Quando as Catedrais eram Brancas, notas breves sobre arquitectura e outras banalidades, por Pedro Machado Costa

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A Trágico-Maritima e outras histórias

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Há coisas que não se parecem com nada: numa das estradas da ilha de S. Miguel repousa uma casa (julgo que é uma casa) que é, na verdade, um barco. Um barco empinado sobre a terra.
Este barco, esta casa, está bastante afastado do oceano, pelo que desconfio que a coisa não é fruto do acaso.

[Para aqueles que não fazem a mínima ideia de qual casa me estou a referir – pelo menos aqueles que têm a minha idade - a imagem mais próxima que vos posso oferecer é a do Barco de Chanquete, que dava guarida ao barbudo pescador da série de televisão espanhola.]















La Dorada: el barco de Chanquete, Verano Azul, 1981

Ora, do mesmo modo, desconfio que a Casa do Voo dos Pássaros, tal como a Capela do Céu e a Casa da Nuvem Flutuante, não é (são) fruto do acaso. Os três projectos revelam a insensatez de quem faz arquitectura por puro empenho dos sentidos; como que o mundo todo se explicasse pela arquitectura.

O desenho do tecto da Capela do Céu é deixado ao livre arbítrio das nuvens atlânticas, que atravessam os Açores quase sem dar por isso. A Casa da Nuvem Flutuante é uma espécie de exercício taxinómico da arquitectura: desventra-se o seu interior, para se revelar que a disciplina tem a capacidade de se ultrapassar a ela própria. E a Casa do Voo dos Pássaros confirma a hipótese da ânsia do Capitão Ahab ainda existir: correr atrás da baleia branca, como se isso fosse o único propósito da (sua) existência.

Receio que algum dos três projectos, num dia longínquo, se possa confundir com a Casa/barco que tão estranhamente julgamos cada vez que por lá passamos. Mas este risco, entre o patético e o sublime, sempre foi a natureza mais interessante que o pensamento teve para oferecer.













Moby Dick, John Huston, 1956.

Quando ao seu autor, duas hipóteses lhe vislumbramos: perseguir eternamente a Baleia Branca ou parecer nela, enliado na teia de cordames que ele próprio tem vindo a tecer em sua volta.
Qualquer dos fins será, sempre, um belo princípio.

12 comentários:

simoes disse...

Que saudades do Piranha...:)

João Miguel Mesquita disse...

apenas para ilustrar melhor este post e para que os saudosistas se consolem...http://www.veranoazul.org/?p=12

João Miguel Mesquita

Pedro Machado Costa disse...

bastava ter clickado na imagem...

João Miguel Mesquita disse...

meu caro, nem por isso,embora partilhemos o mesmo mundo global, e a mesma filosofia nesta imensa rede que é a Internet, nem todos usamos os mesmos sistemas operativos, e todos podemos optar por não ter determinadas ferramentas o que fiz foi colocar uma foto que permitisse um aceso limpo e esclarecedor ao teu post. Só mesmo numa de ajudar, mas tal e qual como diz o outro, jamé o voltarei a fazer...a ver vamos...

AM disse...

convêm não esquecer o melhor trabalho de Bernardo Rodrigues: a Casa da Passara que Passa - CdPqP

para (re) ver em:
http://odesproposito.blogspot.com/2008/05/inditos-de-bernardo-rodrigues-1.html

quando-as-catedrais-eram-brancas disse...

JMM: é só um flash: nada que não se arranje por aqui ou por aí.

AM: não esqueçemos. Nem nada.

quando-as-catedrais-eram-brancas disse...

simões: Piranha? Saudades é da Bea...

alma disse...

interessantes deambulações :)))
conheço o tal barco/casa em último suspiro de um naufrágio :) penso que era de um holandês (talvez pirata saudosista) apareceu nos bons tempos do expresso uma foto da mesma do Topê ferreira no principio dos anos 90...

simoes disse...

ui...a bea...:)

Vitor Marques disse...

Como cliente que encomendou a Bernardo Rodrigues o projecto da Casa da Núvem Flutuante afirmo que após muitas conversas (algumas à volta de um bife Alcides) resultou num projecto pleno de satisfação para os clientes e tanto quanto sei, também, para BR. Quanto ao resto, caro Pedro Costa, discutir numa próxima visita à ilha.

Vitor Marques disse...

poderemos

Pedro Machado Costa disse...

Caro Vitor Marques: é sempre um prazer ler um patrocinador de Ahab's. E isto é, obviamente, um cumprimento. Falaremos concerteza. Embora prefira, por razões eminentemente pragmáticas , o bife do Aliança. Em troca exigirei uma visita ao tal vôo dos pássaros.

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