mas defender que o desenho de/para/na arquitectura nunca decorre (ou não deve decorrer) de uma sensibilidade formal particular é pura ingenuidade. O que não quer dizer que se fale de uma autonomia sem memória ou sem pensamento - a partir daí já é interpretação fantasiosa.

AM disse...

peço desculpa pelas minhas falhas
não conheço os - como é que é mesmo... - os "princípios teóricos" do BR... (serão aqueles do "fantasma" do Corbu e do Mies a urinarem na "revisitação" às suas próprias obras!?...)
se calhar (mas se não era o que eu dizia com os "jogos de palavras"...) se calhar estivemos mesmo a escrerver sobre coisas diferentes
concordo com a "inclinação" do desenho para uma (ou mais do que uma...) "sensibilidade formal" mas quanto à "autonomia" do desenho, e se não te importas, fico na minha
cada um com a sua, aliás, que assim é que é bonito

pelo sim pelo não e para perceber o meu solilóquio talvez valha a pena reler a posta no seu original

menina limão disse...

Se a resposta partiu do princípio que eu defendo a arquitectura do Bernardo Rodrigues, o alvo foi mal escolhido. Mas que existem princípios teóricos por detrás do que faz, não há dúvidas. Se se concorda ou gosta ou não, é uma discussão à parte. Até porque não se está a falar (presumo) de uma teoria correcta, universal e indiscutível. Por isso mesmo, quanto à autonomia do desenho ou seja do que for, podes ficar com a "tua" agora e sempre. Acho que isso nunca esteve em causa. E não sei de que posta falas.

Pedro Jordão disse...

(Devo dizer que só agora fui alertado para o facto de ter usado um computador em que já estava aberta uma conta do google. Conclusão: pensei ter deixado o comentário em meu nome e acabei por deixar no de outra pessoa.)

Pedro Machado Costa disse...

ah...ok.É porque se isto já estava confuso sem a Menina Limão, agora é que eu já não estava mesmo a perceber nada.

No entanto acho que posso ajudar a clarificar a polémica (que, como tive já oportunidade de referir, julgo não existir). Aquilo que fará mais confusão ao António é, acho, o texto original referir "o desenho [...} sem saber porquê, ou mesmo para quê".
Dessas palavras extrapolou o António a ideia de que o desenho é autónomo de toda uma cultura arquitectónica; coisa que, concordemos,ninguém aqui acredita (nem aceita,pelo menos pelas palavras que li de Pedro Jordão,de António Machado, ou mesmo da Menina Limão).
Recordo a origem deste tema: duas imagens de duas casas (a Casa do Gerês,da dupla Correia/Ragazzi, e a Casa de Penafiel, de Cláudio Vilarinho; formal e tipologicamente muito semelhantes mas, ainda assim, apresentando-se como peças completamente distintas em termos de qualidade arquitectónica), tendo-se dito, a propósito, que o desenho fez, aí, toda a diferença.
Evidentemente que o termo desenho procurava ser mais amplo do que o gesto ao qual chamamos de desenhar (essa era pelo menos a leitura que lhe queria dar).
Nesse sentido, para concluir, julgo que não há (aqui) ninguém a discordar desse ponto de vista. Pois não?

Pedro Jordão disse...

Pois não. E a Menina Limão também concorda.

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